E também o assassinato de outros deuses
RSS icon Home icon
  • Uma questão de vulgaridade

    Postado em 23 de Discórdia de 3174 YOLD , às 0:74:98 Peterson Espaçoporto View Comments

    Há um blogueiro que admiro muito que é cristão. No começo pensei “Como?”. Bom, depois entendi como é o cristianismo dele.

    Ocultei seu nome porque não é muito legal ficar fazendo radiografias das pessoas dessa forma. Mas enfim, eu percebi que o que ele luta contra é a vulgaridade; como um ser artístico que é ele pensa que a vida deve ser vivida nos detalhes, e isso é bom. Aproveitar os pequenos momentos ao invés de se preocupar em ser de direita ou de esquerda, fazer exatas ou humanas, casar ou comprar um bicicleta, etc.

    Dessa forma, pouco importa o “grande sistema” sob o qual as pessoas vivem, o que vale de qualquer forma são os detalhes. Mas, apesar de admitir que esse tipo de foco seja muito bom, não concordo sobre a não-importância de uma grande visão de mundo, e penso que a grande visão de mundo não deveria ser irrelevante nem para as pessoas que vivem focados nos detalhes (alguns sem saber…) porque ela interfere no modo como as pessoas “saboreiam” os detalhes.

    Portanto, o cristianismo para ele seria como o melhor sistema disponível para aproveitar a vida nesses pequenos momentos de alegria e felicidade. Mas eu discordo disso. O modo como você saboreia essa visão detalhista das coisas influencia tudo, tanto quanto óculos vermelhos deixam tudo à sua volta vermelho. O cristianismo é um sistema de dogmas e de “não, não quero ver!”. A pessoa pode deixar de fazer algo prazeroso, deixar de conhecer algo prazeroso, deixar de experimentar algo prazeroso, ou fazer, mas aproveitar com consciência pesada algo prazeroso – por causa de tolos e injustificados dogmas. E pode também fazer o mesmo não só com coisas prazerosas, mas com pessoas. Deixar de conhecer, de conviver, de ajudar. E, como está exposto no link acima, deixa de participar de uma deliciosa dicotomia que é um grande desafio para os humanos em geral.

    Enfim, viver uma vida de detalhes, uma vida sutil, e não vulgar, pode ser um bom direcionamento, mas o sistema conta, e conta muito.

  • Patriarcado, Escolaridade e Hierarquia

    Postado em 21 de Discórdia de 3174 YOLD , às 8:92:26 Peterson Espaçoporto View Comments

    Meu professor de geografia comentou que, na época dele, os professores tinham o direito de castigar os alunos fisicamente ou mesmo “humilhá-los” colocando os criminosos de costas para a sala, olhando para a brancura da parede, em pé, até o fim da aula. Ele reclamou do modo como os alunos praticamente mandam nos professores agora – já que os estudantes não podem mais ser expulsos de um colégio, por exemplo – e exaltou as qualidades intrínsecas do método antigo – afinal, as pessoas apanhavam um pouquinho, mas aprendiam. Disse ele que, depois de ser deixado uma vez de costas pra turma, ficava meses sem “atrapalhar” a aula de ume determinada professora… Pra ele, o que acontece hoje em dia é que se inverteu o senso de hierarquia nas salas de aula.

    Não é opinião só dele. Já ouvi algumas vezes que ‘é necessário que as crianças levem algumas surras quando fazem algo de errado’ “pra aprender”. Pensa-se que há muito exagero por parte dos filhos e de alguns pais protecionistas ao reclamarem tanto de umas batidinhas à toa. O moralista Prates aqui da RBS TV (quem é de SC/RS vai saber quem é, talvez) acha o mesmo. Professores do ensino público acham a mesma coisa. Afinal, a situação está tão crítica que muitos deles são ameaçados pelos alunos – e pelos pais, que dão razão aos filhos inconseqüentes.

    Pra mim, há algo de muito, muito errado com isso. Há algo de podre nisso tudo.

    Eu já escrevi alguns artigos sobre crianças aqui no blog. Eu quero ter filhos. Quero mesmo, por algumas questões filosóficas. O que me incomoda (e instiga ao mesmo tempo) é toda a inconstância e toda a indeterminação que há no que concerne à “criação”, à educação dela. De qualquer forma, um texto mais importante, e diria até fundamental pra compreender tudo o que vou dizer agora é Contra a punição, que publiquei no Pensitivo.

    Analisando a questão dos professores, é verdade que há muito exagero sobre os “traumas” causados pelos castigos escolares? Talvez. Mas aí eu argumento da seguinte forma: muitas pessoas exageram sim sobre os tais traumas, mas exageram do ponto de vista clínico. Até onde sei, pouquíssimas pessoas vão parar em consultórios psiquiátricos ou vão parar em hospícios por causa das palmatórias da infância.

    Read the rest of this entry »

  • Vamos falar sobre esportes – e sobre liberdade, of course!

    Postado em 3 de Discórdia de 3174 YOLD , às 6:69:29 Peterson Espaçoporto View Comments

    Hoje a aula de redação teve como tema uma dissertação sobre o esporte. Eu detesto dissertações, não por incapacidade de produzí-las, mas apenas porque são burocráticas demais. Isso irrita. É desconcertante ter que se preocupar em escrever até o último milímetro da linha (aposto que a professora vai descontar uns dois décimos por causa disso em algumas linhas de hoje), ou então de fazer um parágrafo com 5 ou 6 linhas, ou de colocar aquela “frase de conclusão” no começo do último parágrafo. É um saco.

    Mas, voltando ao esporte, acho-o uma coisa fantástica. Mais do que fantástica, ela é fundamental. Sob diversos aspectos. Afinal, todos sabem que fazer exercícios físicos ajuda o corpo e a mente, etc. É difícil arranjar um motivo qualquer pra dizer que o esporte é ruim – tirando o fanatismo, que é ruim em qualquer atividade humana – mas hoje já falei demais nisso lá, na aula, e quero mesmo é falar sobre outro benefício. Um benefício individual, pessoal, que se converte em benefício social.

    No post Contra a Punição, rebento meu dedicado ao Pensitivo (um dos melhores, creio eu), falta uma parte. Uma parte fundamental. A questão é que a falta de uma legislação apropriada pra punir infratores – e até mesmo a falta de uma legislação – só seriam possíveis em um outro cenário sócio-político, uma outra realidade que se caracterizaria por vários outros fatores, como por exemplo:

    - Um outro sistema monetário que não envolvesse o dinheiro (Entre outras coisas, a nossa civilização está tão focada na comercialização das coisas – ou nas coisas mesmo – que tudo se transforma em um produto, até coisas abstratas, e o dinheiro se torna o único meio para alcançar tudo que se deseja, fazendo dele um bem e um valor maior que qualquer outra coisa – quantos crimes de vários tipos não existiriam não fosse o dinheiro? Ou melhor, quantas pessoas não são mortas por causa de dinheiro?)

    - Um sistema de educação que ensinasse verdadeiramente alguma coisa (Um sistema educacional baseado na liberdade, na vontade, na reflexão e no pensamento crítico. Flexível e individual – sem deixar de oferecer opções para desenvolver o trabalho em grupo e a convivência. Além disso, prover muito mais do que uma escola, proporcionar um ambiente para o desenvolvimento emocional das crianças).

    - Uma cultura forte e verdadeiramente plural, muito acima das pluralidades vendidas e das identidades alugadas, que são antes roupas, que podem ser trocadas a qualquer instante, do que verdadeiras atitudes. Já disseram que apenas a arte salva. Não sei. Mas a arte é um tipo de expressão humana tão sublime que não deveria ser “solidificada”, nem mesmo vendida (da forma como é hoje).

    - E, além disso… Uma cultura de esporte! Sim, uma cultura focada no esporte em geral. Além dos benefícios da parte “exercício físico” do esporte, há também outras coisas positivas nele, como a interação social e a habilidade de trabalhar em equipe quando necessário, e principalmente a autodisciplina, autocontrole, autoconhecimento.

    A autodisciplina é fundamental pra uma sociedade sem punição. O conceito que sempre quiseram (tentaram, humpf) passar pra mim de autodisciplina pode ser resumido pela minha atual visão como o seguinte: disciplina é seguir regras impostas por outros. Autodisciplina é seguir regras impostas pelos outros, mas sem precisar que ninguém te vigie, afinal, você mesmo faz isso. Você conhece algum outro emprego da palavra “autodisciplina” por pessoas como coordenadores de colégios, pais e mães, etc? Não, né? Pois é.

    Deveríamos entender a autodisciplina, entretanto, como um exercício máximo da liberdade que legitima a falta de punição. A liberdade que alguém tem pra fazer as próprias regras, se policiar quanto a elas e ter liberdade para modificá-las. E essa modificação inclui as experiências pelas quais a pessoa passa, e talvez precisa passar (veja os comentários do post do Contra a Punição pra entender melhor essa última frase). O esporte fornece acima de tudo uma noção, aliada ao prazer, de que pra alcançar um objetivo é necessário seguir uma conduta de escolhas. Por isso ele é tão importante pras pessoas numa sociedade sem punição. Se a arte seria a parte “dionisíaca” de uma sociedade livre, o esporte seria a parte racional dela.

    P.S.: A parte “E sobre liberdade, of course” do título foi adicionada depois de acabar o post, porque achei que esse post é antes de mais nada uma extensão daquele do que alguma coisa sobre esportes.

  • Empregar ou Ser Empregado…

    Postado em 46 de Pós-matemática de 3173 YOLD , às 2:94:35 Canedo View Comments

    Estou aqui a pensar, porque pessoas ficam contentes ao ganhar seus salários de R$ 1,6 Mil por mês (média salarial brasileira), será que vale a pena TRABALHAR POR R$ 1,6 mil?
    Ao perguntar para uma pessoa de classe de baixa renda, receberemos a resposta “É óbvio que sim!”, mas eu penso que não.
    Ninguém trabalha para dar prejuízo ao patrão, se seu chefe está a lhe pagar R$ 2 mil, é porque você dá mais de R$2 mil de lucro para ele, ou seja, ele ganha dinheiro em cima de você. Ou seja, se você está empregado, você está tendo prejuízo e recebendo um salário injusto, por isso, assim que possível vou montar meu próprio negócio, já tenho várias idéias em mente, cansei de levar prejuízo, não quero mais ser burro de carga de outros, quero ter meu próprio burro de carga que irá fazer eu subir na vida.
    Hoje, trabalho meio perído, 20 horas semanais por R$ 250,00 e apresento um programa semanal na rádio local por R$20,00 a hora, mas como não apresento o programa sozinho, fico com R$10,00 por hora. Sendo o programa de 2 horas, ganho R$ 20,00 por programa.
    ou seja, em um mês eu ganho R$ 330,00, pode parecer muito para uma carga horária de 22 horas por semana, mas para me pagarem esse dinheirinho, devo estar dando lucro para outras pessoas, e deixando de ganhar o meu.
    Por isso, em breve quero montar minha própria rádio aqui na cidade, meu programa tem uma das maiores audiências locais. Penso em guardar meu pobre dinheiro para fazer jornalismo, que é um sonho meu, e logo, montar uma revista em larga escala, penso em fazer uma revista sobre turismo ou economia, mas até lá tenho muito tempo para decidir.

    Mas não importando o que irei escolher, o meu principal projeto é deixar de ser empragado (dar dinheiro aos outros) para empregar (pegar o dinheiro dos outros) .

  • Meio e Fim – Ética

    Postado em 3 de Pós-matemática de 3173 YOLD , às 4:53:89 Peterson Espaçoporto View Comments

    Pensamento rápido, de final de aula de redação. Corporações não são éticas porque esse não é objetivo delas – o fim delas. O objetivo delas é o lucro para os acionistas, portanto, a ética não é nem o fim nem o meio – e vi que a ética é meio contraditório com isso. Pra ser usada como meio, a ética tem que ser também o fim.

    Entretanto, a ética não pode ser considerada como fim em nenhuma atividade humana atual. Qualquer coisa que não tenha como fim a ética não pode (não consegue) utilizá-la como ferramenta. Na busca por dinheiro, uma pessoa não pode ser ética – isso porque a ética como meio contradiz o fim que é o dinheiro.

    Talvez meio e fim sejam, no final das contas, a mesma coisa.