E também o assassinato de outros deuses
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  • O monopólio do amor

    Postado em 32 de Pós-matemática de 3174 YOLD , às 8:42:44 Peterson Espaçoporto View Comments

    Eu não entendia quando Hakim Bey dizia que a organização familiar era um micromonopólio do amor ou coisa assim. Agora entendo perfeitamente.

    Pessoas deixando de fazer coisas, pessoas tendo cautela com o que dizem ou sentem ou whatever. Isso é um respeito não criado por respeito, mas sim oriundo de uma vontade pantagruélica (adorei essa palavra desde que a li no EQM) de ENGOLIR a outra pessoa. Algumas viram serial killers e o fazem literalmente. Outras não tem a coragem necessária pra assumir essa neurose sentimental, esse possessivismo (?) louco que só significa isso mesmo.

    Se todo esse sentimento pudesse ser uma linha de texto que seja, uma “fala” só no grane script das coisas, ela seria

    EEEEEEEEEEEEEEEUUUUUUUUUUU… UUUUUUUAAAAAAAAHHHHHHRRRRRRRRRR!!!!!!!!!!!!!!!! GRRRRRRRRRRRR!!!!!!!!!!! MEEEEEEEEEEEEEEEEEEUUUUUUUUU!!!!!! (ou MIIIIIIIIIIIINHHHHHHAAAAAAAA!!!!!!!!!!!).

    Seria o verdadeiro espetáculo das cavernas traduzido de forma polida. São as fotos jogadas fora. São os pedidos pra sair. Não, não, não é questão de respeito. O respeito à liberdade vai pra puta que pariu quando esse respeito entra em campo, que impressionante. Por que as pessoas se sujeitam a isso? I mean, é triste (agora) reconhecer que cada um ame de um jeito e declarar que isso não é amor é cair na velha ilusão que reconheci ser ilusão. Então que cada um permaneça assim. Apenas me pergunto se isso é produto de uma cultura. Me pergunto até que ponto isso não poderia ter sido evitado. Não excluído, extinto, pff, mas quero dizer, até que ponto isso é mesmo um jeito tão comum e não apenas uma interpretação extremista de um sentimento em função de uma realidade social? Sei lá. Sei que é um espetáculo depressivo.

  • Não é o comunismo, Henrique!

    Postado em 24 de Discórdia de 3174 YOLD , às 6:16:40 Peterson Espaçoporto View Comments

    Henrique Wint, do excelente blog 21 Horas, que sempre nos visita, comentou certa vez que o responsável pelo feminismo foi o comunismo. Eu concordei; afinal, a luta por direitos iguais é uma forte marca do comunismo.

    Entretanto meu professor de geografia nos forneceu uma outra visão das coisas: na verdade o capitalismo foi responsável por fazer a idéia do feminismo vingar e crescer. Porque veja, o capitalismo quer que a mulher trabalhe / produza e consuma como um homem, pois assim a economia aquece mais.

    E não pense que isso é bom: desconsiderando os aspectos econômicos da coisa (que, ah, provavelmente devem ser ótimos…) , isso não apenas diminui a taxa de fecundidade (uma coisa, digamos, neutra), mas faz com que os filhos dessa geração cresçam com os pais distantes e ocupados, sendo “criados” (odeio essa palavra nesse sentido) muitas vezes pela avó, tia, empregada, etc.

    E essa parte, essa parte é ruim. Essa parte é péssima. Esse é o tipo ruim de independência infantil, aquele no qual a criança acaba “aprendendo a se virar sozinha”, mas também acaba se frustrando sentimentalmente, criando uma visão de mundo balançada para os dois lados do pêndulo social: a distância melancólica ou a expressão agressiva… A criança se frustra dessa forma, se machuca interiormente.

    Além do lado dos filhos, pensemos também no homem e na mulher. Eu sou pessoalmente contra o casamento por um leque de motivos; o fato de que casamentos acabam é só um deles, de menor importância. Mas por que acabam? Um dos motivos, para o professor, é que há atualmente competição dentro do casal, e não cooperação. E isso, ao contrário do que afirma Adam Smith, é ruim, não é? Ou…? … Não? …?  …!

    Agora analisemos só a mulher, individualmente, não em relação a um contexto.

    A gigantesca maioria dos filósofos sistemáticos, ao longo da história do pensamento, procurou diferenciar o homem da mulher, e dizer, afinal, qual era a “natureza” inerente aos sexos.

    O problema é que toda diferenciação sempre ocorreu de forma qualitativa e não igualitária. Ou seja, para justificar uma freqüente opressão masculina ou simplesmente porque a cultura já estava cheia de idéias desse tipo, todos os filósofos buscaram meios de explicar a superioridade masculina.

    A situação mudou no século passado com a feminista (e comunista – aqui você acertou, Henrique) Simone de Beauvoir, que, de tanto acreditar que a existência precede a essência, acreditou que não existem diferenças entre homens e mulheres, e que estas podiam fazer tudo que aqueles podiam fazer, e melhor até, se duvidar…

    Com a ascenção da psicologia evolutiva, sabemos que não é bem assim. Os seres humanos, únicos animais capazes de se rebelarem contra suas tendências genéticas, ainda assim possuem tais tendências, e negar sua existência é negar boa parte do que sabemos cientificamente sobre nós mesmos.

    Homens e mulheres são diferentes, é impossível negar essas diferenças. Entretanto, essas diferenças são apenas diferenças, não há vantagens nem desvantagens que desequilibrem esse jogo. A necessidade que tivemos foi de alguém que dissesse que era possível ser diferente. Possível, não necessário! Porque se for pra mulher continuar a cuidar da casa e dos filhos, que isso seja uma opção, e não uma obrigação.

    A mulher hoje em dia se vê obrigada a fazer justamente o contrário: é uma obrigação trabalhar. Ser bem-sucedida profissionalmente, “independente”, seja lá que diabos de conceito o capitalismo inventou pra isso, fazer pós-graduação, ter um carro próprio e tudo o mais. O capitalismo idealiza nos nossos tempos um ser humano provavelmente hermafrodita, que tem uma história a fazer, um caminho a trilhar, sonhos a perseguir; mas dentre esses sonhos incluem-se altos pagamentos, bens em quantidade e qualidade, uma boa aparência, enfim, talvez tudo isso (até mesmo em parte o terceiro item) possa ser convertido naquela água do mar bem conhecida: o dinheiro. Essas são características que não pertencem integralmente a nenhum dos sexos. E são as metas pessoais do nosso séculos; metas assexuais (no sentido de gêneros da palavra, é claro, hehe).

    Mesmo que o feminismo tenha feito as mulheres se engajarem em uma luta idiota (e por vezes prejudicial a si mesmas) para provarem que são melhores que os homens, uma ótima coisa ela fez: gritar pela liberdade. Berrar pra quem quiser ouvir e quem não quiser também que sim, é possível ser diferente. É possível se transformar, é possível ser mais do que o básico, exceder nossos limites, nos superar.

    Meu professor comentou que o problema do capitalismo é que ela não deixa que sejamos humanos e sigamos nossos instintos animais; entretanto, esse ponto de vista serve exclusivamente pra questão do feminismo, porque em todo outro caso, a natureza humana é o que mais se explora no capitalismo. O capitalismo não deixa que sejamos mais: ele explora e faz desenvolver o pior lado de cada pessoa, se aproveita de cada fraqueza, de cada propensão ao vício, de cada centelha de ignorância e acomodação do ser humano. E a questão do feminismo foi mais uma boa idéia corrompida pelo mercantilismo moderno.

    O capitaismo é uma florsta de terno e gravata. Estamos sujeitos à mesma realidade animal de sempre, só que o homem é que é o lobo do homem. Axl disse tudo: Welcome to the jungle, baby.

  • Um Desrespeito

    Postado em 31 de Caos de 3174 YOLD , às 6:76:83 Peterson Espaçoporto View Comments

    Sou só eu ou alguém ainda acha a coisa mais nojenta do mundo “pedir a mão de alguém ao pai de tal pessoa”? Seja em namoro, noivado, casamento, não importa o que for, esse costume idiota só perpetua o mindset arcaico de que as mulheres são um objeto, e que pertencem ao pai delas até o dia em que alguém veio tomá-la – e veja que esse gesto não é uma libertação, é quase uma transação comercial; é transferência de posse, jamais carta de alforria. Caso fosse este último o caso, o “Pedido” não seria um pedido, seria uma declaração de guerra.

    Interessado

    Afinal, tem que se perguntar ao principal interessado, não é assim? Dizer que os pais ainda tem que deixar ou não qualquer coisa desse gênero é, repito, desrespeitar a liberdade de alguém, a autonomia de alguém. É um desrespeito.

  • Casamentos

    Postado em 55 de Burocracia de 3173 YOLD , às 7:15:06 Peterson Espaçoporto View Comments

    Nietzsche apontava para o fato de que muitos não-cristãos, na época dele, agiam de forma mais cristã do que muitos católicos. No fundo, no fundo, a filosofia dele nunca foi contra Deus – como ele mesmo disse em Ecce Homo, é indigno lutar contra algo menor que si – e sim contra a cultura cristã, os preceitos cristãos.

    Essa cena se repete de forma cotidiana no mundo de hoje: muitos não são mais cristãos, mas ainda assim se casam. O casamento, logo ele, que possui características tão cristãs, até mesmo quando não é feito na igreja.

    Oh, não, não quero me casar. Mesmo. Não me importam as conseqüências, elas que venham. Não quero me casar.

    O casamento sempre foi um bom negócio, e em muitos lugares o é até hoje. Essa situação mudou, claro; mas o que não mudou foi o paradigma social da completude. A idéia maldita e perversa da alma incompleta, que necessita desesperadamente encontrar alguém que a complete.

    “Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade.”

    “Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo.” John Lennon

    Com a “liberdade” em alta, essa idéia de que encontrar alguém pra vida inteira é essencial, serve pra manter funcionando toda uma indústria casamenteira do mundo moderno – além de agradar os genes que apenas procuram por segurança para se reproduzir. É tolo manter intacto esse conceito – se você nunca refletiu sobre isso, então não é nem conceito, é pré-conceito mesmo.

    É claro, é óbvio que há coisas que se fazem à 2 que não se faz à 1 – ou não da mesma forma, se é que me entende – e a solidão não é o que eu defendo (tanto é que a seminovosofia cuida disso). O que eu quero dizer é: pra quê o casamento?

    Além do frágil (assim como qualquer outro) conceito, o que me irrita no casamento é o seu aspecto de eternidade. Contando com o tempo de vida humano, que aumentou drasticamente no último século, eternidade é muito tempo.

    Os humanos adoram ficar imaginando o futuro – tanto “o amanhã” quanto o “daqui a 100 anos”. O problema é que somos péssimas máquinas de previsão. O futuro será diferente do que pensamos e isso inclui, é claro, os relacionamentos.

    Agora, me diga, como posso dizer que amarei alguém pra sempre, se não há certeza nem sobre daqui a um mês? Pode-se argumentar de que a eternização é apenas parte simbólica da celebração. Que não significa nada; e que o casamento em instância civil apenas, permite o divórcio e um novo casamento… Mas há alguns pontos a serem considerados:

    1) Isso é a raiz da banalização das promessas, ou é fruto delas?

    2) Não é simbólico não. Se fosse, não haveria tantas músicas com letras do tipo “eu pensei que fosse pra seeeeeeempre!!(…)”.

    3) É fácil demais se acomodar e se deixar levar pela ilusão – o hábito e a rotina induzem a isso, neste caso.

    4) Se eu tenho a possibilidade de casar e descasar quantas vezes eu quiser, por que eu ainda iria querer gastar dinheiro com isso?

    5) Fora a questão da individualidade; ao invés de uma cooperação e entendimento levados para o lado concreto dos indivíduos, cria-se um monstro chamado “relação”, um ideal que sobrepõe ambos e destrói a individualidades, de uma maneira raramente democrática, pra dizer o mínimo. Isso é ilustrado muito bem por aquele ditado humorístico: “quando um homem e uma mulher se casam, tornam-se um só. O primeiro desafio é decidir qual dos dois vai assumir esse posto”.

    É por essas e outras que admiro meu professor de Inglês. Ele diz: “já cometi esse erro uma vez, agora chega. Pra quê eu iria querer casar de novo?”.