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Livros e Identidade
Postado em 11 de Discórdia de 3174 YOLD , às 5:49:71 CommentsUm escritor deveria saber que sempre que está segurando um livro de sua autoria, está segurando o detonador de uma bomba. Quem sabe o “estrago” que o seu livro pode causar em alguém? Livros ficcionais não formam explicitamente um manual de conduta na vida, mas um livro já tem um final definido – já está escrito – e portanto tem-se a sensação de que, o que quer que aconteça com os personagens, aconteceu por causa do destino. Ou, como preferir, numa explanação menos fantasiosa, o escritor quer passar uma mensagem de conduta moral com um livro, sempre quer, porque quando ele pune alguém no final está obviamente declarando ao leitor, o leitor percebendo ou não (não importa), que ele desaprova tal atitude ou aprova tal atitude. E assim as pessoas vão formando uma “identidade”. O que, pros padrões atuais, é uma coisa bem descartável até.
Aí temos dois problemas: em primeiro lugar, o escritor não pode ser irresponsável com sua bomba caseira. Não, não, não que ele não deva usá-la. Tem que usar com responsabilidade. Tem que colocar os materiais certos. E no lugar certo.
E depois, precisamos de leitores mais inteligentes. Arte não é questão de consciência – a ciência dos “processos que ocorrem no ser enquanto ele se regozija com uma obra de arte” destrói a arte – mas é muito interessante que, pelo menos depois que as pessoas terminam de ler um livro, que elas pensem um pouco em si mesmas, no livro, em toda a vida sob uma nova ótica. Faz bem, e não deixa as pessoas se machucarem tanto quando a bomba explode.
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Responsabilidade natural e artificial
Postado em 26 de Pós-matemática de 3173 YOLD , às 4:49:78 CommentsSantaum chamou atenção num comentário para o fato de que eu dou ênfase especial em meus textos para a questão da responsabilidade. De fato, eu considero que a liberdade só pode vir se for acompanhada de responsabilidade.
Entretanto, é preciso fazer uma limpeza na área de “responsabilidade”, porque o mesmo artefato que nos dá a possibilidade de agir em diversos sentidos e de sermos independentes, é também um fardo. Pode-se dizer, pra fins de comparação, que a responsabilidade é um tipo de empréstimo; você faz o que quer mas depois tem que arcar com as conseqüências. Algo do tipo “faça a bagunça que quiser, apenas arrume depois”. Ou seja, você pode ter liberdade por agora, mas terá que se ver depois com as conseqüências – uma prisão forjada por si mesmo para o momento que consideramos depois.
Será que há alguma contradição? Como fazer da responsabilidade não um fardo, mas um genuíno meio / fim para alcançar a liberdade?
Em primeiro lugar, as leis criminais, por exemplo, estão baseadas em punições para aqueles que cometem crimes. É a responsabilidade; mais conhecida como culpa… Quem comete um crime que tem que pagar o que a lei estipula.
Entretanto, esse tipo de responsabilidade é o que eu chamo de “responsabilidade artificial”. Eu considero (apenas um palpite pouco fundamentado, por enquanto…) que a “responsabilidade” deveria ser natural; assumir as conseqüências diretas dos seus atos. Entretanto, ninguém deve lhe dizer quais são as conseqüências que você terá que enfrentar. Matar alguém trará diversas conseqüências; pode despertar a ira de amigos e familiares, pode fazer com que as pessoas se afastem de você, etc. Esse tipo de conseqüência, será que não seria “justa” o suficiente? Ou mesmo que fosse “injusta”, considero hoje o que Nietzsche disse. “A justiça é uma troca”. Não vou alterar o significado da frase, mas hoje pra mim ela soa como “A justiça é só uma troca”.
Deparamos-nos com diversas responsabilidades artificiais. São sempre regras ou mesmo chantagens de improviso que nos impõe comportamentos ou proibições quanto a comportamentos. Considero este tipo de responsabilidade um tipo negativo: ele corrompe a essência da liberdade aliada à responsabilidade, algo como “agüente as conseqüências dos seus atos”. Temos uma normalização, digamos “burocratização” das conseqüências. Estamos de volta ao mecanicismo cego da sociedade ocidental. O “indiretismo” também, pois se coloca tudo nas mãos do agente de controle social.
Temos essa responsabilidade como um fardo, como um peso, como um agenciador que leva a uma liberdade ruim e vigiada*, simplesmente porque a burocracia do sistema tende a tornar a sociedade coesa e homogênea – destruição do indivíduo e da própria natureza da liberdade. Todos têm que se adaptar a esse sistema, mesmo aqueles que estão acima disso serão puxados pra baixo, pela lógica da “justiça”.
A “doutrina” (cof-cof) da ação constante é uma alternativa. É a constante transformação e interação; a ação é aquilo que liberta e deve ser constante. Assim como o amor nietzscheano à vida, com todas as suas guerras e inquietudes, deve-se amar essas complexas interações do sujeito com o objeto que sua vida se torna (pois é moldada não só por si mesmo mas também pelos outros ao redor) pois esse é o exercício da liberdade em comunhão com a responsabilidade. Não é fuga dela; é aceitação dessa realidade com coragem e vontade.
*Em algum lugar ouvi algo do tipo “se a sociedade te encaixa confortavelmente, você chama isso de liberdade”.




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