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O Problema e a Pergunta
Postado em 43 de Confusão de 3175 YOLD , às 9:74:88 View CommentsJá disse uma vez Adam Smith: o sonho dos homens é viver colhendo o que não plantaram (no sentido de não precisaram plantar). E eu acho que talvez a ambição de todo o sistema sócio-econômico contemporâneo, pelo menos quando se trata de por que as pessoas em geral (em oposição ao pessoal que lucra com isso e etc) o apóiam, seja justamente essa. E nunca estivemos tão perto disso.
E bem, pra isso há um problema: isso não é possível. Não é possível esperar que as plantações – veja bem, não as frutas espontâneas das florestas, mas as plantações – surjam do nada. Não é possível esperar que a casa vá se limpar sozinha, nem que a louça vá se lavar sozinha, nem que o DVD player de 50 reais vá se montar sozinho sem uma mão chinesa e etc etc etc.
E pra todo o trabalho sujo que precise ser feito pra que algumas as pessoas possam aproveitar de um bem ou serviço é necessário alguém que o faça – melhor, que o aceite fazer. Eis um motivo, bem repetido pelo meu professor de geografia, pelo qual diferenças sociais vão sempre existir no capitalismo.
Sabe, acho interessante esse negócio de cuidar da própria vida; seja lá porque gosto da ideia de independência ou porque sou masoquista, há algum tempo li não sei onde um post de alguém meio revoltado com essa “automatização” e “prontificação” de tudo. Uma frase do post era algo como “porra, eu ainda quero fazer alguma coisa”. E me sinto exatamente assim. Não vejo nada de tão horrível em lavar louças: dá preguiça – e sou um péssimo lavador; não só demoro muito como metade da conta de água do mês deve ser por causa de uma lavada minha – mas eu acho até divertido passar umas duas horas da manhã de domingo ouvindo música e lavando a louça de um fim de semana sozinho em casa. Não vejo nada de horrível em cozinhar: na verdade quando morar sozinho é que justamente quero cozinhar.
A questão é que talvez as pessoas ainda fizessem mais isso se a rapidez e a “terceirização” – ou o que o documentário The Corporation definiu como “exteriorização”, no caso de empresas – não fosse tão imposta pelo ritmo moderno; o ritmo moderno é basicamente muito trabalho e trabalho mais rápido. Especialização, especialização, cada vez mais especialização – ou talvez mais conhecimentos diferenciados, o que seria um outro jeito de tornar a vida do cidadão algo bem cheio… Somos colocados nessa corrida louca por atualização, trabalho, dinheiro, trabalho, sucesso. O que exatamente é sucesso? É quase a mesma pergunta que há alguns dias vi numa vinheta da MTV: O que é qualidade de vida? Ter o “carro do ano” (acho engraçada essa expressão, sei lá porque ahEhae) ou viver numa cidade com ar puro, transporte público de qualidade, etc? O que é sucesso? Ter tempo disponível pra fazer uma coisa só e deixar todo o resto nas costas dos outros? É claro que nem sempre é assim; a questão é que muito se tornou indireto mas muitas vezes há empresas que fazem as coisas – mas, em última instância, os trabalhadores dessas empresas também precisarão fazer suas coisas e por aí vai…
A pergunta é: isso é realmente necessário? Toda a crítica ao trabalho vai muito além disso – e obviamente além de mim; leiam o texto de Bob Black intituilado “Abolição do Trabalho” se quiserem, é fantástico. Mas o que quero dizer é que, pra termos de felicidade e satisfação pessoal, não seria muito melhor dividir nosso tempo entre trabalho – considerando o trabalho, é claro, como uma atividade que ao mesmo tempo é útil e colabora para com a sociedade também nos é prazeirosa – e lazer, amizades, educação, tarefas de casa e mesmo de sociedade – limpar as ruas, fazer reuniões pra tomar decisões de interesse comum…
Não seria?
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Good Ridance
Postado em 31 de Confusão de 3174 YOLD , às 6:72:93 View CommentsAnother turning point
a fork stuck in the roadTime grabs you by the wrist
directs you where to goSo make the best of this test
and don’t ask whyIt’s not a question
but a lesson learned in timeIt’s something unpredictable
but in the end it’s right
I hope you had the time of your lifeSo take the photographs
and still frames in your mindHang it on a shelf
of good health and good timeTattoos of memories
and dead skin on trialFor what it’s worth
it was worth all the whileIt’s something unpredictable
but in the end it’s right
I hope you had the time of your lifePara quem não entendeu muita coisa (com adaptações e erros):
“Outro momento decisivo, uma encruzilhada em sua estrada.
O tempo lhe agarra pelo pulso, direciona o caminho a seguir.
Então então dê seu melhor neste teste e não pergunte o porque, isto não é uma questão, mas uma lição que se aprende com o tempo.
É algo imprevisível, mas no final dá tudo certo
Espero que você tenha aproveitado sua vida.
Então pegue as fotografias e as imagens vivas em sua mente, coloque-as no canto da estante “da boa saúde e bons tempos”
Tatuagens que são memórias, no julgamento é pele morta.
Porque o que vale hoje, valeu o tempo todo.
É algo imprevisível, mas no final dá tudo certo
Espero que você tenha aproveitado sua vida.”Tenha suas próprias conclusões…
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Entre o fantástico e o simbólico
Postado em 25 de Discórdia de 3174 YOLD , às 7:12:19 View CommentsTim Burton é um diretor fantástico. Mas além dos filmes que faz, ele também escreve, e escreve muito bem, por sinal.
No livro “O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra”, os desenhos são vívidos, intensos, marcantes; as rimas por vezes não existem ou fazem o ritmo da poesia mudar, o que combina de forma elegante com a história.
Estas, “combinando a doçura e a tragédia da vida”, como disse Felipe Barcinski no livro, são viagens artísticas do mais alto nível, e que ainda te deixam entre dois mundos. Você se emociona, ainda que as situações sejam bizarras, mas também aceita o desafio intelectual de compreender algum simbolismo por detrás delas, alguns às vezes provocativos, desses que chamam com voz doce o senso investigativo, como o bebê âncora. E, afinal, o que significa ter um filho com o forno microondas???
Entre o simbolismo e a fantasia. Assim vive a criatividade estupenda de Tim Burton. Os temas do livro geralmente são a busca por aceitação e adequação (personagens que sentem-se tristes e distantes por serem diferentes), a filiação (nunca conheci alguém que colocasse de forma tão brilhante no papel o que eu acho sobre ter filhos), a inevitabilidade da morte, e principalmente os prazeres solitários dos personagens sempre tão cheios de marcas, lutas, pesares, conflitos internos – que se mostram, sem pudor para o leitor, com uma sinceridade que escapa com suspiros de liberdade dos estereótipos de consciência romântica. Um sorriso desenhado nesse livro faz você se sentir bem, em paz, com uma alegria inenarravel e até bobinha; uma sensação leve, simples e poderosa – muito melhor do que as extravagâncias do romantismo.
Tenho pra mim agora um pequeno desafio: entrar na mente de Tim Burton. Mergulhar em seus tormentos, tão expressados na sua obra – entender tacitamente o que ele quer dizer e mostrar. Vou baixar seus filmes, saber de suas idéias e opiniões.
Mas isso, claro, quando eu tiver mais tempo livre…

photo credit: Daniel Pedrosa -
Coisas que ninguém fala sobre células-tronco
Postado em 25 de Discórdia de 3174 YOLD , às 7:11:37 View CommentsPor que, num debate contra religiosos sobre pesquisas com células-tronco embrionárias, as pessoas não perguntam: “pra onde vai, segundo o mindset de vocês, o embrião morto? Pro céu ou pro inferno? Por quê?
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O meu medo, um medo devereas bem recente, é verdade, é o de as pesquisas trazerem os milagres para a espécie humana. A ausência de milagres é uma condição fundamental para o funcionamento da vida filosófica humana, principalmente a dos não-filósofos… Tanto a aceitação das adversidades quanto a batalha contra elas precisa de discernimento; demanda uma análise razoável da realidade que só pode ser feita num cenário estável – não importa se verdadeiro ou falso, mas pelo menos estável. Os milagres não só bagunçam o meio-de-campo; eles terminam o jogo.
E o que eu penso é que essas coisas que antes eram irreversíveis agora vão ser curadas, e isso é bom – mas ao mesmo tempo dar-se-á menos importância para essas coisas irreversíveis. Mas, essa é a idéia, não? O espírito do jogo. A ciência e a tecnologia progridem; quando curaram a tuberculose, fizeram a mesma coisa, e hoje em dia ninguém banalizou a tuberculose. Enfim, as ciências seguem seu curso. Para o bem e para o mal, whatever that means.
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Não é o comunismo, Henrique!
Postado em 24 de Discórdia de 3174 YOLD , às 6:16:40 View CommentsHenrique Wint, do excelente blog 21 Horas, que sempre nos visita, comentou certa vez que o responsável pelo feminismo foi o comunismo. Eu concordei; afinal, a luta por direitos iguais é uma forte marca do comunismo.
Entretanto meu professor de geografia nos forneceu uma outra visão das coisas: na verdade o capitalismo foi responsável por fazer a idéia do feminismo vingar e crescer. Porque veja, o capitalismo quer que a mulher trabalhe / produza e consuma como um homem, pois assim a economia aquece mais.
E não pense que isso é bom: desconsiderando os aspectos econômicos da coisa (que, ah, provavelmente devem ser ótimos…) , isso não apenas diminui a taxa de fecundidade (uma coisa, digamos, neutra), mas faz com que os filhos dessa geração cresçam com os pais distantes e ocupados, sendo “criados” (odeio essa palavra nesse sentido) muitas vezes pela avó, tia, empregada, etc.
E essa parte, essa parte é ruim. Essa parte é péssima. Esse é o tipo ruim de independência infantil, aquele no qual a criança acaba “aprendendo a se virar sozinha”, mas também acaba se frustrando sentimentalmente, criando uma visão de mundo balançada para os dois lados do pêndulo social: a distância melancólica ou a expressão agressiva… A criança se frustra dessa forma, se machuca interiormente.
Além do lado dos filhos, pensemos também no homem e na mulher. Eu sou pessoalmente contra o casamento por um leque de motivos; o fato de que casamentos acabam é só um deles, de menor importância. Mas por que acabam? Um dos motivos, para o professor, é que há atualmente competição dentro do casal, e não cooperação. E isso, ao contrário do que afirma Adam Smith, é ruim, não é? Ou…? … Não? …? …!
Agora analisemos só a mulher, individualmente, não em relação a um contexto.
A gigantesca maioria dos filósofos sistemáticos, ao longo da história do pensamento, procurou diferenciar o homem da mulher, e dizer, afinal, qual era a “natureza” inerente aos sexos.
O problema é que toda diferenciação sempre ocorreu de forma qualitativa e não igualitária. Ou seja, para justificar uma freqüente opressão masculina ou simplesmente porque a cultura já estava cheia de idéias desse tipo, todos os filósofos buscaram meios de explicar a superioridade masculina.
A situação mudou no século passado com a feminista (e comunista – aqui você acertou, Henrique) Simone de Beauvoir, que, de tanto acreditar que a existência precede a essência, acreditou que não existem diferenças entre homens e mulheres, e que estas podiam fazer tudo que aqueles podiam fazer, e melhor até, se duvidar…
Com a ascenção da psicologia evolutiva, sabemos que não é bem assim. Os seres humanos, únicos animais capazes de se rebelarem contra suas tendências genéticas, ainda assim possuem tais tendências, e negar sua existência é negar boa parte do que sabemos cientificamente sobre nós mesmos.
Homens e mulheres são diferentes, é impossível negar essas diferenças. Entretanto, essas diferenças são apenas diferenças, não há vantagens nem desvantagens que desequilibrem esse jogo. A necessidade que tivemos foi de alguém que dissesse que era possível ser diferente. Possível, não necessário! Porque se for pra mulher continuar a cuidar da casa e dos filhos, que isso seja uma opção, e não uma obrigação.
A mulher hoje em dia se vê obrigada a fazer justamente o contrário: é uma obrigação trabalhar. Ser bem-sucedida profissionalmente, “independente”, seja lá que diabos de conceito o capitalismo inventou pra isso, fazer pós-graduação, ter um carro próprio e tudo o mais. O capitalismo idealiza nos nossos tempos um ser humano provavelmente hermafrodita, que tem uma história a fazer, um caminho a trilhar, sonhos a perseguir; mas dentre esses sonhos incluem-se altos pagamentos, bens em quantidade e qualidade, uma boa aparência, enfim, talvez tudo isso (até mesmo em parte o terceiro item) possa ser convertido naquela água do mar bem conhecida: o dinheiro. Essas são características que não pertencem integralmente a nenhum dos sexos. E são as metas pessoais do nosso séculos; metas assexuais (no sentido de gêneros da palavra, é claro, hehe).
Mesmo que o feminismo tenha feito as mulheres se engajarem em uma luta idiota (e por vezes prejudicial a si mesmas) para provarem que são melhores que os homens, uma ótima coisa ela fez: gritar pela liberdade. Berrar pra quem quiser ouvir e quem não quiser também que sim, é possível ser diferente. É possível se transformar, é possível ser mais do que o básico, exceder nossos limites, nos superar.
Meu professor comentou que o problema do capitalismo é que ela não deixa que sejamos humanos e sigamos nossos instintos animais; entretanto, esse ponto de vista serve exclusivamente pra questão do feminismo, porque em todo outro caso, a natureza humana é o que mais se explora no capitalismo. O capitalismo não deixa que sejamos mais: ele explora e faz desenvolver o pior lado de cada pessoa, se aproveita de cada fraqueza, de cada propensão ao vício, de cada centelha de ignorância e acomodação do ser humano. E a questão do feminismo foi mais uma boa idéia corrompida pelo mercantilismo moderno.
O capitaismo é uma florsta de terno e gravata. Estamos sujeitos à mesma realidade animal de sempre, só que o homem é que é o lobo do homem. Axl disse tudo: Welcome to the jungle, baby.




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