E também o assassinato de outros deuses
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  • A Nova Acrópole e o Iaido

    Postado em 28 de Discórdia de 3176 YOLD , às 9:08:54 Peterson Espaçoporto View Comments

    Uma amiga minha me convidou há umas duas ou três semanas para ir com ela a uma conferência sobre filosofia no centro. Falei well, tudo bem, vambora — ainda mais considerando que era uma terça e nesse dia não trabalho[ava]. Era ainda feriado em Florianópolis, mas a conferência ainda aconteceria.

    Quando chegamos no local percebemos que na verdade não era bem uma conferência, mas sim a aula inaugural de um curso de filosofia à moda clássica, e o lugar era uma associação cultural chamada Nova Acrópole — dedicada ao ensino e disseminação da filosofia.

    Como chegamos cedo demos uma passeada pela escola, que tem uns dois andares e várias salas e espaços interessantes. Um laboratório de informática, uma biblioteca, um espaço pra confraternização, e também um dojo para a prática de artes marciais.

    Ficamos intrigados. Ora, artes marciais? Luciana, a mulher que nos guiou pela associação, explicou que a associação, que é internacional, possui certas “extensões” — pessoas interessadas em outros assuntos que não diretamente a filosofia podem criar núcleos de estudo desde que tenha algo a ver com a filosofia. A associação, por exemplo, possui um centro de artes plásticas, e outras pelo mundo possuem um centro de medicina, e por aí vai.

    Um desses centros é um de artes marciais (não lembro o nome, acho que é algo como Budi Darma, imagino que escrito de forma diferente) e aqui em Floripa duas artes marciais são praticadas: o Neikun e o Iaido.

    Eu fiquei interessado no Iaido: é uma arte originada dos samurais japonesas, e é, na definição mais simples do site em inglês (em tradução livre), “a arte de reagir a um ataque surpresa ao contra-atacar com uma espada”, que no caso é uma katana.

    Cool, isn’t it?

    A explicação fica ainda mais legal: “O Iaidoka (praticante de Iaido) usa uma espada: não para controlar o oponente, mas para controlar a si mesmo. Iaido é geralmente praticado de forma solitária numa série de Wazas. O Iaidoka executa várias técnicas contra um ou vários inimigos imaginários. Cada Waza começa e termina com a espada na bainha. [...]  Para praticar de forma correta o Waza, o Iaidoka precisa aprender postura e movimento, força, controle do corpo. Iaido nunca é praticado de forma improvisada”

    Achei muito interessante. Nunca fui de artes marciais — nem de esportes ou coisas do gênero — mas sempre tive fascínio por lutas com instrumentos: espadas, escudos, lanças (embora menos nesse último caso) e em todas as épocas: desde as lutas medievais passando pelas gregas tipo as do filme Tróia até esgrima, espadas japonesas (ah, Kill Bill…) e os sabres de luz de Star Wars…

    Então quem sabe não valesse à pena?

    A descrição continua, saca só: “O Iadoka se prepara para um ataque surpresa, onde uma solução imediata e eficiente [...] é necessária. Assim, a técnica é altamente refinada. Nenhum movimento desnecessário é feito. A técnica é simples e direta. O método de treinamento é voltado para o desenvolvimento de todo recurso físico e mental do praticante.”

    Achei tudo muito interessante e voltei lá para dizer que não estava interessado no curso de filosofia (coisa que já tinha dito antes de sair de lá naquele dia, actually) porque filosofia é uma coisa que estudo e gosto desde pequeno. E, além disso, a filosofia grega de depois do Sócrates é a que eu menos gosto — sim, sim, é influência do bigode, mas o que posso fazer se concordo com ele? Sócrates era mais discordiano, mas ao mesmo tempo gerou toda a tradição racionalista; Platão era um babaca, Aristóteles era escravocrata e sexista. Disseram muita coisa interessante, certamente, mas se eu fizesse o curso estaria indo não pra discutir seus méritos, estaria indo pra ouvir sobre eles. É um curso. E é um curso voltado para a aplicação das filosofias deles na vida real. Tem lá uma matéria de política — cara, eu sou anarquista, não gosto desse negócio de representatividade. Eu não quero ir lá pra ficar discutindo e subvertendo o propósito da aula. É sacanagem para com os outros alunos, por exemplo. É como ir  como aluno pra aula de inglês começando a questionar o método usado e começar a querer mudar tudo… Como eu disse pra @nanoluh: prevejo irritações e frustrações.

    Contudo, o Iaido é legal. Fui assistir a uma aula na quinta-feira, e eu gostei bastante. No início da aula foi feito uma meditação: pretende-se atingir um estado de calma e concentração que, segundo a professora, deveria se tentar manter ao longo da aula (esse site que indiquei explica que uma vez no dojo, durante a aula, nenhum outro assunto pode ser discutido). Depois começou a série de Waza, em que os alunos praticavam a sequência de golpes contra o adversário imaginário. O Waza que eu assisti consistia num ataque de alguém pela direita que acontecia enquanto eles estavam sentados. A professora também perguntava, ao final de uma série, o que eles queriam fazer melhor na sequência deles, e explicava como deveria ser feito, pedindo que eles se concentrassem na melhoria daquele ponto.

    De uma forma ou de outra, fiquei com vontade de começar. Mas a professora me disse que, sendo uma extensão do curso de filosofia, não era uma opção fazer só o Iaido, e não fazer o curso. Fiquei “nhééééém que meeeerda” e agora já não sei ao certo o que fazer. Pagar pra ver se no fim das contas o curso vai se provar uma perda de tempo, ou desistir altogether?

    Não sei. Ainda não me decidi…