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O Mundo, a Realidade, a Física, a Importância da Ciência
Postado em 72 de Pós-matemática de 3175 YOLD , às 9:38:74 View CommentsOntem, enquanto jogávamos sinuca e comíamos batata frita, eu e o Tiago (@tmadeira) tínhamos uma animada conversa sobre física moderna e outras coisas. Um pouco antes de dizer que eu era esquizofrênico e que o mundo todo era uma invenção minha – inclusive ele mesmo – ocorreram alguns pontos interessantes na conversa. Por exemplo:
Ato 1
- Cara, quando eu disse que a relatividade fazia sentido na minha cabeça, embora eu não conseguisse explicá-la, eu pensei em uma frase que ouvi que meio que ajuda… A gente tá sempre olhando pro passado
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Me referi ao fato de que a luz demora pra chegar do objeto – qualquer um – até os nossos olhos. Ou seja, por menor que seja o tempo, ainda assim, há um tempo.
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- Ah, sim, mas cara, tudo pode ser uma memória
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O que evoluiria para, mais tarde, a esquizofrenia
Ato 2
- Então, eu tava conversando com esse administrador de empresas e tal… E o cara acredita na física. E eu tava dizendo pra ele que acreditar na física é como uma religião, tem gente que acredita em Jesus, tem os discordianos que acreditam numa deusa gostosa…
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E aqui ele parou pra ressaltar que o cara nem sequer perguntou sobre o discordianismo. Mesmo ouvindo claramente “deusa gostosa”.
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… E o cara acredita na física.
- Tá, mas mais ou menos a discussão era sobre o quê? (Não consigo mais lembrar minha pergunta, e não, eu não estava bêbado)
- O cara basicamente acredita em estatística. Se eu jogar esse papelzinho aqui (ele pegou um guardanapo que tava em cima da mesa) eu vejo ele cair. Só porque o cara viu ele cair 100% das vezes ele acredita que toda vez que ele jogar esse papelzinho ele vai cair. Eu já acredito que ele possa sair voando ou explodir, por exemplo.
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Isso tem bastante a ver com Hume.
Ato 3
- Mas cara, é claro que a física faz sentido, desde que você assuma algumas coisas como verdadeiras…
- Então, mas eu posso pegar isso aqui (ele pegou uma bola de outra cor, que não o vermelho, da mesa de sinuca) e dizer que é vermelha, e então fazer toda uma teoria em cima disso. Ou então eu posso criar um teoria algébrica e dizer que 1 + 1 é 7 e montar uma teoria em cima disso
- Ué, pode, claro. São como regras de um jogo, cara.
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Empirismo
Ok, a grande jogada aqui é o seguinte: o discordianismo admite como verdadeiras e falsas todas as proposições, ou seja, é um relativismo absoluto de ideias. Não é possível deixar de fora do rolo a ciência, até porque a ciência é feita de erros – ou seja, se na época do aristóteles acreditavam em algo, na época de galileu não se acreditava mais, e assim no futuro acreditaremos em outra coisa, e por aí vai. Ou seja, não há nada de contraditório no mantra discordiano em relação à ciência. Talvez apenas em relação ao que a ciência esteja se tornando, mas isso é pra depois.
Isso nos leva ao definitivamente não novo dilema sobre o que é o real. Será que o que sentimos, os dados que temos através de nossa sensibilidade, seriam eles confiáveis? Será que essa é a realidade ou é tudo uma ilusão? O Empirismo, aquela corrente filosófica, dizia que sim. Mas, na verdade, acho que a visão mais próxima do que a ciência nos oferece é um “tanto faz”. Tanto faz expresso pelo desprezo que vi uma vez nas palavras do André, o blogueiro do ceticismo.net, que disse algo na linha de “os filósofos não servem pra nada”. Veja bem, não estou condenando essa opinião ao expor o nome de quem, se bem me recordo, disse isso. Apesar de algumas divergências quanto aos meios, admiro o André – long time no see, por falar nisso =) – e entendo o que ele quis dizer.
Ele quis dizer que tanto faz se o que vemos é real ou não. Isso é o que nós temos à nossa disposição. Se nós estivermos presos a essa ilusão, então a ciência trata do que sabemos a respeito de nossa ilusão. Se há algo além disso nós simplesmente não podemos alcançar aquilo que está lá, então tanto faz ficar pensando no que há lá, e se há algo lá.
Mas aí a coisa começa a ficar espinhosa. Será que não podemos saber o que há “lá”, se houver um lá? Para Huxley, por exemplo, o cérebro é um órgão “filtrador”, que existe selecionando os dados que recebemos através dos sentidos porque se recebêssemos tudo que poderíamos receber seria muita informação, e não teríamos capacidade de lidar com elas. Pra ela, as drogas serviriam como um meio de fazer o cérebro baixar a guarda e receber mais informação. Em seu livro “As Portas da Percepção”, ele descreve sua experiência com a mescalina. Eu descrevi minha experiência com esse livro aqui e aqui.
Poder-se ia argumentar, é claro, que talvez o cérebro tenha se tornado um membro filtrador através da evolução. Tínhamos dois humanos, um com um cérebro mais filtrador que o outro; por não receber tanta informação, o que filtrava mais passou seus genes adiante e blábláblá. O que isso muda em relação à teoria anterior? Que o cérebro se torna um órgão limitado por causa de sua essência, não por causa de seu funcionamento. Ele é assim agora; só é limitado se compararmos com algo que ele poderia ser. Nada pode fazer ele expandir essa capacidade dele.
Então o que a ciência é, na verdade? Ela é, como Tiago, disse, uma crença na estatística, uma aposta. Ela, na verdade, não é um corpo de conhecimento fixo que diz o que é verdadeiro e o que não é, e sim um corpo de modelos que descrevem a realidade – ou melhor, aquilo que podemos sentir – da melhor forma possível. Isso quem diz não sou eu, mas sim Kuhn, no livro “Estrutura das Revoluções Científicas”. A ciência é uma bagunça. Sempre o que sobra historicamente é algo muito bem organizado – primeiro veio tal pessoa e falou tal coisa, daí depois veio outra e tudo mudou – mas na verdade várias coisas acontecem ao mesmo tempo, se contradizendo, e a ciência vai progredindo aos trancos e barrancos. A ciência progride quando modelos antigos não conseguem explicar mais alguma coisa que vemos acontecer nessa nossa realidade que podemos sentir.
A racionalidade do homem o leva a construir modelos de realidade porque entender o funcionamento do mundo significa poder manipulá-lo. Da mesma forma que saber que (provavelmente) vai chover faz com que você bote um guarda-chuva na mochila, saber que com um metal afiado você corta madeira faz com que você possa manipular a madeira e transformá-la em algo mais útil. Então o homem, pra que comece a fazer ciência, tem que tomar certa coisas como verdadeiras.
1 – Na natureza existem algumas formas de interação entre as coisas, e é possível descrever essas interações resumindo-as a um conjunto de interações comuns – por exemplo, não é preciso dizer que uma pedra cai quando se joga ela pra cima, uma outra também cai, uma folha também cai – é só dizer que tudo cai de uma vez. É uma interação comum.
2 – Essas formas de interação são constantes, e não vão mudar.
E por aí vai.
Essas deduções são fruto de nosso costume? Sim. Isso prova que elas Existem, com E maiúsculo, ou que vão ser sempre assim? Não, claro que não. Não prova. Por outro lado, pensando de forma estatística: 100% das vezes em que você viu o papel ser levantado, ele caiu. Se fosse pra fazer uma aposta, apostaria que ele vai cair ou que vai sair voando sem vento nem nenhuma outra força? Ou melhor, baseado naquilo que você viu, como você descreveria, de maneira geral, o que acontece?
Então a ciência é na verdade esse conjunto de apostas, em que se vai assumindo uma verdade em cima da outra pra construir um modelo de realidade que funcione razoavelmente bem, então você pode confiar nisso e manipular a realidade a níveis cada vez mais profundos e precisos… E então, quando algo dá errado na manipulação que se deseja fazer, é porque alguma verdade que foi assumida como tal anteriormente deve ser revista.
A questão é que o bom da ciência não está naquilo que ela diz ser verdadeiro ou naquilo que é capaz de fazer, mas sim na humildade implícita que faz parte do seu mecanismo. O mais importante da ciência não é o que ela construiu ou o que ela proporcionou ao saber humano, mas sim o método usado pra fazer tudo isso. O método científico traz como core features o ceticismo, a noção de que os humanos são imperfeitos e que também tem emoções, sentimentos, ideologias, tendências que influenciam enormemente as conclusões que são tiradas de um experimento, e por aí vai. A ciência não é aquela que pretende fazer da razão a máquina que vai processar os dados dos sentidos e transformar numa foto perfeita da realidade. O método científico, pelo contrário, é aquele que reconhece quão falhos podem ser a razão e os sentidos, mas também sabem que em se tratando da realidade física, é o melhor que temos à nossa disposição se quisermos manipulá-la. Aliás, isso é tão Carl Sagan!! Vela na escuridão e etc.
Essa discussão poderia se ramificar, a cada parágrafo desse texto, para outras tantas. Por exemplo, se a ciência é assim pessimista quanto a nossos sentimentos – reconhecendo que o homem é um bicho desgraçado que, se não for acostumado a interpretar a realidade de maneira fria, vai acabar sendo tendencioso de forma a achar que de repente um ser bondoso existe no céu e cuida de nós e coisas assim – não seria possível, de modo recursivo, dizer que a ciência é na verdade justamente consequência de tal pessimismo e que é uma armadilha boa demais pra ser verdade? “Mas ela já desfez tantas de nossas crenças!”, diria um, mas, diria outro, ela serve justamente porque outra coisa seria muito pior! E por aí vai.
De qualquer forma, fica aqui minha consideração sobre a superioridade da crença na ciência acima de, pelo menos, outras que são mais monolíticas e monopolistas em relação à “Verdade”. É a geradora do método de pensamento que tem como princípio que pode estar errado e ser tendencioso, por isso pensar de determinada maneira requer cautela. E deixo também esse link pro post Citrus, que é sobre isso.
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Isaac Asimov
Postado em 57 de Pós-matemática de 3174 YOLD , às 0:64:03 View CommentsIsaac Asimov foi um escritor e professor de bioquímica norte-americano, porém nascido na Rússia. Não é apenas conhecido pela ficção científica que escreveu mas também pelos livros populares de ciência. Ele foi um dos escritores mais prolíficos de todos os tempos, tendo escrito mais de 500 livros e mais ou menos 9000 cartas e postcards. Asimov foi membro e vice-presidente da Mensa Internacional (sociedade que aceita apenas as pessoas com altíssimo QI) – embora gostasse mesmo era de ser presidente da Associação Humanista Americana.
Asimov era humanista e racionalista. Ele era ateu, mas ele não gostava do termo – achava que “humanista” descrevia de um jeito melhor suas crenças. Asimov também fez parte do partido democrata e era feminista, pelo jeito, antes mesmo do movimento estourar pelos Estados Unidos. Também defendia o homossexualismo e qualquer outra prática sexual entre adultos (com consentimento) tendo ou não fins reprodutivos, i.e se eles gostam, por que seria moralmente errado? Pouquinho antes de morrer, falou até mesmo de aquecimento global e da camada de ozônio.
Robotics – ou, em português, robótica. Uma palavra extremamente comum – inventada por ele. Não apenas essa, como também “positrônico”.
Críticas
Interessante ver como Asimov, considerado um dos mestres da literatura de ficção científica, recebe ao mesmo tempo grandes críticas. James Gunn escreve sobre “Eu, Robô”, por exemplo, que há pouquíssima preocupação em descrever lugares, ou seja, os cenários pouco importam. Aliás, não apenas em questão de cenários como também sobre ação. Os personagens não fazem nada, só falam… Bom, isso segundo ele (que também diz que existem no livro as exceções Liar! e Evidence)
Apesar do feminismo, ele foi criticado também por não ter personagens femininos fortes em seus livros. Ele reconheceu isso e disse que foi por inexperiência. Críticas ocorrem também por causa de seu estilo de estrutura narrativa, que faz da linha do tempo um desses emaranhados que ocorre com as tomadas e cabos de vídeo / áudio atrás das estantes de salas que tem TV, DVD, Home Theater e as desgraças todas.
Uma crítica curiosa nos livros dele foi a falta de sexo e alienígenas nos livros dele. Ele explicou uma vez que quando tentou escrever sobre alienígenas (bem no começo da carreira) o editor dele não gostou muito porque os aliens eram escritos como sendo superiores aos humanos. Então ele decidiu não escrever mais nada sobre aliens… Só que as reclamações encheram-no tanto que ele resolveu atender aos “pedidos” de uma tacada só: no livro “The Gods Themselves” tem alienígenas, sexo e… Sexo entre alienígenas.
As três leis da robótica
Isaac também é muito conhecido pelas chamadas três leis da robótica, que apareceram pela primeira vez em “Eu, Robô”. São elas:
#1: Um robô não pode causar dano a um humano ou, através de inação, permitir que um dano seja causado a um humano.
#2: Um robô deve obedecer as ordens dadas a ele por humanos, exceto quando as ordens contrariam a primeira lei.
#3: Um robô deve proteger a sua própria existência a não ser que ela entre em conflito com a primeira ou a segunda lei.Essas leis, entretanto, não foram exatamente imutáveis ao longo dos anos. Uma pequena modificação foi feita, por exemplo, na história “Little Lost Robot”. Na história, os robôs trabalhavam ao lado de humanos, e todos eram expostos a uma pequena dose de radiação prejudicial. Por tanto, para que pudessem trabalhar, foram programados apenas com a primeira parte da primeira lei: “Um robô não pode causar dano a um humano”.
Outra lei adicionada pelo próprio Asimov em outros trabalhos foi a chamada “Lei de Zeroth”. Ela diz que um robô não pode agir meramente em prol do interesse de um humano, mas de toda a humanidade. Mas será que há algum algoritmo simples pra esse discernimento? Para o robô Giskard, que é telepata, não foi…
Outra curiosidade é que existe a quarta e a quinta lei da robótica, embora essas não foram feitas por Asimov. A quarta regra é “Um robô precisa estabelecer sua identidade como robô em todas as circunstâncias” – muito útil, afinal você não quer bolar as trocas e falar com um robô achando que é um humano, não é mesmo? – e a quinta é “um robô precisa saber que é um robô” – o que não é de todo ruim. Na história em que a lei foi concebida, um robô passa por cima das leis que deveriam governá-lo porque… Não sabia que era um robô.
Asimov foi um escritor que me parece muito talentoso e criativo. Liberal e muito inteligente, ele odiava ver o seu nome escrito errado e tinha medo de altura. John Jenkins uma vez observou: é dito que a maioria dos escritores de ficção científica desde os anos 50 foram afetados por Asimov, seja apostando no seu estilo ou evitando qualquer coisa parecida com seu estilo.
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Coisas que ninguém fala sobre células-tronco
Postado em 25 de Discórdia de 3174 YOLD , às 7:11:37 View CommentsPor que, num debate contra religiosos sobre pesquisas com células-tronco embrionárias, as pessoas não perguntam: “pra onde vai, segundo o mindset de vocês, o embrião morto? Pro céu ou pro inferno? Por quê?
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O meu medo, um medo devereas bem recente, é verdade, é o de as pesquisas trazerem os milagres para a espécie humana. A ausência de milagres é uma condição fundamental para o funcionamento da vida filosófica humana, principalmente a dos não-filósofos… Tanto a aceitação das adversidades quanto a batalha contra elas precisa de discernimento; demanda uma análise razoável da realidade que só pode ser feita num cenário estável – não importa se verdadeiro ou falso, mas pelo menos estável. Os milagres não só bagunçam o meio-de-campo; eles terminam o jogo.
E o que eu penso é que essas coisas que antes eram irreversíveis agora vão ser curadas, e isso é bom – mas ao mesmo tempo dar-se-á menos importância para essas coisas irreversíveis. Mas, essa é a idéia, não? O espírito do jogo. A ciência e a tecnologia progridem; quando curaram a tuberculose, fizeram a mesma coisa, e hoje em dia ninguém banalizou a tuberculose. Enfim, as ciências seguem seu curso. Para o bem e para o mal, whatever that means.
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Intenção ruim: a punição seria válida?
Postado em 16 de Discórdia de 3174 YOLD , às 6:07:66 View CommentsEu falei pra poucas pessoas sobre minha teoria contra a punição. Pra mim, ela está bem consolidada, mas eu ainda preciso amadurecê-la um pouco mais e até me preparar para defendê-la para outras pessoas, porque ela é muito ousada, eu diria. Digo, falei pra pouco, mas ela está lá, no Pensitivo!, apesar das estatísticas mostrarem que continuam sendo poucos mesmo.
De qualquer forma, quando vejo uma notícia como essa, vejo nela uma ótima oportunidade de colocar a mim e a minha idéia contra a parede. Eu sinto que muitas pessoas ainda vão me dizer “mas você acha que deveríamos deixar esses estupradores soltos?”. E o que eu responderia?
Minha teoria apunitiva funciona, e tem o intuito de funcionar, nos casos onde as pessoas são prejudicadas pelos “respingos” da atitude de outras. Temos uma vida muito dependente dos outros, ao invés do contrário, e quanto mais nos colocamos como dependentes dos outros mais nossos atos têm que ser vistos em função do outro, e mais os outros tendem a ter uma relação de dominação em relação a nós – já que de nós depende muita coisa do outro. Quanto maior a dependência, mais motivos insinceros existirão para que existam relações. A comunicação só pode existir entre iguais. Portanto, quanto mais independentes formos de fatores externos, mais nossas relações serão verdadeiras. Um motivo forte que me faz ser contra a autoridade, a dependência individual e social e o dinheiro, principalmente o dinheiro.
Essa independência que possibilita liberdade de movimentos é difícil justamente porque temos uma cultura de dependência, uma cultura de bom e mau que nos faz gostar de pessoas constantes, servis e/ou solícitas e também que sempre nos consideram e não fariam nada que nos prejudicasse. Uma visão muita boa pra quem não é prejudicado, mas a outra pessoa não tem liberdade alguma. Quem busca a liberdade é considerado mau, estranho, etc.
Mas, saindo do escopo das conseqüências dos atos voltados para o próprio executor ou para outros (ou seja, quando a pessoa faz algo para benefício próprio ou para outras pessoas e infelizmente isso acaba influenciando negativamente alguém), podemos entrar no escopo das conseqüências premeditadas, ou seja, quando há a intenção de machucar, de fazer mal, de ferir.
A falta de punição serviria também como chave perfeita para a caixa de pandora, fazendo com que muitas pessoas fizessem coisas com o intuito de prejudicar outras.
Primeiro, devemos nos lembrar que a falta de punição é uma condição para a liberdade, não uma lei. Não oficialmente e necessariamente punir – isso não significa ser proibido de punir. Apenas devolvemos à esfera individual o discernimento sobre punições. O que faria muitas pessoas não fazerem algo de ruim contra outras pessoas intencionalmente é que, se não há mais punição regulamentada, também não há garantia de que a pessoa a qual ela quer fazer mal não se vingue contra ela ou não se defenda de maneira diametralmente violenta. Em outras palavras, não há Estado para punir. Mas também não há Estado para proteger.
Segundo, eu falei uma vez que para uma sociedade atingir a maturidade necessária para abolir a punição. Então: isso significa mudar toda uma cultura, toda uma mentalidade que propicia o surgimento de pessoas que querem fazer mal às outras. Eu não tenho grandes ilusões: as atitudes genuinamente mal-intencionadas jamais deixarão de existir. Não tenho esperanças quanto a isso. Mas tenho uma noção de que a nossa sociedade favorece muito mais o surgimento desse tipo de atitude. Atitudes mal-intencionadas existem, e saber lidar com isso e se defender, lutar contra isso da mesma forma que se luta contra as adversidades, faz parte da vida. E o que podemos fazer é criar uma cultura em que as pessoas não só tenham mais coragem de lutar contra elas como também mais pessoas tenham noção sobre essas atitudes. Se elas fizerem algo, que tenham ciência do que fazem e escolham fazer isso, porque o terrível é saber que há pessoas que sequer decidiram por isso, apenas fazem mal por fazer, por adaptação ao ambiente hostil em que vivem, talvez, ou da maneira hostil como vêem o mundo – resultado, pode apostar, de uma forte noção punitiva durante infância e adolescência. Pode apostar.
Terceiro: já que devolvemos a punição à esfera individual, vamos pensar individualmente: a punição contra atitudes realmente mal-intencionadas é a de um tipo diferente, talvez mais válido. Afinal, o impacto que a abolição da punição tem em nossa vida é sempre nos perguntar: “Será que é certo que eu queira fazer mal àquela pessoa por que o que ela fez acabou de alguma forma me prejudicando? Não deveria eu tentar me adaptar a isso, ou então tentar modificar isso de alguma forma, aproveitar isso, ou conversar com ela pra que possamos chegar a algum acordo?”. Mas que acordo se pode fazer com alguém que faz algo com intenção de te prejudicar, com vontade de te fazer mal? Se no primeiro caso a batalha da vida se desenrola contra adversidades sem rosto, no segundo caso o inimigo não é o acaso, que costuma dar as cartas, mas sim alguém, uma pessoa de carne e osso, e que portanto merece ser combatida como as conseqüências das atitudes dos outros: da forma como a pessoa desejar combatê-la.
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Livros e Identidade
Postado em 11 de Discórdia de 3174 YOLD , às 5:49:71 View CommentsUm escritor deveria saber que sempre que está segurando um livro de sua autoria, está segurando o detonador de uma bomba. Quem sabe o “estrago” que o seu livro pode causar em alguém? Livros ficcionais não formam explicitamente um manual de conduta na vida, mas um livro já tem um final definido – já está escrito – e portanto tem-se a sensação de que, o que quer que aconteça com os personagens, aconteceu por causa do destino. Ou, como preferir, numa explanação menos fantasiosa, o escritor quer passar uma mensagem de conduta moral com um livro, sempre quer, porque quando ele pune alguém no final está obviamente declarando ao leitor, o leitor percebendo ou não (não importa), que ele desaprova tal atitude ou aprova tal atitude. E assim as pessoas vão formando uma “identidade”. O que, pros padrões atuais, é uma coisa bem descartável até.
Aí temos dois problemas: em primeiro lugar, o escritor não pode ser irresponsável com sua bomba caseira. Não, não, não que ele não deva usá-la. Tem que usar com responsabilidade. Tem que colocar os materiais certos. E no lugar certo.
E depois, precisamos de leitores mais inteligentes. Arte não é questão de consciência – a ciência dos “processos que ocorrem no ser enquanto ele se regozija com uma obra de arte” destrói a arte – mas é muito interessante que, pelo menos depois que as pessoas terminam de ler um livro, que elas pensem um pouco em si mesmas, no livro, em toda a vida sob uma nova ótica. Faz bem, e não deixa as pessoas se machucarem tanto quando a bomba explode.
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