E também o assassinato de outros deuses
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  • Contra a Punição

    Postado em 41 de Burocracia de 3174 YOLD , às 3:75:52 Peterson Espaçoporto View Comments

    Originalmente publicado no Pensitivo

    Há algum tempo, no post “Responsabilidade natural e artificial”, esbocei, mesmo sem saber, aquilo que agora se transforma na minha crítica à punição.

    Tomei consciência de que sou contra a punição pouco antes de ler o livro “Aurora”, de Nietzsche. Depois que li fiquei um pouco frustrado, é verdade, porque descobri que ele mesmo já possuía essa idéia. Mas tudo bem. Vou procurar expor meus argumentos nesse post.

    Se uma pessoa faz mal a você, o que você faz? Você faz um mal a ela, porque isso é justo. Você pode ser um bom cristão e dizer “eu ofereço a outra face!”, mas meu amigo, se você acredita que o Inferno é um lugar onde as pessoas más são punidas, então o que você apóia é a idéia de que se deve causar um mal a quem faz mal, invariavelmente. Ou nem precisa ir tão longe, se você é desses cristãos que adora montar a religião como se fosse um sanduíche da Subway, eu posso te perguntar se você concorda com o sistema penal. Posso te perguntar se você acha justo prender alguém se esse alguém comete assassinato, ou roubo, ou outro crime qualquer. Acha? Então tá, continuemos.

    No livro “A Genealogia da Moral”, Nietzsche se pergunta: quando, onde, por que diabos existe a noção de que um dano sofrido deve corresponder a um dano causado? Nos jornais, principalmente no jornal regional que assisto no meio-dia com certa “regularidade”, há muitos casos de roubos, seqüestros, assassinatos. Os parentes das vítimas clamam por justiça! Os discursos deles geralmente estão aos moldes de “tem que haver justiça, esse cara tem que ser preso!”. Humm… Vejamos:

    Se eu mato um parente ou um amigo seu, você pode a) querer me matar imediatamente com as próprias mãos, ou b) ligar pra polícia pra que eu seja preso. Um as pessoas costumam chamar de vingança; o outro, de justiça.

    Mas qual é a diferença entre vingança e justiça? Nenhuma – essa é a resposta. As duas partem do mesmo pressuposto: se você sofre um dano, o que se tem a fazer é causar um dano àquele que fez o primeiro dano. O mecanismo básico é esse, sem exceções.

    Há pessoas que poderiam argumentar diversas diferenças, mas elas não eliminam o fato de que o mecanismo é o mesmo e os dois funcionam por causa desse mecanismo, mesmo com as sutis particularidades. Alguns argumentam que a justiça está do lado da lei. Argumentação fraca, a lei é apenas um consenso; não existe ciência que determina que prender alguém é “mais justo” do que matar em determinada situações, ou experimento que defina como “mais justo” 5 ao invés de 4 anos de cadeira pra determinado delito. Outros argumentam que a vingança é cega e subjetiva; a justiça procura julgar o dolo daquele que comete um crime. Sim, é verdade, mas a partir do momento em que o dolo é comprovado, a vingança e a justiça perdem as diferenças mais uma vez. A justiça acaba sendo justamente como Nietzsche a definiu: uma troca. Dano causado por dano sofrido.

    Prossigamos. No aforismo 15 do livro Aurora, Nietzsche escreve que em cada mal-estar e infortúnio que acontece a uma pessoa, ela vê dois consolos: o primeiro é causar mal a alguém, já que isso a lembra do poder que ainda tem, e isso a consola; o segundo é pensar que o mal que ela sofre é na verdade um castigo; que ela merece isso, que é culpada. Essa é uma boa psicologia, inclusive, para explicar a presença de pessoas castigadas por uma vida miserável / pobre em igrejas: durante muito tempo sofreram e tiveram a sensação de poder reprimida, e então se tornaram inofensivos, desistindo de tentar exercer seu poder sobre as pessoas, porque agora se encontraram no cristianismo, religião que diz que as pessoas já nascem pecadoras.

    Há ainda outro lado da justiça das prisões e da segregação da sociedade (na forma de execução, até), a ser considerado: o de que as pessoas são presas porque são perigosas para a sociedade.

    Em geral, grande número dos presos e executados “perigosos” foram politicamente perigosos, pessoas que se importavam com a verdade e ergueram a voz contra os poderosos – o que torna a punição algo detestável – mas ainda há mais um lado: os assassinos. As pessoas têm medo de que, soltos, eles possam cometer mais assassinatos.

    Entretanto, Nietzsche também combate essa falácia da cognição moral em outro aforismo; nele, ele comenta que baseados em uma experiência ou em uma ação da pessoa, deduzimos que tal pessoa possua uma essência que é própria daquela atitude. Pior do que isso, tornamos essa pessoa alguém de caráter imutável e absoluto, de forma que ela é só aquilo que ela mostrou quando cometeu o crime e não, ela não pode ser diferente… Ora, é um terrível engano tirarmos tantas conclusões de apenas um ato!

    A idéia das prisões é a de que elas devem separar o perigoso das pessoas comuns, mas temos uma noção errada do que é “perigoso”, ou então temos uma noção preconceituosa do que é “perigoso”; a idéia iluminista da recuperação do preso foi abandonada e subvertida no sistema punitivo que ela é hoje.

    Nietzsche, no extenso aforismo 202 de Aurora, dá uma idéia sobre como deveríamos tratar os criminosos, aqueles que causam um dano a alguém: como um doente… Nessa analogia, não devemos nos vingar dele, mas sim tratá-lo. Devemos dar oportunidade e liberdade a ele, pra que ele possa reconstruir sua vida, devemos mostrar a ele o mal que causou e oferecer a ele uma nova chance. Dessa forma construímos um novo homem, fazemos com que ele supere seu passado e assim contribuímos para com ele. Um dano sofrido pago com um bem causado… Se fosse pago com uma dor causada, isso só multiplicaria a dor no mundo, não faria dele um lugar melhor, nem do criminoso uma pessoa melhor, e nem faria alguém feliz.

    Voltando à questão da punição como consolo: hoje vivemos em uma sociedade de aparências e sintomas, onde o externo é valorizado muito mais do que o essencial, de forma que todo e qualquer essencial acaba se transformando em aparência pelo sistema, porque aparência pode ser comercializada – na verdade, pode ser contabilizada… Vivemos com uma cultura que privilegia o remédio e as medidas paliativas, não a cura – aprendemos a lidar com os sintomas, não com o problema da questão.

    As escolas nos passam conhecimento, mas a grande maioria deles é inútil. Nenhuma escola nos ensina o que, agora, considero o principal: nenhuma ensina a lidar com a dor. Nenhuma ensina a lidar com a frustração. Ou você acha que coisas como “o importante é competir” colabora para fazer com que alguém lide com a própria frustração?

    Somos ensinados subliminarmente, através de toda a nossa convivência prática e de toda a cultura que ingerimos e fazemos as crianças ingerirem, a lidar com nossos sentimentos ruins de maneira a remediá-los; uma fuga do real problema, uma fuga da realidade e uma vontade de esquecer os problemas, jogá-los no fundo de um baú e esquecê-los lá. Desse jeito, frente à tristezas e dores, ficamos com as dores aos outros, com a idéia do castigo e do martírio pessoal, que destrói o amor próprio no meio de uma teia de culpas imaginárias, ou então ficamos com a resignação e aceitação passiva e vitimal da dor, uma desistência que nos leva quase à depressão.

    E Nietzsche surgiu com uma idéia trágica de vida, e eu com a minha idéia completa de vida no Seminovosofia (que dá no mesmo), onde a dor e a tristeza fazem parte da vida e é preciso saber conviver com elas, gostar delas, porque elas inevitavelmente vão acontecer, mas o modo como lidamos com ela piora o homem ao invés de melhorá-lo. Não se trata de dar a outra face, trata-se de batalhar contra elas quando elas surgirem. O que se faz hoje é criar leis pra impedir que elas aconteçam ou apagar seus sintomas.

    Resumindo, vingança e justiça são a mesma coisa, e essa é uma maneira superficial de lidar com nossas dores e tristezas – fugindo delas, e, de quebra, piorando a humanidade. Devemos sim é dar uma chance pra que as pessoas melhorem, pois a desconfiança gera desconfiança e a dor causa a dor.

    Pra finalizar, o filósofo alemão que me apóia nessa:

    Durante milênios, os malfeitores submetidos à punição tiveram dos seus crimes a mesma impressão de que fala Espinosa: inesperadamente qualquer coisa correu mal, e não eu não devia ter feito isto… Submetiam-se à punição como quem aceita uma doença, uma calamidade ou a morte, com o mesmo fatalismo corajoso e destituído de revolta com que, por exemplo, ainda hoje os russos dispõem da vida, no que se superiorizam a nós, ocidentais. Naqueles tempos, se existia crítica do ato, era uma crítica exercida por parte da inteligência: não haverá dúvidas de que o verdadeiro efeito da punição tem que ser procurado na agudização da inteligência, no prolongamento da memória, na vontade de agir futuramente com mais cautela, maior secretismo e desconfiança, na compreensão de que há muitas coisas para as quais se é definitivamente demasiado fraco, ou seja, numa espécie de correção da avaliação que o indivíduo faz das suas capacidades. No geral, quer no homem quer nos animais, o que se alcança com a punição é o aumento do medo, o desenvolvimento da esperteza, o domínio sobre os desejos… Ora, desse modo a punição domestica o homem, mas não o torna melhor… Mais razões haveria para afirmar o contrário (aprende-se com os erros, diz o povo; na medida em que se aprende, fica-se também pior…, mas felizmente muitas vezes também se fica mais estúpido).

    Nietzsche, em Para a Genealogia da Moral

    Pra complementar.

    Aquele ali é opcional. Este aqui é pra com-ple-men-tar. MESMO.

  • Vamos falar sobre esportes – e sobre liberdade, of course!

    Postado em 3 de Discórdia de 3174 YOLD , às 6:69:29 Peterson Espaçoporto View Comments

    Hoje a aula de redação teve como tema uma dissertação sobre o esporte. Eu detesto dissertações, não por incapacidade de produzí-las, mas apenas porque são burocráticas demais. Isso irrita. É desconcertante ter que se preocupar em escrever até o último milímetro da linha (aposto que a professora vai descontar uns dois décimos por causa disso em algumas linhas de hoje), ou então de fazer um parágrafo com 5 ou 6 linhas, ou de colocar aquela “frase de conclusão” no começo do último parágrafo. É um saco.

    Mas, voltando ao esporte, acho-o uma coisa fantástica. Mais do que fantástica, ela é fundamental. Sob diversos aspectos. Afinal, todos sabem que fazer exercícios físicos ajuda o corpo e a mente, etc. É difícil arranjar um motivo qualquer pra dizer que o esporte é ruim – tirando o fanatismo, que é ruim em qualquer atividade humana – mas hoje já falei demais nisso lá, na aula, e quero mesmo é falar sobre outro benefício. Um benefício individual, pessoal, que se converte em benefício social.

    No post Contra a Punição, rebento meu dedicado ao Pensitivo (um dos melhores, creio eu), falta uma parte. Uma parte fundamental. A questão é que a falta de uma legislação apropriada pra punir infratores – e até mesmo a falta de uma legislação – só seriam possíveis em um outro cenário sócio-político, uma outra realidade que se caracterizaria por vários outros fatores, como por exemplo:

    - Um outro sistema monetário que não envolvesse o dinheiro (Entre outras coisas, a nossa civilização está tão focada na comercialização das coisas – ou nas coisas mesmo – que tudo se transforma em um produto, até coisas abstratas, e o dinheiro se torna o único meio para alcançar tudo que se deseja, fazendo dele um bem e um valor maior que qualquer outra coisa – quantos crimes de vários tipos não existiriam não fosse o dinheiro? Ou melhor, quantas pessoas não são mortas por causa de dinheiro?)

    - Um sistema de educação que ensinasse verdadeiramente alguma coisa (Um sistema educacional baseado na liberdade, na vontade, na reflexão e no pensamento crítico. Flexível e individual – sem deixar de oferecer opções para desenvolver o trabalho em grupo e a convivência. Além disso, prover muito mais do que uma escola, proporcionar um ambiente para o desenvolvimento emocional das crianças).

    - Uma cultura forte e verdadeiramente plural, muito acima das pluralidades vendidas e das identidades alugadas, que são antes roupas, que podem ser trocadas a qualquer instante, do que verdadeiras atitudes. Já disseram que apenas a arte salva. Não sei. Mas a arte é um tipo de expressão humana tão sublime que não deveria ser “solidificada”, nem mesmo vendida (da forma como é hoje).

    - E, além disso… Uma cultura de esporte! Sim, uma cultura focada no esporte em geral. Além dos benefícios da parte “exercício físico” do esporte, há também outras coisas positivas nele, como a interação social e a habilidade de trabalhar em equipe quando necessário, e principalmente a autodisciplina, autocontrole, autoconhecimento.

    A autodisciplina é fundamental pra uma sociedade sem punição. O conceito que sempre quiseram (tentaram, humpf) passar pra mim de autodisciplina pode ser resumido pela minha atual visão como o seguinte: disciplina é seguir regras impostas por outros. Autodisciplina é seguir regras impostas pelos outros, mas sem precisar que ninguém te vigie, afinal, você mesmo faz isso. Você conhece algum outro emprego da palavra “autodisciplina” por pessoas como coordenadores de colégios, pais e mães, etc? Não, né? Pois é.

    Deveríamos entender a autodisciplina, entretanto, como um exercício máximo da liberdade que legitima a falta de punição. A liberdade que alguém tem pra fazer as próprias regras, se policiar quanto a elas e ter liberdade para modificá-las. E essa modificação inclui as experiências pelas quais a pessoa passa, e talvez precisa passar (veja os comentários do post do Contra a Punição pra entender melhor essa última frase). O esporte fornece acima de tudo uma noção, aliada ao prazer, de que pra alcançar um objetivo é necessário seguir uma conduta de escolhas. Por isso ele é tão importante pras pessoas numa sociedade sem punição. Se a arte seria a parte “dionisíaca” de uma sociedade livre, o esporte seria a parte racional dela.

    P.S.: A parte “E sobre liberdade, of course” do título foi adicionada depois de acabar o post, porque achei que esse post é antes de mais nada uma extensão daquele do que alguma coisa sobre esportes.

  • Acerca da Crítica: educação financeira

    Postado em 57 de Caos de 3174 YOLD , às 5:78:36 Peterson Espaçoporto View Comments

    Um dia coloquei num post que um dia escreveria um livro: 1001 razões sobre o porquê da sociedade capitalista ser uma merda. Pois é. O livro não saiu, hehe, mas citei isso porque uma crítica de Luiz Carlos Prates no Jornal do Almoço dessa segunda-feira dia 18 de fevereiro me fez fazer diversas conexões acerca de algumas coisas que ocorrem no nossos sistema.

    Ele falava sobre a falta de educação financeira para os jovens, tanto por parte dos pais quanto por parte da escola. Ele falava o seguinte: a pessoa tem que ser ensinada a desde cedo a ganhar o salário, gastar com necessidades básicas, guardar um tanto, investir um outro tanto e, só depois, gastar uma parte do lucro. Na hora me veio à mente outro post que eu escrevi; oras, me desculpe, ele está certo, não? É isso que temos que fazer se quisermos cuidar do futuro. Cuidar do futuro e esquecer do presente! Já que, pra ele e pra muitos clarividentes do óbvio, as previdências sociais vão falir, então cuidemos do nosso futuro nós mesmos! Certo, muito certo, mas como eu já escrevi no post deste último link aí em cima, podemos cuidar do futuro, mas estamos substituindo o presente por ele. É um sacrifício que a sociedade da incerteza exige, e essa é uma boa razão pela qual a sociedade capitalista é uma merda. Não que uma sociedade de segurança plena seja um grande ideal de aventura, mas o sentimento de que a corda está no nosso pescoço tem conseqüências ruins, uma vez que ao invés de vivermos a vida tentamos a vida toda tirá-la do pescoço. É triste isso.

    E tem outra: se a educação financeira não faz parte do currículo dos ensinamentos paternos muito menos da escola seria por outra coisa se não a influência que a cultura de consumo tem em toda a sociedade? Se ensinássemos as pessoas a guardar, guardar e a investir, e não a comprar coisas no carnê das Casas Bahia até não poder mais (e sendo que o “até não poder mais” tornou-se um conceito bem relativo), o que seria do comércio, da roda de dinheiro que precisa girar pra manter a bunda dos que lucram bem aquecida?? Se não é por ignorância e incompetência que a educação financeira não é ensinada, é pela influência nefasta daquilo que precisa existir no sistema em que vivemos.

    Aí no final ele diz que quem não se preocupa com educação financeira são os “orgiáticos do cartão financeiro”. Sim, é verdade… Minha mãe ainda completa com a frase “É, eles podem gastar seeem medo!”. Aí a minha mente já sai da linearidade de raciocínio pra entrar num mar de conceitos que se interrelacionam… Medo, medo, pra quê medo? Viver assim com medo é um saco. Punição, deveríamos nós e eles sermos livres… Mas não, eles ocupam uma posição que nos obriga a ficar de olho neles, mesmo que a posição não tenha importância vital alguma para o bom funcionamento de uma sociedade que se preste. Se cada um cuidasse de si… Ai ai… Se cada um cuidasse de si.

  • Sim, mas a que custo?

    Postado em 70 de Burocracia de 3173 YOLD , às 7:16:34 Peterson Espaçoporto View Comments

    Um post do blog 1001 Gatos de Schrödinger questiona: “Qual é, para você, a melhor forma de governo (ou organização social)?”. Bom, é um post antigo, mas só dia 13 fui ver a resposta de Reverendo Johnny P:

    Democracia Parlamentarista de base Federalista na Política, com o governo federal cuidando apenas de Política Externa, Diplomacia, Segurança Nacional e outros assuntos Supra-Estatais. Economia de Mercado Livre, que apesar dos esperneios dos opositores, foi o que nos impulsionou até esse nivel tecnológico e científico.

    A minha pergunta foi: A que custo?

    O que me ocorre é que, de fato, o Mercado Livre nos impulsionou até o nível tecnológico e científico no qual hoje vivemos. Porém, contemple a sociedade de merda que temos. De que vale atingir tal nível tecnológico e científico, se ele está disponível para tão poucos, e dessa forma continuará por muito tempo enquanto o sistema não se modificar?

    —————-
    Now playing: James Blunt – High
    via FoxyTunes

  • Largue!

    Postado em 66 de Burocracia de 3173 YOLD , às 7:71:98 Peterson Espaçoporto View Comments

    “Com o fim do homem, haverá esperança para o gorila? Com o fim do gorila, haverá esperança para o homem?”

    O que é a civilização? Vivemos num modo de vida que funciona bem para apenas uma pequena parcela das pessoas. Acreditamos que não podemos fazer nada contra isso, que essa é a ordem natural das coisas. À nossa disposição estão inúmeros programas que jamais corrigirão o problema, porque eles apenas aliviam os efeitos, mas nos mantêm ocupados. Ver o homem como fundamentalmente falho e condenado à destruição é uma idéia verdadeiramente letal. Ficar neutro num trem acelerando para o desastre é suicídio. Este modo de vida suicida é o melhor que podemos fazer? Idéias se tornam insuperáveis só porque são antigas?

    É pegar ou largar… (Passagens dos livros de Daniel Quinn)

    Cativeiro

    PROFESSOR procura aluno. Deve ter um desejo sincero de salvar o mundo. Candidatar-se pessoalmente.

    — Entendo — disse eu. — E o que você ensina?
    Ismael selecionou um ramo novo da pilha à sua direita, examinou-o brevemente e começou a mordiscá-lo, olhando-me com languidez. Enfim respondeu:
    — Baseando-se em minha história, que assunto diria que estou mais preparado para ensinar?
    Olhei-o sem entender e respondi que não sabia.
    — Claro que sabe, Meu assunto é cativeiro.
    — Cativeiro?
    — Correto.
    Fiquei quieto por um minuto, depois disse:
    — Estou tentando imaginar o que isso tem a ver com salvar o mundo.
    Ismael pensou um pouco.
    — Dentre as pessoas de sua cultura, quais desejam destruir o mundo?
    — Quais desejam destruir o mundo? Até onde eu saiba, ninguém especificamente deseja destruir o mundo.
    — E no entanto o destroem, todos vocês. Cada um contribui diariamente para
    a destruição do mundo.
    — Sim, é verdade.
    — Por que não param?
    Encolhi os ombros.
    — Francamente, não sabemos como.
    — São cativos de um sistema civilizacional que mais ou menos os compele a prosseguir destruindo o mundo para continuarem vivendo.
    — Sim, é o que parece.
    — Portanto são cativos e tornaram o próprio mundo um cativeiro. É o que está em jogo, não é? O cativeiro de vocês e o cativeiro do mundo.
    Sim, é verdade. Mas nunca pensei dessa maneira.
    — Você mesmo é um cativo a seu modo, não é?
    — Como assim?
    Ismael sorriu, revelando uma grande massa de dentes brancos como o mármore. Até então eu não sabia que era capaz de sorrir.
    — Tenho a impressão de ser um cativo, mas não sei explicar por que tenho tal impressão — disse eu.
    — Anos atrás (você devia ser criança na época, talvez não se lembre), muitos jovens deste país tiveram a mesma impressão. Fizeram um esforço ingênuo e desorganizado de escapar do cativeiro, mas acabaram fracassando, porque não foram capazes de encontrar as grades da jaula. Se você não descobre o que o está prendendo, a vontade de sair logo se torna confusa e ineficaz.
    — Sim, é essa a sensação que me causou — disse eu, e Ismael assentiu. — Mas, outra vez, como isso está relacionado com salvar o mundo?
    — O mundo não sobreviverá por muito tempo no cativeiro da humanidade.
    Isso precisa de explicação?
    — Não. Pelo menos, não para mim.
    — Acho que existem muitos entre vocês que gostariam de libertar o mundo do cativeiro.
    — Concordo.
    O que os impede de fazê-lo?
    — Não sei.
    — Eis o que os impede: são incapazes de achar as grades da jaula.

    Daniel Quinn, Ismael.

    O Vazio da Pré-História

    Quando os pensadores basilares da nossa cultura consideraram o passado anterior ao surgimento do homem como agricultor, viram…Nada. Era o que esperavam ver, pois, tal como imaginaram, não poderiam existir pessoas antes da agricultura assim como o peixe não poderia existir antes da água. Para eles, estudar o homem pré-agrícola teria sido como estudar ninguém.

    Quando a existência do homem pré-agrícola passou a ser um fato inegável no século XIX, os pensadores da nossa cultura não se deram ao trabalho de alterar a sabedoria recebida dos antigos, de modo que estudar o homem pré-agrícola passou a ser sinônimo de estudar ninguém.

    Eles sabiam que não podiam escapar impunes dizendo que os povos pré-agrícolas não viveram na história, por isso disseram que viviam em algo chamado pré-história. Tenho certeza de que vocês entendem o que é pré-história. É mais ou menos como pré-água, e todos vocês sabem do que se trata, não sabem? Pré-água é o estudo da substância onde os peixes viviam antes de haver água, e pré-história é o período em que as pessoas viveram antes de haver história.

    Como observei muitas e muitas vezes, os pensadores basilares da nossa cultura imaginaram que o homem nasceu como agricultor e criador de civilização. Quando os pensadores do século XIX foram obrigados revisar esse pressuposto, fizeram-no da seguinte maneira: o homem talvez não tenha nascido como agricultor e criador de civilização, mas apesar disso nasceu para tornar-se agricultor e criador de civilização. Em outras palavras, o homem daquela ficção conhecida como pré-história atingiu nossa consciência cultural como uma espécie de desencadeador de um processo muito, muito lento, e a pré-história tornou-se uma seqüência de pessoas desencadeando um processo, lento, muito lento para se tornarem agricultores e criadores de civilização. Se vocês precisarem de um sinal que confirme o que estou dizendo, considerem a designação habitual dos povos pré-históricos como povos da “idade da pedra”: essa nomenclatura foi escolhida por pessoas que não duvidaram nem por um momento que as pedras eram importantes para esses nossos ancestrais patéticos da mesma forma que as prensas tipográficas e as locomotivas a vapor foram importantes para as pessoas que viveram no século XIX. Se vocês quiserem ter uma idéia da importância das pedras para os povos pré-históricos, visitem uma cultura moderna da “Idade da Pedra” na Nova Guiné ou no Brasil e vão ver que as pedras são tão cruciais para sua vida quanto a cola é para a nossa. Eles usam pedras o tempo todo, claro – assim como usamos cola o tempo todo -, mas chamá-los de povos da Idade da Pedra faz tanto sentido quanto nos chamar de povo da Idade da Cola.

    Daniel Quinn, História de B.

    O mito da Revolução Agrícola

    A terra como centro imóvel do universo foi uma idéia que as pessoas aceitaram durante milhares de anos. Em si, parece bem inofensiva, mas gerou mil erros e limitou o que poderíamos entender a respeito do universo. A idéia de Revolução Agrícola que aprendemos na escola e ensinamos aos nossos filhos na escola parece igualmente inofensiva , mas ela também gerou mil erros e limita o que podemos entender a respeito de nós mesmos e do que aconteceu com o planeta.

    Em poucas palavras: a idéia de Revolução Agrícola é que há cerca de dez mil anos as pessoas começaram a abandonar a vida de caça e coleta em favor da agricultura. Essa afirmação é um equívoco em dois planos profundamente importantes. Primeiro, ao sugerir que a agricultura é basicamente uma coisa só (assim como a caça-coleta é basicamente uma coisa só). Segundo, ao sugerir que essa única coisa foi adotada pelos povos do mundo inteiro mais ou menos na mesma época. Há tão pouca verdade nessa questão que não vale a pena perder tempo com ela; por isso só vou discutir a outra:

    Muitos sistemas de agricultura foram empregados em todo o mundo há dez mil anos, quando nosso sistema particular de agricultura surgiu no Oriente Próximo. Esse sistema, nosso sistema, é o que chamo de agricultura totalitária, a fim de enfatizar o modo pela qual subordina todas as formas de vida à produção incessante e exclusiva de alimento para os seres humanos. Alimentado por enormes excedentes de comida gerados unicamente por esses sistemas de agricultura, ocorreu um rápido aumento da população entre aqueles que a praticavam, seguido por uma expansão geográfica igualmente rápida que obliterou todos os outros estilos de vida que estavam em seu caminho (até mesmo aqueles baseados em outros sistemas de agricultura). Essa expansão e essa obliteração de estilos de vida continuam sem interrupções pelos milênios que se seguiram, acabando por chegar ao Novo Mundo no século XV e continuando até o presente momento em áreas remotas da África, Austrália, Nova guiné e América do Sul.

    Os pensadores basilares da nossa cultura acharam que o que nós fazemos é o que os povos de todos os outros lugares têm feito desde o início dos tempos. E, quando os pensadores do século XIX foram obrigados a reconhecer que não era bem isso, acharam então que o que nós fazemos é o que os povos do todos os lugares têm feito durante os últimos dez mil anos. Teria sido muito fácil para eles conseguir informações acuradas, mas é obvio que acharam que não valia a pena perder tempo com isso.

    Daniel Quinn, História de B.

    Trechos diversos:

    “As pessoas de sua cultura se agarram com uma tenacidade fanática à idéia de que o homem é especial. Querem desesperadamente perceber um imenso abismo entre o homem e o resto da criação. Essa mitologia da superioridade humana justifica que façam o que bem quiserem com o mundo, assim como a mitologia de Hitler sobre a superioridade ariana justificou que fizesse o que bem quisesse com a Europa. Mas essa mitologia não é muito satisfatória, afinal. Os Pegadores são um povo profundamente solitário. O mundo, para eles, é um território inimigo, e vivem em todos os lugares como um exército de ocupação, alienados e isolados por serem tão extraordinários e superiores.” – Daniel Quinn, Ismael.

    “A história que os Largadores vêm encenando durante os últimos três milhões de anos não é uma fábula de domínio e conquista. Encená-la não lhes deu poder. Encená-la lhes deu vidas satisfatórias e significativas. É o que verá se conviver com eles. Não estão agitados pelo tédio e a revolta, não estão perenemente debatendo o que deveria ser permitido ou proibido, nem se acusam uns aos outros por não viverem de modo correto, nem sentem pavor de seu vizinho, nem enlouquecem porque suas vidas parecem vazias e sem sentido, nem precisam se estupidificar com drogas para suportar os dias, nem inventam uma nova religião a cada semana para terem algo a que se agarrar, nem estão sempre buscando algo para fazer ou em que acreditar que torne suas vidas dignas de serem vividas. E, mais uma vez, isto não é porque vivem perto da natureza ou porque não têm governos formais ou porque sua nobreza é inata. É assim apenas porque estão encenando uma história que dá certo para as pessoas, uma história que deu certo durante três milhões de anos e que continua dando certo onde os Pegadores ainda não conseguiram espezinhá-la.” – Daniel Quinn, Meu Ismael.

    “Não são os produtos que fazem com que a economia tribal funcione e sim a energia humana. Essa é a transação fundamental, que ocorre tão naturalmente que as pessoas se equivocam freqüentemente pensando que não existe nenhuma economia, assim como supõem, equivocadamente, que elas não têm nenhum sistema educacional. Vocês fazem e vendem centenas de milhões de produtos a cada ano para construir, equipar e contratar pessoas para trabalhar nas escolas e educar seus filhos. Os povos tribais atingem o mesmo objetivo, graças a um nível menor, porém constante, de troca de energia entre adultos e crianças, que mal é percebida. Vocês fazem e vendem centenas de milhões de produtos a cada ano para poder contratar policiais para manter a lei e a ordem. Os povos tribais atingem os mesmos objetivos fazendo isso eles mesmos. Manter a lei e a ordem não é uma tarefa agradável, mas isso não chega a tirar o sono deles, como ocorre com vocês. Vocês fazem e vendem trilhões de produtos a cada ano para manter governos incrivelmente ineficientes, como você bem sabe. Os povos tribais conseguem se autogovernar com eficiência, sem comprar nem vender nada. Um sistema baseado na troca de produtos inevitavelmente canaliza a riqueza para as mãos de poucos, e nenhuma mudança governamental será capaz de corrigir isso. Não tem nada a ver com o capitalismo especificamente. O capitalismo foi apenas a expressão mais recente de uma idéia que surgiu há dez mil anos com a fundação da sua cultura. Os revolucionários do comunismo internacional não se aprofundaram suficientemente para realizar as mudanças que sonhavam. Eles pensaram que poderiam parar o carrossel se capturassem todos os cavalos. Mas, claro, os cavalos não faziam o carrossel girar. Os cavalos eram apenas passageiros, como todos vocês.” – Daniel Quinn, Além da civilização.

    “As pessoas não podem simplesmente desistir de uma estória. Isto é o que os garotos e garotas tentaram fazer nos anos sessenta e setenta. Eles tentaram parar de viver como os dominadores, mas não havia outra maneira para se viver. Eles falharam porque não se pode simplesmente sair de uma estória, tem que haver outra estória para se estar. E se houvesse outra estória, as pessoas iriam ouvir sobre ela? Você acha que elas querem ouvir sobre ela? Eu não sei, acho que não se pode começar a querer algo até você saber que existe.” – Daniel Quinn, Ismael.

    O que fazer?

    Se você está realmente interessado numa nova visão para a cultura, então há muito que aprender, discutir e criar. Leia os textos e veja os links nesse site para mais informações. Se você leu Daniel Quinn e quer encontrar outros leitores, entre para o grupo Uma Nova Cultura ou Anti-civilização, e exponha sua opinião. Estejam avisados que nossas idéias não tem nada a ver com as propostas da “Nova Era”. Não gostamos de auto-ajuda, teorias da conspiração, esoterismo ou seitas.

    Retirado daqui.