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Entre o fantástico e o simbólico
Postado em 25 de Discórdia de 3174 YOLD , às 7:12:19 View CommentsTim Burton é um diretor fantástico. Mas além dos filmes que faz, ele também escreve, e escreve muito bem, por sinal.
No livro “O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra”, os desenhos são vívidos, intensos, marcantes; as rimas por vezes não existem ou fazem o ritmo da poesia mudar, o que combina de forma elegante com a história.
Estas, “combinando a doçura e a tragédia da vida”, como disse Felipe Barcinski no livro, são viagens artísticas do mais alto nível, e que ainda te deixam entre dois mundos. Você se emociona, ainda que as situações sejam bizarras, mas também aceita o desafio intelectual de compreender algum simbolismo por detrás delas, alguns às vezes provocativos, desses que chamam com voz doce o senso investigativo, como o bebê âncora. E, afinal, o que significa ter um filho com o forno microondas???
Entre o simbolismo e a fantasia. Assim vive a criatividade estupenda de Tim Burton. Os temas do livro geralmente são a busca por aceitação e adequação (personagens que sentem-se tristes e distantes por serem diferentes), a filiação (nunca conheci alguém que colocasse de forma tão brilhante no papel o que eu acho sobre ter filhos), a inevitabilidade da morte, e principalmente os prazeres solitários dos personagens sempre tão cheios de marcas, lutas, pesares, conflitos internos – que se mostram, sem pudor para o leitor, com uma sinceridade que escapa com suspiros de liberdade dos estereótipos de consciência romântica. Um sorriso desenhado nesse livro faz você se sentir bem, em paz, com uma alegria inenarravel e até bobinha; uma sensação leve, simples e poderosa – muito melhor do que as extravagâncias do romantismo.
Tenho pra mim agora um pequeno desafio: entrar na mente de Tim Burton. Mergulhar em seus tormentos, tão expressados na sua obra – entender tacitamente o que ele quer dizer e mostrar. Vou baixar seus filmes, saber de suas idéias e opiniões.
Mas isso, claro, quando eu tiver mais tempo livre…

photo credit: Daniel Pedrosa -
O Mundo do Role Play
Postado em 50 de Burocracia de 3173 YOLD , às 6:68:37 View CommentsImagine um discordianismo levado ao pé da letra – de uma crítica à religião e à realidade ele passe a ser uma religião dogmática e obscura. Uma seita se organizaria ao redor da crença.
O mindfuck, uma guerra santa. A vida como arte de jogar jogos, uma diretriz.
A seita funciona como um grande baile de máscaras – macroscópico. Cada discordiano tem como tarefa interpretar um papel. Simplesmente gastar meses e meses interpretando. O tempo todo. Faz isso até cumprir sua missão, que é causar confusão nas pessoas. Terminado o dever, ele muda de casa ou mesmo de cidade e compõe um novo personagem, pra continuar com a determinação da seita*.
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Muito da história acima é apenas elemento de ambiente – o principal é a idéia fundamental por detrás dele. Vivemos sob um constante cotidiano de Role Playing Game, o RPG.
Vestimos fantasias diferentes e nos tornamos pessoas diferentes quando convivemos com pessoas diferentes – nossa vida é um baile de máscaras, somos diversas pessoas, uma pessoa diferente pra cada um de nossos contatos. Isso é bom ou é ruim? No segundo caso, é possível não fazer isso?
Ao não agir dessa forma, admitindo um único “modo” de nos relacionar com as pessoas – modo esse válido para todas as pessoas – acabamos selecionando os verdadeiros amigos, ou mesmo fazendo com que somente pessoas com as quais gostamos de conviver se aproximem de nós.
Por outro lado, agindo dessa forma, deixamos de conhecer outras pessoas, que poderiam nos apresentar outras idéias e outras realidades, transformando nossa vida. E também há o problema de que se nos prendemos a uma única “personalidade”, a um único “eu”, isso pode se mostrar falso ou irrelevante um dia, conforme a verdade absoluta erisiana. Prendendo nossas possibilidades a uma essência, perdemos a possibilidade de sermos outras coisas (inspirado por Sartre, percebem?).
E sob o prisma da liberdade racional (indivíduo-indivíduo) e de grupo (social-indivíduo), que podemos pensar? Que uma pessoa multifacetada é uma hipócrita, uma escrava das convenções sociais, ou uma diplomata, que conscientemente, deseja se adaptar a diversas realidades? E quem é o “eu”, qual é a verdadeira personalidade de uma pessoa que escolhe ser diversas ao mesmo tempo? O ponto de equilíbrio utilizado para aglutinar seus diversos conceitos contraditórios é frágil e incerto, ou é a base da tomada de decisões que concernem só a si próprio? Se só há realidade na ação, qual das realidades é escolhida pela pessoa? Etc etc etc…
Adotar uma postura selecionadora como a que adotamos com freqüência é justamente o que critico: que liberdade racional existe aí? Escravo das exigências dos outros, o homem múltiplo procura satisfazer aos outros, mas, quando se satisfaz? A liberdade racional lhe falta, pois uma vez conhecida sua seleção, torna-se manipulável e controlável – até mesmo previsível.
Se me perguntassem o que é o ser humano, eu diria que é um ser assombrado pela existência e acossado pela fraqueza humana – tanto a própria quanto a dos outros. Entretanto, ele pode lidar com isso naquele estilo “empurrando com a barriga”, ou se libertar disso. Simplificando, é um ser que pode ser ou uma coisa, ou outra; ou uma energia enjaulada e estabilizada, ou uma grande estrela, vívida e completamente instável em sua energia de magnitude impressionante.
A criação – destruição racional serve para afirmar a liberdade de tal estrela. A inconstância discordiana não significa, ao que me parece, hipocrisia. Pensar em vários níveis e de várias formas diferentes é um ato independente de fins puramente oportunistas (no sentido ruim da palavra). Como disse Nietzsche,
“Viver perto demais de um homem é a mesma coisa que retomássemos sempre uma bela gravura com os dedos nus: um belo dia teremos nas mãos um péssimo papel sujo e nada mais.”
O objetivo é sempre ser surpreendente… Até para si mesmo. A melhor das estratégias – a única que o adversário não consegue prever.
O objetivo é ser uma estrela ingovernável… E não, não mesmo, uma estrela falsa, que para uns é quasar, para outros, pulsar, para outros, matéria escura. É certo que pelas circunstâncias do modo como a vida é vivida e afins, as pessoas vão acabar tendo visões diferentes de nós – mas aí já não é intencional, já não é culpa nossa.
*A última pergunta: vale à pena o esforço de ser um e ser muitos? Vale à pena viver assim?




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