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Vamos falar sobre esportes – e sobre liberdade, of course!
Postado em 3 de Discórdia de 3174 YOLD , às 6:69:29 View CommentsHoje a aula de redação teve como tema uma dissertação sobre o esporte. Eu detesto dissertações, não por incapacidade de produzí-las, mas apenas porque são burocráticas demais. Isso irrita. É desconcertante ter que se preocupar em escrever até o último milímetro da linha (aposto que a professora vai descontar uns dois décimos por causa disso em algumas linhas de hoje), ou então de fazer um parágrafo com 5 ou 6 linhas, ou de colocar aquela “frase de conclusão” no começo do último parágrafo. É um saco.
Mas, voltando ao esporte, acho-o uma coisa fantástica. Mais do que fantástica, ela é fundamental. Sob diversos aspectos. Afinal, todos sabem que fazer exercícios físicos ajuda o corpo e a mente, etc. É difícil arranjar um motivo qualquer pra dizer que o esporte é ruim – tirando o fanatismo, que é ruim em qualquer atividade humana – mas hoje já falei demais nisso lá, na aula, e quero mesmo é falar sobre outro benefício. Um benefício individual, pessoal, que se converte em benefício social.
No post Contra a Punição, rebento meu dedicado ao Pensitivo (um dos melhores, creio eu), falta uma parte. Uma parte fundamental. A questão é que a falta de uma legislação apropriada pra punir infratores – e até mesmo a falta de uma legislação – só seriam possíveis em um outro cenário sócio-político, uma outra realidade que se caracterizaria por vários outros fatores, como por exemplo:
- Um outro sistema monetário que não envolvesse o dinheiro (Entre outras coisas, a nossa civilização está tão focada na comercialização das coisas – ou nas coisas mesmo – que tudo se transforma em um produto, até coisas abstratas, e o dinheiro se torna o único meio para alcançar tudo que se deseja, fazendo dele um bem e um valor maior que qualquer outra coisa – quantos crimes de vários tipos não existiriam não fosse o dinheiro? Ou melhor, quantas pessoas não são mortas por causa de dinheiro?)
- Um sistema de educação que ensinasse verdadeiramente alguma coisa (Um sistema educacional baseado na liberdade, na vontade, na reflexão e no pensamento crítico. Flexível e individual – sem deixar de oferecer opções para desenvolver o trabalho em grupo e a convivência. Além disso, prover muito mais do que uma escola, proporcionar um ambiente para o desenvolvimento emocional das crianças).
- Uma cultura forte e verdadeiramente plural, muito acima das pluralidades vendidas e das identidades alugadas, que são antes roupas, que podem ser trocadas a qualquer instante, do que verdadeiras atitudes. Já disseram que apenas a arte salva. Não sei. Mas a arte é um tipo de expressão humana tão sublime que não deveria ser “solidificada”, nem mesmo vendida (da forma como é hoje).
- E, além disso… Uma cultura de esporte! Sim, uma cultura focada no esporte em geral. Além dos benefícios da parte “exercício físico” do esporte, há também outras coisas positivas nele, como a interação social e a habilidade de trabalhar em equipe quando necessário, e principalmente a autodisciplina, autocontrole, autoconhecimento.
A autodisciplina é fundamental pra uma sociedade sem punição. O conceito que sempre quiseram (tentaram, humpf) passar pra mim de autodisciplina pode ser resumido pela minha atual visão como o seguinte: disciplina é seguir regras impostas por outros. Autodisciplina é seguir regras impostas pelos outros, mas sem precisar que ninguém te vigie, afinal, você mesmo faz isso. Você conhece algum outro emprego da palavra “autodisciplina” por pessoas como coordenadores de colégios, pais e mães, etc? Não, né? Pois é.
Deveríamos entender a autodisciplina, entretanto, como um exercício máximo da liberdade que legitima a falta de punição. A liberdade que alguém tem pra fazer as próprias regras, se policiar quanto a elas e ter liberdade para modificá-las. E essa modificação inclui as experiências pelas quais a pessoa passa, e talvez precisa passar (veja os comentários do post do Contra a Punição pra entender melhor essa última frase). O esporte fornece acima de tudo uma noção, aliada ao prazer, de que pra alcançar um objetivo é necessário seguir uma conduta de escolhas. Por isso ele é tão importante pras pessoas numa sociedade sem punição. Se a arte seria a parte “dionisíaca” de uma sociedade livre, o esporte seria a parte racional dela.
P.S.: A parte “E sobre liberdade, of course” do título foi adicionada depois de acabar o post, porque achei que esse post é antes de mais nada uma extensão daquele do que alguma coisa sobre esportes.
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Para introduzir, ou finalizar…
Postado em 53 de Caos de 3174 YOLD , às 4:06:57 View CommentsDaqui a alguns dias eu publicarei no blog Nada Pensitivo! um texto que explica minha posição anti-punição. Não que seja algo revolucionário ou novo, mas me diga: não parece contra a natureza humana algo assim?
Se eu digo pra alguém essa minha idéia, a pessoa pode me olhar com uma cara estranha e me chamar de maluco; “Você tá maluco? Como assim, acabar com a punição? Você não acha que aqueles assassinos filhos-da-puta que mataram o João Hélio não merecem morrer, aqueles desgraçados?”, é isso que qualquer um mais ou menos “normalzinho” diria. Por isso essa é uma posição difícil de defender e que precisa ser bem explicada.
De qualquer forma, isso tem muito a ver com a moralidade, pois mesmo que haja uma certa laicidade nos Estados contemporâneos a nós – não ser cristão não é crime, por exemplo – ainda assim a moralidade persiste sob formas diferentes e o mesmo esquema de punições funciona de maneira diferente. Por tanto, para complementar o futuro post, coloco aqui uma pequena história para reflexão.
Meu irmão faz (fez, não sei quando vou postar isso) aniversário dia 10 de fevereiro, num domingo. Minha cunhada quer fazer uma festa surpresa pra ele, mas o salão de festas do prédio deles é muito pequeno, então ela pediu emprestado o salão de festas do Josué, o melhor amigo dele, pra que a festa seja feita. Entretanto, Josué recusou o pedido alegando que “ia dar muita sujeira, e eles iam ter que limpar depois”.
Meus pais provavelmente ficaram mais putos da vida irritados com a história do que a minha cunhada. Meu pai: “Ah, vá se fuder, fazer uma coisa dessa, isso não é amizade…”. Minha mãe: “Isso que ainda são tudo jovens, eu que sempre limpo tudo, fica tudo pra mim limpar, ainda faço sem reclamar! E ai de mim se eu reclamar, ainda vem a boca grande pra cima de mim! Ora, vê se tem cabimento uma coisa dessa…”. Meu pai: “Acho que depois dessa a amizade deles vai dar uma balançada…” – e eu repliquei: “Ah, meeeeu Deus, ele matou a mulher dele, estuprou os filhos dele e botou fogo na casa agora quem sabe. Que exagero, pai!”.
Isso, como sempre, me fez pensar muito, principalmente em relação à questão da punição. Ora, a moralidade moderna tem dessas coisas: veja como a pessoa é repudiada por não fazer uma gentileza – ou melhor, por não se sacrificar pelo amigo, de certa forma.
Em primeiro lugar, de onde surgiu essa moralidade que torna a gentileza uma obrigação? Bom, talvez ela surgiu porque vivemos num mundo mais perigoso, e a necessidade de amigos confiáveis nos tornou mais exigentes quantos aos amigos – exigimos deles sacrifícios e gentilezas, pra nos certificar e nos proteger contra os perigos das amizades interesseiras.
Agora fica a questão da liberdade que permanece cerceada pela moralidade: se reprovarmos essa atitude dele da forma como eles a reprovaram – tão efusivamente e botando-o do lado do “mal” – criamos uma punição para uma atitude (classificar como mau), em vista de inibir tal ação: isso é, compare você mesmo, uma chantagem. E chantagem, coerção, não é liberdade.
Então. Se você não veio de lá, agora leia.
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Responsabilidade natural e artificial
Postado em 26 de Pós-matemática de 3173 YOLD , às 4:49:78 View CommentsSantaum chamou atenção num comentário para o fato de que eu dou ênfase especial em meus textos para a questão da responsabilidade. De fato, eu considero que a liberdade só pode vir se for acompanhada de responsabilidade.
Entretanto, é preciso fazer uma limpeza na área de “responsabilidade”, porque o mesmo artefato que nos dá a possibilidade de agir em diversos sentidos e de sermos independentes, é também um fardo. Pode-se dizer, pra fins de comparação, que a responsabilidade é um tipo de empréstimo; você faz o que quer mas depois tem que arcar com as conseqüências. Algo do tipo “faça a bagunça que quiser, apenas arrume depois”. Ou seja, você pode ter liberdade por agora, mas terá que se ver depois com as conseqüências – uma prisão forjada por si mesmo para o momento que consideramos depois.
Será que há alguma contradição? Como fazer da responsabilidade não um fardo, mas um genuíno meio / fim para alcançar a liberdade?
Em primeiro lugar, as leis criminais, por exemplo, estão baseadas em punições para aqueles que cometem crimes. É a responsabilidade; mais conhecida como culpa… Quem comete um crime que tem que pagar o que a lei estipula.
Entretanto, esse tipo de responsabilidade é o que eu chamo de “responsabilidade artificial”. Eu considero (apenas um palpite pouco fundamentado, por enquanto…) que a “responsabilidade” deveria ser natural; assumir as conseqüências diretas dos seus atos. Entretanto, ninguém deve lhe dizer quais são as conseqüências que você terá que enfrentar. Matar alguém trará diversas conseqüências; pode despertar a ira de amigos e familiares, pode fazer com que as pessoas se afastem de você, etc. Esse tipo de conseqüência, será que não seria “justa” o suficiente? Ou mesmo que fosse “injusta”, considero hoje o que Nietzsche disse. “A justiça é uma troca”. Não vou alterar o significado da frase, mas hoje pra mim ela soa como “A justiça é só uma troca”.
Deparamos-nos com diversas responsabilidades artificiais. São sempre regras ou mesmo chantagens de improviso que nos impõe comportamentos ou proibições quanto a comportamentos. Considero este tipo de responsabilidade um tipo negativo: ele corrompe a essência da liberdade aliada à responsabilidade, algo como “agüente as conseqüências dos seus atos”. Temos uma normalização, digamos “burocratização” das conseqüências. Estamos de volta ao mecanicismo cego da sociedade ocidental. O “indiretismo” também, pois se coloca tudo nas mãos do agente de controle social.
Temos essa responsabilidade como um fardo, como um peso, como um agenciador que leva a uma liberdade ruim e vigiada*, simplesmente porque a burocracia do sistema tende a tornar a sociedade coesa e homogênea – destruição do indivíduo e da própria natureza da liberdade. Todos têm que se adaptar a esse sistema, mesmo aqueles que estão acima disso serão puxados pra baixo, pela lógica da “justiça”.
A “doutrina” (cof-cof) da ação constante é uma alternativa. É a constante transformação e interação; a ação é aquilo que liberta e deve ser constante. Assim como o amor nietzscheano à vida, com todas as suas guerras e inquietudes, deve-se amar essas complexas interações do sujeito com o objeto que sua vida se torna (pois é moldada não só por si mesmo mas também pelos outros ao redor) pois esse é o exercício da liberdade em comunhão com a responsabilidade. Não é fuga dela; é aceitação dessa realidade com coragem e vontade.
*Em algum lugar ouvi algo do tipo “se a sociedade te encaixa confortavelmente, você chama isso de liberdade”.




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