E também o assassinato de outros deuses
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  • Universal Channel

    Postado em 23 de Confusão de 3174 YOLD , às 6:85:72 Peterson Espaçoporto View Comments

    A Sky tirou a Mtv do ar, e, logo depois, a Net. Lindo, fiquei sem Mtv. Merda. Mas não tem problema; ainda tenho a Universal Channel!

    Desde ontem estou meio gripado então estou de cama. Segunda e terça vi 3 filmes excelentes, sem contar Law & Order, House (que série incrivel), etc. Estou aqui pra falar sobre os 3 filmes que vi na minha experiência Universal. E, antes de começar, o mais legal é que foi tudo legendado. Demais isso!

    Primeiro filme: The Final Cut (2004)

    Nunca tinha ouvido falar desse filme, mas é… Bom. Na verdade, eu achei a história boa, o que acontece e como acontece e tal. Mas eu achei que o roteiro foi meio simplório, e a fotografia foi muito ruim. Melhor explicando: as cenas de ação ficaram bem sem graça, e as palavras eram muito óbvias. É como se ele quisesse discutir as implicações filosóficas do que acontece no filme e foi criando as situações pra poder falar sobre elas, então é tudo muito direto, meio entregado. Além disso, apenas a atuação de uma mulher me chamou a atenção, o resto delas, a do Robin Williams inclusa, foi bem ruinzinha. Mas, tirando isso, é uma história bem legal, um enredo que estimula bastante a imaginação.

    Segundo filme: Stepmom (1998)

    Ah, esse aqui é fantástico. Eu não sei qual é o nome do primeiro filme em português, mas eu sei que esse aqui é Lado a Lado.

    Esse filme é excelente. Nada muito outstanding; tudo regular, mas um regular bom. As melhores atuações, as melhores que a média do filme (e é uma média boa, repito) foram as das duas crianças, que deram um show. A história é da relação entre a madrasta, as crianças, o pai e mãe das crianças. É um filme que tem um recurso de roteiro MUITO interessante: motivos. Por exemplo, quando uma fala “eu fiz isso pelo bem das crianças!”, a outra fala “Não, foi pelo seu bem!”, e isso em diversas situações do filme, sempre de uma forma genial. Um filme que faz pensar sobre as nossas racionalizações e reais motivos, as transformações que sofremos, etc. Um filme bom, bonito, gostoso de assistir.

    Terceiro filme: Bandits (2001)

    O nome do filme em português é Vida Bandida, e também é bom. A história gira em torno de um trio masculino que rouba bancos de uma forma esquisita: eles vão até a casa do gerente do banco uma noite antes, avisar sobre o assalto, e então dormem lá; no dia seguinte vão até lá e o gerente abre o cofre, e então eles fogem. Eles ficam “famosos” em todo o território norte-americano por causa do jeito pacífico deles, mas o negócio muda quando por acidente uma mulher frustrada com o casamento cai na vida deles; aí o negócio complica.

    Não é um filme que pretende ser engraçado, é um filme… Bem, eu não sei o que ele é. Ele tem romance, mas não é um romance; ele não é suspense, não é comédia (não dá pra rir muito), não é ação… É uma aventura. Uma aventura divertida, eu diria. Talvez daqui a alguns anos passe na seção da tarde.

  • Viva como se soubesse que não pode morrer

    Postado em 17 de Discórdia de 3174 YOLD , às 8:47:92 Peterson Espaçoporto View Comments

    As torrenciais paixões e agoniadas satisfações de vontades provenientes do “viva como se fosse o último dia” ganharam um bom oponente, penso eu. O “viva como se soubesse que não pode morrer”.

    Bom, na verdade a frase é simplificada e não significa exatamente isso. Douglas Adams no livro “Vida, Universo e Tudo Mais” dá um verdadeiro presente à Arthur Dent. Quando este encontra-se com Agrajag, um monstro que foi morto em várias e várias reencarnações por Arthur, fica sabendo que ele matou Agrajag num lugar chamado Stavromula Beta – só que ele ainda não tinha feito isso. Logo, Arthur não podia morrer até matar Agrajag mais uma vez.

    É interessante pensar dessa forma: os destemperos e inconsistências da vida humana provém da incerteza sobre o tempo que nos resta. Afinal, podemos morrer amanhã, e então tiramos dessa frase uma moralidade para viver. Mas, afinal, isso pode não acontecer; quem se esquece de que podemos morrer amanhã vive como se fosse viver pra sempre. O que o escritor britânico nos deu foi um meio-termo: Arthur sabia que não podia morrer. Portanto, ele tanto podia viver uma vida tranquila, sem sobressaltos, quanto uma vida cheia de aventuras perigosas e empolgantes, já que ele não poderia morrer de qualquer forma.


    Creative Commons License photo credit: MrClementi

    Uma boa filosofia de vida, não? Duas perguntas: qual das três vocês preferem? Achar que morre amanhã, nem pensar que pode morrer amanhã ou saber exatamente as condições exatas que ainda não ocorreram que levam à sua morte? E a outra: o que vocês queriam que acontecesse pra marcar a morte de vocês? Analogamente, se Arthur ainda teria que matar Agrajag mais uma vez, o que vocês “fariam pra morrer”?

  • Espírito de Aventura: novos valores

    Postado em 28 de Pós-matemática de 3173 YOLD , às 3:52:35 Peterson Espaçoporto View Comments

    Saint-Exupéry já dizia que “palavras são fonte de desentendimentos”. Pois é. Para mim, uma grande contradição conceitual que acontece (talvez por causa disso ou talvez não) é a questão da autofagia conceitual. Eu tenho liberdade pra fazer o que eu quero; logo tenho liberdade pra acabar com a minha liberdade. Isso é contraditório?

    De forma semelhante, a questão axiológica é uma contradição. Admitindo-se que nenhum valor possui em si algo intrinsecamente positivo ou negativo (não apenas valores, mas também qualquer conceito), então se cai no niilismo: Nietzsche já havia alertado para isso. Apesar de contínuas e malditas interpretações errôneas, Nietzsche não foi niilista. Ele apenas queria uma nova moral, novos valores.

    Mesmo os niilistas não podem escapar aos valores, uma vez que é conceitualmente perniciosa a ausência de valores. Afinal a ausência de valores deve ser ou a morte, ou a inação total e absoluta, ou um sono eterno ou algo semelhante. Enquanto há vida, ação, tem de se haver algum valor – nem que seja efêmero, que fique bem claro. Se alguém vive a vida sem valores, a falta de valores é um valor, uma vez que é guia para ações. Dessa forma, não é possível escapar a um valor (mesmo que seja a falta deles) a não ser que se opte pela morte.

    Mesmo os valores efêmeros, os anátemas caoístas, são eles metavalores, digamos assim. Acabam por se tornar valores, quando são efetivamente praticados. Não há como se escapar dos valores; uma vez que é preciso, mesmo quando se critica os valores vigentes, colocar novos como guias de ação (ainda que o novo valor seja o valor de “crie o seu próprio valor”).

    O Valor da Aventura

    Sendo assim, não vou fazer tais belas conclusões pra cair num moralismo qualquer. Apenas quero nesse post ressaltar um valor específico; não quero classificar-lhe nem bom nem ruim (embora o considere muito bom, pessoalmente…); apenas quero fazer com que este seja observado.

    Certa vez vi a seguinte frase: “a civilização aboliu todas as aventuras. A única que restou é abolir a civilização” ou algo do gênero. Possivelmente a frase não era assim, era diferente, mas o conteúdo conceitual é o mesmo.

    Depois eu comecei a pensar: aventura. O que é uma aventura? O que faz de algo uma aventura? Por que a aventura é boa?

    Segundo o Novo Dicionário Eletrônico Aurélio versão 5.0, aventura é uma empresa, empreendimento, ou experiência arriscada, perigosa, incomum, de finalidade ou decorrência incertas; ainda um acontecimento imprevisto, surpreendente, peripécia, entre outras definições menos importantes1.

    A sociedade ocidental influenciada pelo pensamento cristão do suposto “amor à vida” (que na verdade é o amor à morte), de alguma maneira não muito clara, porém um tanto quanto óbvia, acaba valorizando demais a segurança – não apenas pelas crenças, mas também pela conveniência. A segurança possibilita a estabilidade que o sistema atual necessita para prosperar. Isso desde os tempos do surgimento da burguesia, onde, após as cruzadas, os recém-nascidos burgueses financiaram a unificação de diversos feudos sob o poder do rei para que a estabilidade permitisse a continuidade do sistema que se formava.

    A excessiva segurança se revela muito forte no pensamento moderno. A “proteção” serve de desculpa pra que pessoas mintam, manipulem situações, invadam a privacidade de outras pessoas e, no caso de pais, proíbam os filhos de várias coisas pelos perigos potenciais envolvidos.

    É claro que dadas certas situações, a proteção ganha menos status de desculpa e passa a ter uma “razão de ser” real. Entretanto, o protecionismo nos dias atuais está elevado ao extremo; não por suas conseqüências serem grandiosas ou algo parecido, mas porque estamos acostumados a proteger e a sermos protegidos – estamos mal-acostumados. O número de vezes que o protecionismo não é só usado espontaneamente, mas também requisitado por outras pessoas, é absurdo em nosso dia-a-dia.

    Em geral, o que isso acaba fazendo é criar pessoas acostumadas com o fácil, com o simples, que não são exigidas, desafiadas pela própria sorte. Não vencem a si mesmas, seria uma boa definição. Digo e é bom frisar que, da mesma forma que o protecionismo tende a tornar-se desculpa, esta prática contrária não pode cair no mesmo vício: não se trata de maltratar alguém para que ela passe por isso e melhore – a vida em si é um desafio e suas circunstâncias exigem coragem naturalmente. Não é preciso que ninguém coloque outrem em circunstâncias artificiais para “testar” tal pessoa ou “melhorá-la” através do desafio não-real. Isso é mais uma forma de desculpa, apenas. A vida naturalmente tratará de desfiá-la, e é bom que ela vença e caminhe, não sozinha na concepção absoluta da coisa, mas, digamos assim, por si própria.

    Perigos e surpresas… A busca pelo novo, pelo emocionante, pela circunstância que mais exige de si – a superação de si mesmo, esse é o tipo de aventura que a sociedade atual não permite. Ou será que permite?

    Ainda existem desafios no trabalho. Você pode conseguir digitar um texto mais rápido do que o seu normal, quando estiver no escritório. Você pode conseguir tirar um 10 ao invés de um 9,5 na escola. Uau! Que aventura!!! (Sim, isso foi irônico, antes que não entendam).

    Bom, podemos pressupor que no esporte, por exemplo, há sempre a busca da superação e que nele há muita emoção. Bom, de fato há.

    Como é bom acender a luz da esperança, esperando encontrar em tais exemplos uma sociedade cheia de aventuras. Mas não é o que acontece. Nossa estrutura de vida não é uma aventura; está estruturada pra ser segura. Embora no percurso é possível extrair de pequenas experiências alguma emoção de aventura, o fim e o meio dos nossos objetivos enquanto seres sociais não estão pautados na insegurança, no jogo & brincadeira, na indeterminação e na aventura, de uma maneira geral. Da escola pra faculdade, da faculdade pro trabalho, do trabalho pra aposentadoria, da aposentadoria pro caixão. Sempre em busca de estabilidade e de linearidade, de algo certeiro e seguro. A vida enquanto uma aventura – ou melhor, estruturada para aventuras – está extremamente longe da civilização atual.

    Viver “perigosamente”, sempre desafiando a si mesmo, é uma aventura. Tal estilo de vida não é estimulado nem admirado na sociedade atual. O “valor” de aventura é algo ligado a impermanência; de local, de atitude, de experientia. A consciência de que tudo é passageiro não estimula apenas a aceitação, mas também o (por que não?) saboreamento de cada fim, de cada despedida, com todas as suas tristes sensações, com todos seus sombrios momentos. Estimula também a consciência de que a vida é algo frágil e que, de uma forma ou de outra, se acaba – não se trata de descaso com a vida, nem de desrespeito com a vida nem nada do gênero. É apenas uma maior habilidade de lidar com a “verdade” de que se perde muito na vida pelo medo de morrer.

    1. Há outras definições como: 3. Acaso, sorte, fortuna. 4. Proeza de cavaleiro andante, de cavalaria. 5. Ligação amorosa, em geral passageira e inconseqüente. Aventura, ainda segundo o dicionário, deriva do latim adventura, ‘coisas que estão por vir’.