E também o assassinato de outros deuses
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  • As Portas da Percepção, Parte I – O Cérebro

    Postado em 1 de Discórdia de 3175 YOLD , às 1:25:09 Peterson Espaçoporto View Comments

    “As Portas da Percepção” é um ensaio fantástico de Aldous Huxley. Inspirador de três posts – sendo este o terceiro, Huxley é dotado de uma gigantesca capacidade, ham…  Literária, mesmo quando o que ele escreve é muito mais um tratado científico-filosófico do que ficção.

    Por que tomar mescalina? Ele fala sobre como nós, seres humanos, vivemos em uma realidade exclusivamente solitária. Entretanto, nossas bolhas, nossos (adorei essa expressão; ele é foda) “universos insulares” possuem pontos de intersecção grandes o suficiente pra que possamos tentar compreender o que se passa do outro lado. Veja bem, tentar, não necessariamente conseguir

    Mas ele prossegue, dizendo que se já é difícil exatamente sentir, ter a experiência do outro – ou melhor, alguma ideia acerca dessa experiência – é ainda pior tentar conseguir qualquer ideia sobre a experiência de alguém que não tem nenhum ponto de intersecção aparente – aqueles considerados gênios, loucos, “místicos” e por aí vai.

    Então a Mescalina seria um jeito de conseguir penetrar mais a fundo nessa realidade totalmente diferente da que pessoas consideradas sãs experimentam. Mas por que alguém quereria entrar nessa realidade? Aí que vem o pulo do gato:

    Para ele, a questão não é que de alguma forma a experiência dessas pessoas sejam diferentes. Não. A questão toda é que o cérebro, segundo um tal de Charlie Dunbar Broad, não seria um órgão produtor, responsável pela produção do conteúdo abstrato de nossa massa encefálica. Ele seria justamente um órgão filtrador. Para ele, todo ser senciente tem acesso a “tudo” – ou seja, de alguma forma existe uma torrente de onisciência passando por ele, fazendo com que ele seja teoricamente capaz de acessar todas essas informações.

    Acontece que aí que entra o papel do cérebro: se tivéssemos de fato acesso a todas essas informações, não seríamos capazes de viver bem na terra. Não seríamos capazes de viver com os sentidos orientados à sobrevivência. Então o cérebro seria o responsável por, ao filtrar as informações, impedir que tenhamos acesso a todas elas. Ingerir drogas e outras substâncias que debilitam o cérebro seria, então, uma maneira (antropologicamente falando, é claro…*) de debilitar o filtro, e deixar que a consciência consiga acessar aspectos da realidade inacessíveis durante a condição normal de um indivíduo.

    Para corroborar isso, entre aspas, estava ele dizendo sobre como as cores adquirem importância. Sob o efeito da mescalina, o vermelho não só parece mais vivo, intenso, como também cada nuance, cada diferença entre as cores ou entre tons diferentes da mesma cor é percebida – e priorizada pelo cérebro – de um jeito muito mais potente. Ou seja, ao debilitar o órgão filtrador, tem-se como consequência a despriorização de coisas-mais-importantes-pra-sobrevivência, como saber a que distância está o objeto, instintivamente, e ocorre um tipo de diferenciação no que se vê, ou na maneira como se veem as coisas.

    Agora temos que fazer uma pausa. O cérebro é de fato um órgão filtrador? É verdade que temos “acesso” físico a várias coisas que não de fato percebemos. Neste exato momento deve ter ondas de rádio e afins passando por mim, mas eu não as vejo, eu não as ouço, eu sequer as sinto. Se enxergássemos os raios ultravioleta, se ouvíssemos as frequências maiores e as menores… A evolução nos moldou, através do acaso, para que não apenas nosso cérebro mas nosso corpo inteiro fosse um sistema filtrador – nossos olhos, nossos ouvidos. E mais, de uma maneira irreversível, de modo que não é uma questão de “Recebemos as informações mas o cérebro não deixa a gente pegá-las” e sim “Não temos condições de pegá-las, nem com um cérebro chapado”. Não deixa de estar certa essa proposição, mas apenas sob certo aspecto.

    Entretanto, ele estava falando também de percepções que vão além ainda dos limites da realidade. O objetivo é sobrevivência? Então vamos nos ater à matéria. O que há além dela, o que é possível perceber que transcende nosso mundo comum, isso também poderia ser alcançado através do enfraquecimento desse órgão tão concentrado em nos grudar ao mundo físico e prático…

    Mas… Será? Será que há algo além da realidade física pra ser visto? Vejam, só pra lembrar-lhes a verdade absoluta discordiana, isso tudo pode ser só um jogo de palavras e isso pode ser tão verdade quanto uma outra interpretação das coisas. Afinal, podemos dizer que as drogas não enfraquecem um guarda da nossa mente, mas em vez disso deixam o responsável pela organização das poucas informações recebidas meio tonto, de forma que ele acaba inventando informações pra organizar – ou bagunça as antigas, enfim, whatever.

    Vamos voltar ao próprio Huxley: pra ele, o cérebro – lembrando, como o órgão filtrador que é – cuidou também de criar nossa complexa linguagem. Nós somos beneficiários da linguagem, pois podemos aproximar nossos universos ainda mais e fazer com que o outro compreenda melhor a nós e a nossas experiência. Contudo, ao mesmo tempo somos também vítimas dela, pois nosso intelecto se condiciona a trabalhar com conceitos limitados – limitados pela linguagem. Depois, quando fala da arte, ele até diz: os símbolos, por mais que preparem a mente para a compreensão da natureza das coisas, nunca serão as coisas que pretendem representar. Da mesma forma as palavras.

    Isso significa que podemos continuar e ficar discutindo se o cérebro é um órgão produtor ou filtrador; se ele fica errado ou cada vez mais certo durante a ingestão de certas substâncias, e no fim estaremos falando das mesmas coisas, das mesmas experiências. Que experiências são essas? Bom, fiquemos no que é sabido: ocorre uma alteração no que a pessoa percebe. Se isso é bom ou ruim, aí veremos depois.

    * No próximo ensaio dele, “Céu e Inferno”, ele vai falar sobre como as mesmas drogas que podem levar ao “Céu” também podem levar ao “Inferno” – então não são exatamente só elogios que ele tece às substâncias…