E também o assassinato de outros deuses
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  • Otimismo – e pessimismo – translúcido

    Postado em 42 de Confusão de 3174 YOLD , às 5:34:55 Peterson Espaçoporto View Comments

    Querer tratar da natureza humana é deixar transparecer a quantidade de otimismo / pessimismo de uma pessoa. Numa cultura recheada de romantismo e falsificação fazer uma obra dita realista é fácil: não construir estereótipos muito ideais (estereótipos sim, perfeitos e com ângulos exatos, não) e colocar sexo no meio. Alguns exageram (ou desejam retratar, só por ego, alguma espécie de virilidade regionalista. Será que foi o que aconteceu com Dom?), outros conseguem deixar mais adequado. Entretanto, outro ingrediente importante de uma obra realista é o que dá errado por causa do ser humano. Alguém erra ou alguma maldade com gosto de cotidiano é feita. Isso dá o tom do realismo, mas não significa de modo algum que isso retrate a realidade. Só retrata, como num espelho, o quanto o autor pode ser otimista. Como num espelho, revela o que é que ele espera dos humanos e como os avalia.

  • Viva como se soubesse que não pode morrer

    Postado em 17 de Discórdia de 3174 YOLD , às 8:47:92 Peterson Espaçoporto View Comments

    As torrenciais paixões e agoniadas satisfações de vontades provenientes do “viva como se fosse o último dia” ganharam um bom oponente, penso eu. O “viva como se soubesse que não pode morrer”.

    Bom, na verdade a frase é simplificada e não significa exatamente isso. Douglas Adams no livro “Vida, Universo e Tudo Mais” dá um verdadeiro presente à Arthur Dent. Quando este encontra-se com Agrajag, um monstro que foi morto em várias e várias reencarnações por Arthur, fica sabendo que ele matou Agrajag num lugar chamado Stavromula Beta – só que ele ainda não tinha feito isso. Logo, Arthur não podia morrer até matar Agrajag mais uma vez.

    É interessante pensar dessa forma: os destemperos e inconsistências da vida humana provém da incerteza sobre o tempo que nos resta. Afinal, podemos morrer amanhã, e então tiramos dessa frase uma moralidade para viver. Mas, afinal, isso pode não acontecer; quem se esquece de que podemos morrer amanhã vive como se fosse viver pra sempre. O que o escritor britânico nos deu foi um meio-termo: Arthur sabia que não podia morrer. Portanto, ele tanto podia viver uma vida tranquila, sem sobressaltos, quanto uma vida cheia de aventuras perigosas e empolgantes, já que ele não poderia morrer de qualquer forma.


    Creative Commons License photo credit: MrClementi

    Uma boa filosofia de vida, não? Duas perguntas: qual das três vocês preferem? Achar que morre amanhã, nem pensar que pode morrer amanhã ou saber exatamente as condições exatas que ainda não ocorreram que levam à sua morte? E a outra: o que vocês queriam que acontecesse pra marcar a morte de vocês? Analogamente, se Arthur ainda teria que matar Agrajag mais uma vez, o que vocês “fariam pra morrer”?

  • Livros e Identidade

    Postado em 11 de Discórdia de 3174 YOLD , às 5:49:71 Peterson Espaçoporto View Comments

    Um escritor deveria saber que sempre que está segurando um livro de sua autoria, está segurando o detonador de uma bomba. Quem sabe o “estrago” que o seu livro pode causar em alguém? Livros ficcionais não formam explicitamente um manual de conduta na vida, mas um livro já tem um final definido – já está escrito – e portanto tem-se a sensação de que, o que quer que aconteça com os personagens, aconteceu por causa do destino. Ou, como preferir, numa explanação menos fantasiosa, o escritor quer passar uma mensagem de conduta moral com um livro, sempre quer, porque quando ele pune alguém no final está obviamente declarando ao leitor, o leitor percebendo ou não (não importa), que ele desaprova tal atitude ou aprova tal atitude. E assim as pessoas vão formando uma “identidade”. O que, pros padrões atuais, é uma coisa bem descartável até.

    Aí temos dois problemas: em primeiro lugar, o escritor não pode ser irresponsável com sua bomba caseira. Não, não, não que ele não deva usá-la. Tem que usar com responsabilidade. Tem que colocar os materiais certos. E no lugar certo.

    E depois, precisamos de leitores mais inteligentes. Arte não é questão de consciência – a ciência dos “processos que ocorrem no ser enquanto ele se regozija com uma obra de arte” destrói a arte – mas é muito interessante que, pelo menos depois que as pessoas terminam de ler um livro, que elas pensem um pouco em si mesmas, no livro, em toda a vida sob uma nova ótica. Faz bem, e não deixa as pessoas se machucarem tanto quando a bomba explode.