E também o assassinato de outros deuses
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  • Agora vai!

    Postado em 24 de Discórdia de 3174 YOLD , às 6:15:46 Peterson Espaçoporto Comments

    Finalmente eu vou convencer um crente de que Deus não existe, usando a própria Biblia e sua própria atitude como evidência.

    “Aoleabe”, um pseudônimo para um religioso que entrou no blog há alguns dias, disse o seguinte no último comentário:

    bom , a partir de hoje começarei uma campanha de oração , eu e uns amigos , para com o fim de que Deus apareça pra você , como eu não sei , mas a biblía mesma fala que se eu pedires á Deus e crêr ele o mesmo fará !

    Ou seja,

    Ele acredita em Deus e diz que, se ele pedir e acreditar, Deus vai cumprir.

    Portanto, ele tem que aparecer, não?

    Pois é. Vejamos. Se ele não aparecer, isso significa que ele não existe, ou não cumpre a palavra (o que, para um ser perfeito que diz que vai cumprir tudo o que os crentes pedirem a ele, é bem contraditório). E ele não vai poder apelar para o subjetivismo: ele disse várias vezes que, pra ele, prova da existência de Deus é a experiência dele. Logo, ele vai ter que acreditar na minha palavra também caso eu diga que ele não veio me visitar…

    E que venha o barbudão (se tiver coragem de aparecer pra mim, mwahahaha…)

  • Intenção ruim: a punição seria válida?

    Postado em 16 de Discórdia de 3174 YOLD , às 6:07:66 Peterson Espaçoporto Comments

    Eu falei pra poucas pessoas sobre minha teoria contra a punição. Pra mim, ela está bem consolidada, mas eu ainda preciso amadurecê-la um pouco mais e até me preparar para defendê-la para outras pessoas, porque ela é muito ousada, eu diria. Digo, falei pra pouco, mas ela está lá, no Pensitivo!, apesar das estatísticas mostrarem que continuam sendo poucos mesmo.

    De qualquer forma, quando vejo uma notícia como essa, vejo nela uma ótima oportunidade de colocar a mim e a minha idéia contra a parede. Eu sinto que muitas pessoas ainda vão me dizer “mas você acha que deveríamos deixar esses estupradores soltos?”. E o que eu responderia?

    Minha teoria apunitiva funciona, e tem o intuito de funcionar, nos casos onde as pessoas são prejudicadas pelos “respingos” da atitude de outras. Temos uma vida muito dependente dos outros, ao invés do contrário, e quanto mais nos colocamos como dependentes dos outros mais nossos atos têm que ser vistos em função do outro, e mais os outros tendem a ter uma relação de dominação em relação a nós – já que de nós depende muita coisa do outro. Quanto maior a dependência, mais motivos insinceros existirão para que existam relações. A comunicação só pode existir entre iguais. Portanto, quanto mais independentes formos de fatores externos, mais nossas relações serão verdadeiras. Um motivo forte que me faz ser contra a autoridade, a dependência individual e social e o dinheiro, principalmente o dinheiro.

    Essa independência que possibilita liberdade de movimentos é difícil justamente porque temos uma cultura de dependência, uma cultura de bom e mau que nos faz gostar de pessoas constantes, servis e/ou solícitas e também que sempre nos consideram e não fariam nada que nos prejudicasse. Uma visão muita boa pra quem não é prejudicado, mas a outra pessoa não tem liberdade alguma. Quem busca a liberdade é considerado mau, estranho, etc.

    Mas, saindo do escopo das conseqüências dos atos voltados para o próprio executor ou para outros (ou seja, quando a pessoa faz algo para benefício próprio ou para outras pessoas e infelizmente isso acaba influenciando negativamente alguém), podemos entrar no escopo das conseqüências premeditadas, ou seja, quando há a intenção de machucar, de fazer mal, de ferir.

    A falta de punição serviria também como chave perfeita para a caixa de pandora, fazendo com que muitas pessoas fizessem coisas com o intuito de prejudicar outras.

    Primeiro, devemos nos lembrar que a falta de punição é uma condição para a liberdade, não uma lei. Não oficialmente e necessariamente punir – isso não significa ser proibido de punir. Apenas devolvemos à esfera individual o discernimento sobre punições. O que faria muitas pessoas não fazerem algo de ruim contra outras pessoas intencionalmente é que, se não há mais punição regulamentada, também não há garantia de que a pessoa a qual ela quer fazer mal não se vingue contra ela ou não se defenda de maneira diametralmente violenta. Em outras palavras, não há Estado para punir. Mas também não há Estado para proteger.

    Segundo, eu falei uma vez que para uma sociedade atingir a maturidade necessária para abolir a punição. Então: isso significa mudar toda uma cultura, toda uma mentalidade que propicia o surgimento de pessoas que querem fazer mal às outras. Eu não tenho grandes ilusões: as atitudes genuinamente mal-intencionadas jamais deixarão de existir. Não tenho esperanças quanto a isso. Mas tenho uma noção de que a nossa sociedade favorece muito mais o surgimento desse tipo de atitude. Atitudes mal-intencionadas existem, e saber lidar com isso e se defender, lutar contra isso da mesma forma que se luta contra as adversidades, faz parte da vida. E o que podemos fazer é criar uma cultura em que as pessoas não só tenham mais coragem de lutar contra elas como também mais pessoas tenham noção sobre essas atitudes. Se elas fizerem algo, que tenham ciência do que fazem e escolham fazer isso, porque o terrível é saber que há pessoas que sequer decidiram por isso, apenas fazem mal por fazer, por adaptação ao ambiente hostil em que vivem, talvez, ou da maneira hostil como vêem o mundo – resultado, pode apostar, de uma forte noção punitiva durante infância e adolescência. Pode apostar.

    Terceiro: já que devolvemos a punição à esfera individual, vamos pensar individualmente: a punição contra atitudes realmente mal-intencionadas é a de um tipo diferente, talvez mais válido. Afinal, o impacto que a abolição da punição tem em nossa vida é sempre nos perguntar: “Será que é certo que eu queira fazer mal àquela pessoa por que o que ela fez acabou de alguma forma me prejudicando? Não deveria eu tentar me adaptar a isso, ou então tentar modificar isso de alguma forma, aproveitar isso, ou conversar com ela pra que possamos chegar a algum acordo?”. Mas que acordo se pode fazer com alguém que faz algo com intenção de te prejudicar, com vontade de te fazer mal? Se no primeiro caso a batalha da vida se desenrola contra adversidades sem rosto, no segundo caso o inimigo não é o acaso, que costuma dar as cartas, mas sim alguém, uma pessoa de carne e osso, e que portanto merece ser combatida como as conseqüências das atitudes dos outros: da forma como a pessoa desejar combatê-la.

  • Livros e Identidade

    Postado em 11 de Discórdia de 3174 YOLD , às 5:49:71 Peterson Espaçoporto Comments

    Um escritor deveria saber que sempre que está segurando um livro de sua autoria, está segurando o detonador de uma bomba. Quem sabe o “estrago” que o seu livro pode causar em alguém? Livros ficcionais não formam explicitamente um manual de conduta na vida, mas um livro já tem um final definido – já está escrito – e portanto tem-se a sensação de que, o que quer que aconteça com os personagens, aconteceu por causa do destino. Ou, como preferir, numa explanação menos fantasiosa, o escritor quer passar uma mensagem de conduta moral com um livro, sempre quer, porque quando ele pune alguém no final está obviamente declarando ao leitor, o leitor percebendo ou não (não importa), que ele desaprova tal atitude ou aprova tal atitude. E assim as pessoas vão formando uma “identidade”. O que, pros padrões atuais, é uma coisa bem descartável até.

    Aí temos dois problemas: em primeiro lugar, o escritor não pode ser irresponsável com sua bomba caseira. Não, não, não que ele não deva usá-la. Tem que usar com responsabilidade. Tem que colocar os materiais certos. E no lugar certo.

    E depois, precisamos de leitores mais inteligentes. Arte não é questão de consciência – a ciência dos “processos que ocorrem no ser enquanto ele se regozija com uma obra de arte” destrói a arte – mas é muito interessante que, pelo menos depois que as pessoas terminam de ler um livro, que elas pensem um pouco em si mesmas, no livro, em toda a vida sob uma nova ótica. Faz bem, e não deixa as pessoas se machucarem tanto quando a bomba explode.

  • Vamos falar sobre esportes – e sobre liberdade, of course!

    Postado em 3 de Discórdia de 3174 YOLD , às 6:69:29 Peterson Espaçoporto Comments

    Hoje a aula de redação teve como tema uma dissertação sobre o esporte. Eu detesto dissertações, não por incapacidade de produzí-las, mas apenas porque são burocráticas demais. Isso irrita. É desconcertante ter que se preocupar em escrever até o último milímetro da linha (aposto que a professora vai descontar uns dois décimos por causa disso em algumas linhas de hoje), ou então de fazer um parágrafo com 5 ou 6 linhas, ou de colocar aquela “frase de conclusão” no começo do último parágrafo. É um saco.

    Mas, voltando ao esporte, acho-o uma coisa fantástica. Mais do que fantástica, ela é fundamental. Sob diversos aspectos. Afinal, todos sabem que fazer exercícios físicos ajuda o corpo e a mente, etc. É difícil arranjar um motivo qualquer pra dizer que o esporte é ruim – tirando o fanatismo, que é ruim em qualquer atividade humana – mas hoje já falei demais nisso lá, na aula, e quero mesmo é falar sobre outro benefício. Um benefício individual, pessoal, que se converte em benefício social.

    No post Contra a Punição, rebento meu dedicado ao Pensitivo (um dos melhores, creio eu), falta uma parte. Uma parte fundamental. A questão é que a falta de uma legislação apropriada pra punir infratores – e até mesmo a falta de uma legislação – só seriam possíveis em um outro cenário sócio-político, uma outra realidade que se caracterizaria por vários outros fatores, como por exemplo:

    - Um outro sistema monetário que não envolvesse o dinheiro (Entre outras coisas, a nossa civilização está tão focada na comercialização das coisas – ou nas coisas mesmo – que tudo se transforma em um produto, até coisas abstratas, e o dinheiro se torna o único meio para alcançar tudo que se deseja, fazendo dele um bem e um valor maior que qualquer outra coisa – quantos crimes de vários tipos não existiriam não fosse o dinheiro? Ou melhor, quantas pessoas não são mortas por causa de dinheiro?)

    - Um sistema de educação que ensinasse verdadeiramente alguma coisa (Um sistema educacional baseado na liberdade, na vontade, na reflexão e no pensamento crítico. Flexível e individual – sem deixar de oferecer opções para desenvolver o trabalho em grupo e a convivência. Além disso, prover muito mais do que uma escola, proporcionar um ambiente para o desenvolvimento emocional das crianças).

    - Uma cultura forte e verdadeiramente plural, muito acima das pluralidades vendidas e das identidades alugadas, que são antes roupas, que podem ser trocadas a qualquer instante, do que verdadeiras atitudes. Já disseram que apenas a arte salva. Não sei. Mas a arte é um tipo de expressão humana tão sublime que não deveria ser “solidificada”, nem mesmo vendida (da forma como é hoje).

    - E, além disso… Uma cultura de esporte! Sim, uma cultura focada no esporte em geral. Além dos benefícios da parte “exercício físico” do esporte, há também outras coisas positivas nele, como a interação social e a habilidade de trabalhar em equipe quando necessário, e principalmente a autodisciplina, autocontrole, autoconhecimento.

    A autodisciplina é fundamental pra uma sociedade sem punição. O conceito que sempre quiseram (tentaram, humpf) passar pra mim de autodisciplina pode ser resumido pela minha atual visão como o seguinte: disciplina é seguir regras impostas por outros. Autodisciplina é seguir regras impostas pelos outros, mas sem precisar que ninguém te vigie, afinal, você mesmo faz isso. Você conhece algum outro emprego da palavra “autodisciplina” por pessoas como coordenadores de colégios, pais e mães, etc? Não, né? Pois é.

    Deveríamos entender a autodisciplina, entretanto, como um exercício máximo da liberdade que legitima a falta de punição. A liberdade que alguém tem pra fazer as próprias regras, se policiar quanto a elas e ter liberdade para modificá-las. E essa modificação inclui as experiências pelas quais a pessoa passa, e talvez precisa passar (veja os comentários do post do Contra a Punição pra entender melhor essa última frase). O esporte fornece acima de tudo uma noção, aliada ao prazer, de que pra alcançar um objetivo é necessário seguir uma conduta de escolhas. Por isso ele é tão importante pras pessoas numa sociedade sem punição. Se a arte seria a parte “dionisíaca” de uma sociedade livre, o esporte seria a parte racional dela.

    P.S.: A parte “E sobre liberdade, of course” do título foi adicionada depois de acabar o post, porque achei que esse post é antes de mais nada uma extensão daquele do que alguma coisa sobre esportes.

  • Peneira

    Postado em 49 de Pós-matemática de 3173 YOLD , às 3:20:08 Peterson Espaçoporto Comments

    Mais de uma vez a Juliana me disse: “Peti, por que tu não faz um moicano no teu cabelo? Ia ficar massa!”. Não… Não. Definitivamente não. Sem querer desdenhar da opinião dela, poderia até ficar legal, concordo, mas, não. Sabe, talvez ela me ache meio poser. Talvez ela me ache meio falso. Não estou acusando-a, tampouco ousando penetrar no labirinto que a mente de outra pessoa é para qualquer um; apenas estou levantando uma hipótese natural da nossa história de convivência. Ela me vê todos os dias com pessoas de personalidade, digamos, visual, bem mais marcante do que eu. Qualquer um diria que a Natacha é emo. Muitos diriam que o João é emo – apesar de agora ele estar ridiculamente obcecado pelo bobo e irreal Zac Efron; em ser como ele – e alguns diriam que a Aline é emo. Agora, pouquíssimos, quiçá apenas acéfalos sociais, me chamariam de emo. Entretanto, sou amigo deles, ando com eles, ouço as mesmas músicas que eles e tenho pensamentos filosófico-políticos bem mais ousados do que eles.

    Talvez a Juliana espere de mim uma atitude mais condizente com a minha anarquia rebelde. Talvez ela esperasse uma revolução visual; cabelo doido, cabelo verde. Tatuagem, à contra-gosto da mãe. Piercings e etc. Não gosto de patys sem cérebro – mentira, não seria idiota de ser assim, sou discordiano e não caio em armadilhas maniqueístas. Tenho várias amigas assim, e como diria alguém, não me lembro quem, “Paris Hilton deve ter uma visão de vida única no mundo”. Quando você pensa nela como uma vadia rica e burra, você se espanta com isso. Ela é única. Ela é rica e potencialmente a típica “loira burra”, mas o fato é que, participando ou não de um estereótipo, a visão de mundo dela é única.

    Agora, por que eu não me torno visualmente mais próximo com a minha ideologia? Medo? Preguiça? Falsidade? Hipocrisia, covardia, falta de identidade, baixa auto-estima e necessidade de afirmação? Não, não. Ok, então, coisas menos pesadas: contradição discordiana? Ow yeahh… Quase. Vou explicar: meu visual serve como uma peneira social.

    Porque pense bem: se há um grupo de pessoas bem arrumadinhas e vestidinhas e riquinhas que detestam o “tipo de gente” com o qual eu convivo – mais alternativos do que o normal, menos convencionais do que o normal – essas pessoas não se aproximariam de nós. Toda identificação visual que faça a pessoa se aproximar do ponto de vista ideológico dela serve como um aviso; um nazista se veste como um nazista pra avisar que é um nazista (bom, nesse caso, por outros motivos também, mas deixa quieto). Ele não se vestiria como um socialista, pois isso atrairia para seu entorno socialistas – e não é bem isso que ele quer.

    Por outro lado, se gosto tanto de semi-emos, alternativos e doidinhos – adoro todos, pois são muito mais divertidos e geralmente perspicazes – por que não compartilho do mesmo visual, da mesma barreira social que selecionaria minhas companhias e as pessoas que se interessariam por mim? Ah, sim, claro, se eu não fizer isso, poderei “transitar entre dois mundos”. Mas há ainda um caso a se considerar:

    Da mesma forma que um rapper se veste como rapper pra que um metaleiro (headbanger, eu conheço a expressão correcta) não “chegue perto”, um rapper não chegaria perto de um headbanger.

    O objetivo do meu visual não ser alternativo é justamente selecionar os “alternativos”, “doidinhos” e “semi-emos” que valem a pena dos que não valem. Assim, se existem alguns desses grupos que me julgam pela aparência, é justamente por me julgarem apenas pela aparência que não são dignos de me conhecerem. Só sobram aqueles que dão mais valor às minhas atitudes e ao meu jeito de ser que não está contido apenas no sentido visual dos meus atos e de meus trejeitos.

    Por isso não tenho cabelo verde. Pra que vou querer conhecer um punk de cabelo vermelho que eventualmente diga que todos os “filhinhos-de-papai” têm que morrer, por exemplo? Esse (esse, ok?) punk não vale a pena.