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Questões Metodológicas: Professor
Postado em 10 de Burocracia de 3176 YOLD , às 6:41:31 View CommentsEmbora o título pareça meio caracinza, na verdade ele expressa uma dúvida muito pontual sobre a atividade do professor. Estava eu tendo minha primeira aula de verdade sobre Antropologia na UFSC (que foi interrompida, pra meu completo desgosto, pela palhaçada do trote) quando me veio à cabeça a ideia de que eu não gostei muito do jeito do meu professor. Não só por causa do portunhol dele (ele é venezuelano), mas pelo jeito de explicar dele.
Cheguei a essa conclusão depois de relacionar esse jeito dele com o jeito de outros professores dos quais eu não gostava também. E a minha impressão geral foi a de que ele era muito “viajão” na explicação. De certo que a “viagem” em si não é ruim; em geral demonstra empolgação, no mínimo. Se você é capaz de viajar no seu conhecimento é porque você realmente o entende, você está íntimo dele a ponto de “brincar” com ele. Então fazer digressões malucas, comentar como é “curioso” a origem de certas coisas ou relações entre certas coisas… E então notei que na verdade gostava de viajar no conhecimento. Mas quando a viagem era minha, não do professor. Enquanto aluno (e também paciente, em relação a médicos) sempre gostei da objetividade. Gostei da informação clara e concisa, sem muitas voltas pra explicar algo simples, porque assim eu pegava as coisas mais rápidas e depois refletia sobre elas, sozinho. Talvez porque a “viagem” de quem está explicando algo faça sentido pra pessoa, mas explicar a viagem pessoal a outra pessoa dificilmente vai conseguir fazer o outro passar pelo mesmo caminho que você foi. O que talvez seja marca da oralidade, uma vez que textos e livros, talvez por apresentarem um caráter estrutural que obriga já a uma maior clareza no estilo, faça com que as viagens, as lógicas, as linhas de raciocínio (até as mais bizarras) consigam fazer bastante sentido pra mim…
Mas então pensei novamente. Não, havia algo de errado com isso. Definir “viagem” mesmo é complicado; o fato de o professor ir além do que estava ali pra ser ensinado e ter trazido uma curiosidade, ter feito uma relação interessante, isso eu sempre apreciei. Mas talvez a diferença esteja no estilo; há algumas viagens em que algumas coisas são apresentadas e pronto: está ali, agora você, aluno, continue a viagem, veja se você embarca no mesmo raciocínio que eu… O fato é que conhecer as entranhas de qualquer campo de conhecimento é interessante, mas esse conhecimento tem que ser adquirido de forma autônoma. E o que alguns professores fazem é enrolar demais tentando levar o aluno pelo caminho desse desbravamento. Aí acaba em confusão e insegurança.
E aí acabei chegando a um ponto mais crucial: insegurança. Talvez aí esteja o cerne da questão. Não bem o que é dito (se informação objetiva ou mais subjetiva, coisas mais profundas e abstratas) mas como é dito (se com clareza e segurança). Será que a assertividade não seria um fator psicológico que diferencie o professor do livro enquanto instrumento memético na aprendizagem? Explico: se você entender o processo de adquirir conhecimento como a aquisição e adaptação do seu túnel-realidade a um novo conjunto de memes, você se depara com os instrumentos meméticos que podem ser utilizados pra isso (instrumento memético sendo qualquer coisa que carregue as ideias, os memes).
Um desses instrumentos é o livro: ali estão milhões de memes — um memeplexo que você pode absorver e aprender algo. O professor é outro; ele, falando pra você sobre determinada coisa pode fazer com que você aprenda (esteja você disposto a isso). Todos sabemos da interessante coisa que é a persuasão: algumas pessoas convencem outras facilmente, outras são facilmente convencidas. Algumas outras são inseguras e muito susceptíveis a encarar ideias transmitidas com assertividade como “wow, é verdade, é isso aí”, e outras são apenas desprovidas de ceticismo. Então, de certa forma, não seria isso um fator interessante na relação professor-aluno pra ajudar no processo de aprendizagem? A certeza, a clareza, a segurança com que algo é dito?
De uma forma ou outra, enquanto outros professores podem se beneficiar dessa discussão pra refletir sobre seu próprio jeito de conduzir a aula, eu ainda tenho que me debater com a questão de ser um professor de língua estrangeira; sendo assim, será que o mesmo se aplica? Por exemplo, se você não quer usar a língua nativa e ficar traduzindo palavras, muitas vezes é difícil explicar alguma coisa sem viajar um pouco. Por exemplo, “noisy” não dá pra explicar fazendo gestos. Eles vão entender milhões de outras coisas, vão demorar demais pra pegar “barulhento”. Então sempre que precisei ou usei o contexto em que a palavra surgia no livro didático ou dava exemplos do tipo “você vai dormir e seu pai ronca” (em inglês) e aí apelava pra gestos e exageros sonoros. E por aí vai.
Como tentar ser simples e objetivo nesses casos, ou, ainda pior, quando você tenta ser direto e o aluno não entende? Por exemplo, baggage é um substantivo incontável em inglês que representa tudo aquilo que você carrega consigo quando viaja. Mas pra explicar você pode usar imagens, ou exemplos — o que já seria bastante viagem; muitos alunos ficam confusos — ou pode tentar dizer “the idea of bags, suitcases, everything you carry when you travel” etc. Mas e se ele não entende? Pior: furniture. Você pode tentar ser bem simples e dizer “chairs, tables, desks, etc… Furniture!” mas e se a pessoa continua não entendendo? Aí você tem que viajar. E isso nem sempre ajuda.
Isso é só um dos detalhes de ser professor, uma das coisas que você tem que se preocupar quanto ao método. Mas ainda continuo me perguntando sobre a própria natureza de ser professor, e preparo um post assim há séculos. Daqui a algum tempo ele sai. E aí, enfim, depois disso, um texto sobre o livro Sociedade Desescolarizada.
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Treasures
Postado em 36 de Discórdia de 3176 YOLD , às 8:92:15 View Comments- Nah, you just say it because you’re in love.
- No, I don’t! I really mean it. Blue and green eyes are surely beautiful as hell, are wonderful — but too much decorative. Dark eyes are deeper. They mean more to me, even though I think they mean more in general…
- What do you mean?
- I mean… Ok, maybe it’s just her eyes, not everyone’s… But you know… There’s something about her eyes that I… I don’t feel with anyone else.
- Again you say it because you’re in love.
- No, I don’t, I’m serious! I feel different things when looking at people’s eyes. Either I’m indiferent — like, well, they’re normal eyes and don’t have any effect on me — or I don’t like looking at them. I kind of avoid them. There are even some eyes that… When I look at them… I feel intrigued by them. As if the person isn’t saying what he really means and, on purpose, lets his eyes show that there is something else — but of course I can’t decode it, otherwise I wouldn’t be intrigued.
- What do you feel about my eyes?
- They’re normal. But anyhow, with her eyes… It’s different. I like looking at them. But, you see: I never like staring, never like doing it. I do it because it’s what we’re supposed to do while on conversation, or I feel intrigued by it — but that doesn’t mean I like looking — or I try not to do it. But with her — I like looking at her! Her eyes are like… Spots in a cave which lead to a deep ocean in which I want to dive because.. There are… Treasures down there and I want to find them! I can almost feel it, its golden coins shine at me like devilish diamonds.
- You’re obviously in love.
- It doesn’t matter. Oh, goddess… Sometimes I just want to stay there, looking. And looking. And looking again until she laughs in shyness, turns her back on me and run away.
- I say you’re in love. And you’re masochist.
- I guess that even if I hated her I’d still feel the same… Then fuck yeah, maybe.
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Devil
Postado em 31 de Caos de 3176 YOLD , às 1:56:08 View CommentsCerto. Então eu estava ali, sentado, esperando. Pelo quê, eu não sei, mas como é que eu vou saber? No fundo, no fundo, estamos sempre esperando que alguma coisa aconteça. Seja pra nos tirar de uma confusão ou pra nos botar em uma.
Aquele bosque do campus, próximo à reitoria, era realmente agradável; uma rótula principal, onde sempre ficavam as odiosas e falsamente úteis barracas de pré-vestibulares (durante a época de vestibular) dava origem a alguns metros quadrados de pura grama em frente a um prédio bonito. Pelo que me lembro tem algo a ver com arquitetura, mas sou preguiçoso demais. Pra ir lá olhar e pra tentar me lembrar. Certo, é um defeito, admito. Mas hoje ele está particularmente forte. Todos nós temos esses momentos. Fancy that, reader.
Então, depois dos metros quadrados de grama, há essas mesinhas que dão medo de sentar porque você não sabe quais manchas são chicletes que ainda têm “poder de grude”. A maioria já está bem lascada, mas ainda dá pra jogar xadrez ali em cima.
Então ali nos surroundings havia muitas árvores, banquinhos legais e um caminho de cimento separando grama de… grama. Não me culpe pelo inglês, minha mente funciona melhor assim, misturando as duas coisas. Uma vez ouvi dizer que o diabo falava inglês. Na verdade, seja lá qual foi a lógica por detrás disso, parecia ser meio idiota; um diabo que se preze deveria ser poliglota ao extremo.
De qualquer forma; se era verdade ou não, eu estava prestes a saber.
— Boa tarde! — disse-me um homem já grisalho (e obviamente começando a ficar careca), com uma face um pouco alongada e um sorriso comercial. Vestia uma roupa social marrom bem aprumada, uma gravata vermelha, sapatos pretos.
Não entendi a dos sapatos pretos. Na minha cabeça havia algumas poucas regras de vestimenta que via quando pescava alguma coisa aqui e ali e, na minha talvez ignorância, pressupunha que se eu usasse roupa social marrom deveria usar um sapato marrom. Ah, foda-se. Eu não costumo usar essas roupas em lugares em que as pessoas dariam importância pra isso.
— ‘Tarde — falei, distante.
— Eu acredito que eu possa ser útil — disse ele, com o rosto um pouco inclinado pra baixo, fazendo os olhos parecerem maliciosos. O sorriso nunca esteve tão solícito. Parecia um gato mostrando os dentes pra um rato, só que era um pouquinho mais humano. Ah, esquece. Que descrição foi essa? Eu acho que nunca vi pessoalmente (e com atenção) um gato mostrando os dentes pra um rato. Mas foi isso que me lembrou.
— Olha, não vou comprar nada…
— Mas você nem sabe o que eu tenho pra oferecer!
— Tô sem dinheiro.
— Ah! Isso não é problema… — eu olhava, viajão, para a atmosfera à minha frente. Ao dizer essa última frase o pobre diabo (que, afinal de contas, aparentava não ser tão pobre assim) deslizava mais para o lado de um modo esquisito, pra que ele ficasse dentro do meu campo de visão, ocupando quase toda a atmosfera para a qual eu estava olhando.
Eu não gostei do jeito invasivo dele. Era a minha atmosfera. Fiquei irritado. Mas, como um bom preguiçoso, continuei a observar ali, tranquilo, ouvindo uma música relativamente calma no meu iPod de tela rachada. Fiquei com vontade de aumentar bastante o volume pra mais eficientemente ignorá-lo. Quem sabe eu não ficasse surdo e então não precisava nem fingir. Hmm não, consequências demais… Talvez ele fosse embora facilmente.
— Olha, sai daqui, cara… — disse eu, parecendo, na verdade, meio deprimido. Acho que não daria certo. E não deu.
— Ah, você não quer que eu saia daqui… — Ok, agora ele estava irritando com aquela feição que dizia “seu safado”, só que sem as conotações sexuais implícitas na palavra safado — Eu posso te dar tu-do que você quiser.
— Ahm, olha… Eu não sou gay — depois da última frase deixei de considerar que não haviam conotações na palavra “safado”.
— Sim, eu sei que não… Na verdade, eu sei tudo sobre você. HA! Como eu não saberia, sendo quem sou! — ele abria os braços, fazendo cena, ainda que não houvesse plateia alguma ali.
Aliás, eu olhei em volta, discretamente. Não havia ninguém mesmo.
— Mamãe? — eu realmente me esforcei no sarcasmo.
— Call me daddy — ZEUS, de onde aquilo tinha saído? Iate Casablanca?
— Ahm… Não, desculpa.
— Não me reconhece? — ele inclinou o rosto pro lado, agora. Suas expressões eram como cartas de um baralho; eram mecânicas, prontas, praticamente ensaiadas. Ele achava que eu era quem, uma criança?
— Não.
— Talvez porque não nos conhecemos. Ainda. Prazer, Diabo.
— Eu não me chamo Diabo.
— Mas eu me chamo…
Bem, foi nesse momento em que eu resolvi que ou ele estava falando a verdade ou não. Como ele falava inglês, e o fato de ele estar mentindo me colocava num leque de possibilidades muito maior, decidi assumir que ele estava falando a verdade, só um pouquinho. Se ele demonstrasse (mais) ser um louco, o leque subsequente ao “ele está mentindo” diminuiria bastante e então eu me sentiria confortável nele.
— Prazer senhor Diabo, o que eu posso fazer pelo senhor?
— Oh, nada, meu jovem, mas obrigado! Eu é que posso fazer por você.
— Espera, só um pouquinho, preciso fazer uma pergunta antes, é… Por que ser tão clichê?
— Como?
— É, clichê.
— Ora, eu… Achei que isso fosse apropriado. Clichê não seria eu ser metade bode, ou ter chifres e coisas assim?
— Não, isso não é clichê, isso é clássico. Você tá usando uma gravata vermelha e parece um empresário rico que não tem tempo pra família. E você é a cara do House, aquele da televisão. Isso é muito clichê pra um diabo. Não, pior! Você tem a cara do House, mas parece mesmo aquele diabo daquela série, como é mesmo o nome…
— Reaper?
— ISSO! Reaper.
— Ah, você me pegou… Eu gosto dessa ideia de que o Diabo gosta de vermelho e é um empresário experiente que não tem tempo pra família.
— Você não gosta de vermelho?
— Na verdade, não.
— E de que cor você gosta?
— De… É… — ele desviou um pouco o olhar, fez mais algumas caras prontas de confusão mental e desviou também o assunto — Não vem ao caso. Bom, o que eu tenho pra lhe oferecer é…
— O mundo?
— Cala a boca, PORRA! — eu fiquei com medo. Ele tinha de repente arregalado os olhos e falou comigo como se fosse… Sei lá o que ele parecia, mas parecia irritado — Eu tava falando, que MERDA!
Eu estava assustado, e começava a achar que o cara era louco, mas louco mesmo, daqueles estágios irreversivelmente psicóticos e que a qualquer hora ele tiraria um canivete de dentro do bolso interior do terno e me atacaria ali mesmo, na frente de…
Bem, não havia ninguém ali mesmo. Merda, merda, merda.
Ou seria pior. Uma vez não me deixaram entrar no cinema com latinhas de refrigerante porque são “objetos cortantes”. Perigo em potencial. Mas, caralho, quem vai matar alguém com uma latinha de alumínio? De repente me vi morto, sangrando ali no chão, e o tal Diabo fugindo da cena com uma latinha de Pepsi na mão. Pensei em perguntar se ele preferia Pepsi ou Coca, mas o pensamento passou pela minha mente realmente muito rápido, muito rápido mesmo. Não dava pra se preocupar com aquilo naquele momento.
— Bem… Como eu ia dizendo — ele agora estava bem mais calmo, sereno, praticamente um professor. Professor bom, é claro. Mudanças súbitas de humor. Ou grande capacidade de dissimulação… Que o diabo era bom ator era fato conhecido, mas bipolar? — eu sei qual é o desejo mais profundo do seu coração.
— É? E-e qual é? — Eu ainda estava tenso, mas isso deu lugar à curiosidade. Sou preguiçoso e curioso. Uma merda, se quer saber, porque as duas coisas vivem entrando em conflito. Bem, de qualquer forma: essa eu queria ouvir.
— É… Conhecer alguém.
Agora ele tinha apertado meus testículos conceituais. Era verdade.
— Conhecer alguém! Você desesperadamente deseja conhecer alguém que seja tão.. Tão ligado à natureza quanto você, mas ao mesmo tempo tão leve, distraído e cheio de significado! Não em si, mas, bem, a pessoa deve significar algo pra você!
— Sim, sim! — Poxa, eu estava tocado. Ele havia recuado e agora bailava numa quase valsa à minha frente, com os braços abertos e os olhos para o céu, explicando tudo.
— Alguém que não se importasse demais com os seus defeitos, mas os considerasse parte de seu caráter, porque só você sabe o quanto você é desejoso de fazer o mesmo! Ela teria que ser do sexo feminino, obviamente, e ser gostosa, mas jamais magrela, além de gostar do The Subways, que é a banda que está tocando no seu iPod agora!
— Olha, eu tenho cartão de débito aqui, e… Bem, quanto isso vai me custar?
— Então você realmente quer? Veja, eu só comecei a descrição, mas ela fica melhor. Eu posso vê-la na minha mente prontinha.
— Porra, é claro, manda aí! — eu sorria, bobo — Yay… Acho que só pode ficar melhor, né?
— Bom, calma, não é assim tão simples, haha! Manda aí… — aquele jeitinho dele parecia até simpático, rapaz — Olha, preste muita atenção no que eu vou te dizer…
E então ele se sentou ao meu lado, e sua mão esquerda voltou de uma curta passada pelas próprias costas — coisa de um ou dois segundos enquanto ele se sentava — carregando uma cartola preta. Opa, bom truque. Legal, gostava de impressionar, ele. Eu tava cagando e andando pra cartola, é claro. Come on, let’s make a deal at once.
— Bem, o que você procura chama-se… Amor de Verdade. Também é conhecido como “Amor Verdadeiro”, e o nome científico eu não sei, mas, veja, você não quer apenas Amor de Verdade, quer que ele venha personalizado com sorte. E silicone se não tiver sorte o suficiente.
— Não, não, sem silicone — Fui firme.
— Ah, ótimo, isso facilita um pouco… Eu tinha me esquecido das suas preferências por um instante! … Bem, a questão é que eu posso cuidar da sorte, mas não posso fazer muito pelo Amor Verdadeiro. Veja, vou te dar uma lista dos lugares que você deve visitar… — ele escrevia com uma rapidez sobrenatural em um bloquinho bege que ele tirou de dentro do terno — … Dos perfumes que pode usar… Marcas.. E tipos.. de desodorantes a evitar… E também certas frases feitas que você definitivamente não vai querer usar … É claro que isso é só o começo e não quer dizer muita coisa a não ser que você esteja disposto a passar por algumas coisas que precisa admitir…
— Espera, espera, espera… Espera aí… Eu achei que você fosse trazer a mulher aqui ou.. Criar ela do nada, e aí fazer ela se apaixonar perdidamente por mim e…
— Criar ela do nada? Fazer ela se apaixonar por você? São mulheres, não universos ou cachorros, ficou maluco? — De repente eu pensei que eu devia estar mesmo. Onde foi parar minha sanidade? Eu estava segurando meu cartão de débito na mão, for Christ’s sake — Meu amigo, você está confundindo sorte com milagres! Sabe o que são milagres?
— É-é o improvável acontecer!
— Não, caralho, isso é SORTE! Sorte, sorte, sorte! Pessoas não morrem em tragédias por causa de sorte, pessoas deixam de entrar em aviões que caem por causa de sorte, pessoas não perdem parentes por causa de sorte, pessoas ganham na loteria por causa de sorte, e sempre a subestimam! Que raio de humildade! Milagres são o impossível acontecer!
Eu entendia, mas não queria entender. Que péssimo vendedor; ele estava me deixando irritado.
— Escuta, eu posso te dar sorte… Posso mesmo. Quer dizer, é o máximo que você pode pedir. Se você gosta desse negócio de ficar sentado esperando as coisas acontecerem… Humpf… Tá falando com o cara errado. Não sou bem eu que faço milagres, kid.
— Então… Então existe um Deus?
— Um, dois, três. Ou mais. Mas garanto que eu não fico brincando de War com eles o dia todo. Eu tenho mais o que fazer.
— Hum. Isso explica muita coisa.
— Oh hell it does. Isso tudo é intriga da oposição; você é um garoto inteligente, deve saber… Não há nada de errado com quem precisa de uma ajuda e prefere fazer as coisas acontecerem. Mas tem gente que se ofende. Vai entender…
— Escuta, é… Você não vai me cobrar os olhos da cara ou outras coisas.. “Extracorpóreas” por tudo isso que você me falou, né? Porque não deve ser à toa que te chamam de advogado, então já vou dizendo…
— Não, não, imagina, quê isso… Vai querer a sorte e os conselhos ou não?
Naquele momento fiquei realmente pensando se precisava dessas coisas. Depois de uma experiência louca como essa — e que merda, ninguém pra testemunhar ainda! Que diabo de dia mais esquisito! Havia alguma mega festa universitário-dionisíaca ou algo assim? Cadê os estudantes? — fiquei pensando é que talvez precisava reavaliar minhas crenças pessoais, meu guarda-roupa e principalmente minhas prioridades na vida.
— Acho que não.
— Humm… Você tem certeza? Um pouco de sorte não faz mal a ninguém.
— Mas… Sorte é como algo que você tem ou não tem ou é algo que você pode ter mais ou menos?
— Ah, sorte há muita no mundo, não se preocupe com a falta dela. O que estou oferecendo é um pacote extra de sorte e serviços de manutenção, só pra evitar eventuais vazamentos, sabe como é.
— Entendo… Bem, nesse caso, acho que não vou querer não.
— E o que vai fazer? Sentar e esperar?
— É… Mas talvez por outra pessoa. Acho que posso tentar ser mais realista… Pode me fazer bem.
— Certo… Bem… — ele estava se levantando pra ir embora — Creio que pode começar deixando de acreditar em Diabo, não? Hehehe… — e com aquela risadinha seca, assumindo agora uma identidade psicológica mais idosa, foi andando devagar rumo à rótula do campus logo à frente.
— Ei, Diabo — disse, chamando sua atenção depois que ele havia andado um pouco — por que você fala inglês?
Ele se virou e, permitindo-se um último sorriso — dessa vez mais sincero, natural, mas nem por isso menos enigmático, disse:
— Ah, por favor… Todo mundo que tem boas intenções fala inglês.
E virou-se, mais uma vez, desaparecendo logo depois como um fantasma. Fiquei impressionado, embora achasse que um efeito de neblina seria muito mais interessante.
Olha lá o filho da puta… Lá vem um estudante. Engenharia, é? Bota o adesivo na pasta, vai. Eu sei que o vestibular é um parto mesmo. Ainda assim: só aparece agora, um desgraçado. E chega de The Subways, maldito repeat. Querer uma mulher que ouça U2 é aceitável. E definitivamente mais simples.
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Espírito esportivo
Postado em 45 de Discórdia de 3174 YOLD , às 9:57:18 View CommentsFoi o que eu disse (ou pelo menos tentei dizer) no post Vamos falar sobre esportes. Sim, foi isso! Bom, não, não foi.
O que eu quis dizer lá foi o modo como o esporte disciplina a mente das pessoas de uma forma positiva, de uma forma individual. Não uma disciplina que requer comando e submissão, mas uma coisa própria, uma questão de valorização, auto-estima, paciência, metas pessoais e etc.
A vida é uma coisa engraçada… Veja bem, só há alguns dias é que fui ouvir uma das três palestras enviadas pelo Santaum (aliás, muito obrigado amigo!), palestras do Café Filosófico, sobre o Nietzsche. Uma eu já ouvi há meses; do Roberto Machado, falando sobre a relação entre a alegria e o trágico. O cara foi mais conciso e, apesar de repetir muito, deixou sua idéia bem clara na mente das pessoas (pelo menos na minha).
Já na segunda palestra que ouço, de uma mulher cujo nome foi meio inaudível no arquivo de áudio, foi meio difícil se ater a algum tema central – ela dava exemplos cada vez mais longínquos, de forma que quando você voltava para a raiz da discussão, não sabia mais sobre o que ela estava falando.
De qualquer forma, uma das partes mais interessantes foi quando ela comentou sobre o modo como Nietzsche encarava a competição, o antagonismo, os inimigos; “honra no amigo o inimigo”; uma citação relativamente famosa dele e que faz todo o sentido. O grande jogo da existência, as pequenas grandes batalhas do dia-a-dia não levadas a sério, mas consumidas, aproveitadas, sentidas com força, mas acima de tudo enjoyed. Eu gosto da palavra enjoyed. Pra mim há algumas palavras em inglês que querem dizer mais do que seus correlatos em português dizem. Enjoyed é uma delas. Enjoyed. Você tem que enjoy essas competições, essa sensação do furor da guerra. Esse é um tipo de energia que pode ser bem aproveitada por uma pessoa com um bom estado de espírito, que compreenda o quão mágicos são esses momentos e o quanto isso não precisa ter a ver com sentimentos absolutamente negativos – como a morte de alguém, por xemplo.
Para Nietzsche, a aniquilação, a destruição, a humilhação do adversário são marcas do ressentimento humano. Perdemos o espírito esportivo, perdemos o foco no joy, no lado lúdico de todo o jogo, de toda a disputa; e concordo muito, muito, muito com isso… Definitivamente, uma das condições básicas pra termos uma sociedade melhor é termos mais espírito esportivo. Mas isso, talvez, dependa de coisas a mais do que o costume com a prática de esportes apenas…




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