E também o assassinato de outros deuses
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  • Kierkegaard versus Surowiecki

    Postado em 44 de Caos de 3174 YOLD , às 4:16:01 Peterson Espaçoporto Comments

    Ora, ora, ora. Vamos apresentar os dois oponentes:

    Sören Kierkegaard foi um filósofo cristão que defendeu, entre várias outras coisas, um individualismo extremo: para ele, as massas eram burras e a verdade está na minoria.

    James Surowiecki escreveu o livro “A Sabedoria das Multidões” em 2004 e afirma que grupos são mais inteligentes que indivíduos.

    Por mais que existam flutuações estatísticas entre muitas pessoas, a cultura de toda época tem uma razão de existir – e principalmente uma razão de se conservar. Se temos, por exemplo, a opinião das massas de que, por exemplo, o dinheiro traz felicidade, há uma razão pra isso. Forças de comunicação moldaram essa percepção lentamente através das últimas décadas uma vez que o capitalismo precisava desse calor e dessa movimentação financeira. Portanto, ainda que isso esteja de certa forma “certa”, o modo como tal “conhecimento” foi adquirido foi tendencioso e, portanto, é perigoso assumir isso como verdadeiro.

    Nascido numa época muito anterior à nossa, o pensamento de que as massas são facilmente manipuladas é algo ainda relevante. É fácil entender porque Kirkergaard considera que a verdade esteja nas minorias: aqueles que duvidam, levantam-se contra a verdade estabelecida tem pelo menos a autoridade da investigação pra basear suas afirmações, uma vez que verificam as bases daquilo em que acreditam.

    A Superinteressante diz: “Se você perguntar a 100 idiotas quantas balas existem num saquinho, o número médio entre as respostas será mais acurado que o palpite de um especialista em saquinhos de bala”. Bom, por que a média funciona nesse caso? Eu não sei, eu não li o livro. Mas poderíamos supor um dualismo? Para questões subjetivas as multidões não funcionariam, para coisas objetivas elas seriam mais acuradas? Mas por que isso aconteceria?

    De qualquer forma, o livro pretende aplicar a “Sabedoria das Multidões” nos negócios, na economia, na sociedade, nas nações… Temos que tomar cuidado. Aplicando o senso comum ao invés de uma atitude especializada – no mínimo investigadora, cuidadosa – as decisões podem insuflar-se de comodismo, de conservação. Além do que, aplicar uma filosofia de multidão na sociedade e nas nações é nada mais do que idealismo extremo na democracia: vamos fazer o que a maioria considera melhor ou, em casos envolvendo números, vamos fazer uma média pra todo mundo.

    Posso estar sendo superficial, mas é preciso tomar cuidado. Grupos não existem. Indivíduos existem. Period.

    E você, de que lado está? A voz do povo é a voz de (um tipo de…) Deus ou não?

  • Responsabilidade natural e artificial

    Postado em 26 de Pós-matemática de 3173 YOLD , às 4:49:78 Peterson Espaçoporto Comments

    Santaum chamou atenção num comentário para o fato de que eu dou ênfase especial em meus textos para a questão da responsabilidade. De fato, eu considero que a liberdade só pode vir se for acompanhada de responsabilidade.

    Entretanto, é preciso fazer uma limpeza na área de “responsabilidade”, porque o mesmo artefato que nos dá a possibilidade de agir em diversos sentidos e de sermos independentes, é também um fardo. Pode-se dizer, pra fins de comparação, que a responsabilidade é um tipo de empréstimo; você faz o que quer mas depois tem que arcar com as conseqüências. Algo do tipo “faça a bagunça que quiser, apenas arrume depois”. Ou seja, você pode ter liberdade por agora, mas terá que se ver depois com as conseqüências – uma prisão forjada por si mesmo para o momento que consideramos depois.

    Será que há alguma contradição? Como fazer da responsabilidade não um fardo, mas um genuíno meio / fim para alcançar a liberdade?

    Em primeiro lugar, as leis criminais, por exemplo, estão baseadas em punições para aqueles que cometem crimes. É a responsabilidade; mais conhecida como culpa… Quem comete um crime que tem que pagar o que a lei estipula.

    Entretanto, esse tipo de responsabilidade é o que eu chamo de “responsabilidade artificial”. Eu considero (apenas um palpite pouco fundamentado, por enquanto…) que a “responsabilidade” deveria ser natural; assumir as conseqüências diretas dos seus atos. Entretanto, ninguém deve lhe dizer quais são as conseqüências que você terá que enfrentar. Matar alguém trará diversas conseqüências; pode despertar a ira de amigos e familiares, pode fazer com que as pessoas se afastem de você, etc. Esse tipo de conseqüência, será que não seria “justa” o suficiente? Ou mesmo que fosse “injusta”, considero hoje o que Nietzsche disse. “A justiça é uma troca”. Não vou alterar o significado da frase, mas hoje pra mim ela soa como “A justiça é uma troca”.

    Deparamos-nos com diversas responsabilidades artificiais. São sempre regras ou mesmo chantagens de improviso que nos impõe comportamentos ou proibições quanto a comportamentos. Considero este tipo de responsabilidade um tipo negativo: ele corrompe a essência da liberdade aliada à responsabilidade, algo como “agüente as conseqüências dos seus atos”. Temos uma normalização, digamos “burocratização” das conseqüências. Estamos de volta ao mecanicismo cego da sociedade ocidental. O “indiretismo” também, pois se coloca tudo nas mãos do agente de controle social.

    Temos essa responsabilidade como um fardo, como um peso, como um agenciador que leva a uma liberdade ruim e vigiada*, simplesmente porque a burocracia do sistema tende a tornar a sociedade coesa e homogênea – destruição do indivíduo e da própria natureza da liberdade. Todos têm que se adaptar a esse sistema, mesmo aqueles que estão acima disso serão puxados pra baixo, pela lógica da “justiça”.

    A “doutrina” (cof-cof) da ação constante é uma alternativa. É a constante transformação e interação; a ação é aquilo que liberta e deve ser constante. Assim como o amor nietzscheano à vida, com todas as suas guerras e inquietudes, deve-se amar essas complexas interações do sujeito com o objeto que sua vida se torna (pois é moldada não só por si mesmo mas também pelos outros ao redor) pois esse é o exercício da liberdade em comunhão com a responsabilidade. Não é fuga dela; é aceitação dessa realidade com coragem e vontade.

    *Em algum lugar ouvi algo do tipo “se a sociedade te encaixa confortavelmente, você chama isso de liberdade”.

  • Meios e Fins

    Postado em 71 de Burocracia de 3173 YOLD , às 4:75:07 Peterson Espaçoporto Comments

    O que é mais importante para os movimentos anarquistas, anarco-discordianos ou qualquer coisa do gênero? Nossa meta de conscientização é o indivíduo, a sociedade, ambos ou nenhum? Se um dia chegarmos a uma definição segura de como a sociedade deveria ser, como deveríamos alcançá-la? É certo que mesmo sem definição segura todos que tenham uma mentalidade de “mudar essa porra de situação” sabem mais ou menos o que seria uma boa sociedade. Entretanto, deveríamos alcançá-la através de reformas, de guerra civil, do uso de territórios remotos e abandonados por exploradores da nossa sociedade, ou o que?

    Tomando por exemplo a desigualdade social do estatismo / capitalismo, o que devemos fazer? Construir uma sociedade estatista / capitalista que, em primeiro plano, acabe com a desigualdade social (impossível para tal civilização), para depois pensarmos em melhorá-la com a liberdade anarquista? Esse é o principal problema (e sempre foi) do anarquismo. A falta de concordância sobre o método. Se todos parassem e dissessem “Ok, não gostamos de vocês, vamos fazer uma puta revolução agora na cidade X”, talvez fôssemos bem sucedidos. Mas não, pelo contrário, alguns diriam “não, não é assim que chegaremos ao anarquismo”, entre outras explicações. Bom, se não é assim é como então? E mesmo que haja um novo como, quais são as conseqüências? Agora ou Depois? Hoje ou Amanhã? As duas não são integralmente excludentes, mas qual delas é menos excludente?

    Entretanto, é o preço que se paga pela liberdade individualista. A liberdade de fazer com que cada um tome uma decisão, independente da escolha sedutora de fazer com que todos submetam-se a um mesmo “sistema”, a uma mesma máquina, onde cada um seria considerado uma peça dessa máquina. Alguns perguntariam: mas qual é o problema se a máquina dá certo? Bom, há diversos problemas, mas não quero discutí-los aqui. O importante é questionar se, mantendo a liberdade individualista é possível chegar a alguma ação concreta para tornar realidade uma organização social anarco-discordiana – concreta mesmo, sem ser uma exposição de arte, uma palestra ou qualquer coisa do gênero. Talvez sim, caso o número de adeptos cresça o suficiente. Dessa forma, pequenas inconsistências entre métodos similares podem vir a se eliminarem para possibilitar uma ação em grupo, e dessa forma vários grupos, relativamente grandes, com diversos métodos diferentes, podem atuar.

    Isso não seria, portanto, um modo de criar pequenas máquinas? É, talvez. É um caminho sem fim. É melhor se perguntar: A construção de máquinas não seria um meio consciente para se alcançar esse fim de destruição delas mesmas (Quando isso não significar desistência ou derrota)?

    Ainda assim, que é triste desistir da individualidade, é.

  • Sim, mas a que custo?

    Postado em 70 de Burocracia de 3173 YOLD , às 7:16:34 Peterson Espaçoporto Comments

    Um post do blog 1001 Gatos de Schrödinger questiona: “Qual é, para você, a melhor forma de governo (ou organização social)?”. Bom, é um post antigo, mas só dia 13 fui ver a resposta de Reverendo Johnny P:

    Democracia Parlamentarista de base Federalista na Política, com o governo federal cuidando apenas de Política Externa, Diplomacia, Segurança Nacional e outros assuntos Supra-Estatais. Economia de Mercado Livre, que apesar dos esperneios dos opositores, foi o que nos impulsionou até esse nivel tecnológico e científico.

    A minha pergunta foi: A que custo?

    O que me ocorre é que, de fato, o Mercado Livre nos impulsionou até o nível tecnológico e científico no qual hoje vivemos. Porém, contemple a sociedade de merda que temos. De que vale atingir tal nível tecnológico e científico, se ele está disponível para tão poucos, e dessa forma continuará por muito tempo enquanto o sistema não se modificar?

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    Now playing: James Blunt – High
    via FoxyTunes

  • Reflexões Acerca da Concepção Física de “Trabalho”

    Postado em 63 de Burocracia de 3173 YOLD , às 7:85:19 Peterson Espaçoporto Comments

    “Trabalho”, em seu conceito físico, é o que acontece na nossa sociedade atual. Alguns entregam a própria energia para pôr em movimento outras pessoas.

    Seria legal acontecer um movimento em todas as pessoas. Isso é o individualismo de ação constante. Cada um gastando energia para se pôr em movimento.

    E ainda temos o fasto de que, ainda não havendo deslocamento, a energia gasta nas efemeridades se eterniza no momento que a constitui. Não se trata de desperdício; trata-se apenas de saber que o único deslocamento que interessa, é aquele que já estamos invariavelmente realizando.

    A chave: tempo e energia.