Orkutcídio em Massa para Adoradores de Lasagna

E também o assassinato de outros deuses
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  • Aprender a Viver

    Postado em 35 de Discórdia de 3176 YOLD , às 8:06:18 Peterson Espaçoporto View Comments

    Li, todo num dia só, o livro Aprender a Viver, do francês Luc Ferry. O livro nasceu da iniciativa de alguns amigos do cara, que pediram um “curso” básico de filosofia, um curso dirigido a um público leigo e tal.

    Na verdade, a proposta dele é similar à do famoso “O Mundo de Sofia” — só que não é uma ficção e cobre apenas cinco fases da filosofia ocidental: o estoicismo grego, o cristianismo, o humanismo, Nietzsche e o pós-Nietzsche.

    Sim. Um capítulo todo dedicado a Nietzsche.

    Bom, nada menos que justo: ele foi simplesmente o mais foda de todos. Uma pena que o livro acabe não fazendo muita justiça a ele; vejamos o porquê mais adiante.

    Estilo e Estrutura

    O livro é muito interessante, e visualmente falando é agradável de ler. Grandes espaços entre as linhas, margens grosssas — 300 páginas que passaram voando. Depois de ler dois livros de Dostoiévski da Martin Claret, OMG, isso foi um alívio indescritível.

    Na apresentação do livro ele desmistifica uma ideia que estava em mim também: a de que a filosofia é essencialmente espírito crítico, é muito mais sobre fazer perguntas e não sobre suas respostas. Mas, como ele bem diz: fazer perguntas, ter um espírito crítico, é uma faculdade técnica que é empregada por pessoas em todos os campos da nossa vida e nem por isso todo mundo é filósofo.

    Ele explica então que os chamados sistemas de pensamento filosófico surgem por causa de uma simples constatação: somos mortais. Morreremos. E disso decorre aquela angústia básica: já que não tenho exatamente todo o tempo do mundo, estou gastando meu tempo de forma positiva? E essa angústia, esse e muitos outros sintomas do básico medo da morte, nos impedem de viver bem.

    A função da filosofia é, pois, nos salvar, ou seja, nos recuperar: viver de um modo a neutralizar o medo da morte que nos impede de viver bem e, dessa forma.. Viver bem!

    Assim, todos sistema filosófico coerente possui três partes:

    Teoria – compreende a epistemologia — o que é real? O que é a realidade e, afinal, como podemos saber que ela é assim? Aquela coisa Matrix.

    Ética – de acordo com o que entendemos pela realidade, então, o que afinal devemos fazer?

    Doutrina da Salvação – sob qual perspectiva o fato de vivermos de acordo com essa ética melhora nossa relação para com a morte?

    Ah, e ainda tem uma distinção particularmente importante da qual gostei muito: a filosofia se diferencia, de forma diametralmente oposta, da religião, porque a religião promete a salvação: ou seja, promete aplacar os medos concernentes à morte de diversas formas (ou os negando ou arranjando gambiarras teológicas)…

    SE e somente se você se submeter a uma determinada linha de pensamento, que em geral é a linha do des-pensamento — a . A confiança em algo exterior a você que, a troco de algumas coisas, vai te salvar. Ou seja, a fé, a religião, ela é uma salvação comprada, uma salvação que tem o preço alto e o gosto amargo da dependência: é a salvação por intermédio de outrem, enquanto que a filosofia é a salvação por si mesmo.

    Taí uma distinção que a Nova Acrópole, aquela escola de filosofia à moda clássica que eu falei nesse post aqui, não faz. Pra eles, a religião, a ciência, a política e a arte são faces de uma mesma pirâmide cujo cume é a filosofia. Não penso dessa forma e tenho cada vez mais forte em mim a ideia de que aquele curso de filosofia não rola mesmo (por mais que o Iaido seja legal…).

    O Caso Nietzsche

    Depois de falar do estoicismo, do cristianismo e do humanismo renascentista / iluminista, ele parte para Nietzsche, embora faça referências também a Marx e Freud, e o põe na conta de um materialista desconstrutivista.

    Ha! Que generalização tola!!

    Em geral os livros citados nesse capítulo foram A Vontade de Poder (póstumo), Ecce Homo, Além do Bem e do Mal e… Só, acho. Um pouco, bem pouquinho, de Zaratustra, uma passagem só, se não me engano.

    O livro tratou bem a teoria de Nietzsche: não existem verdades, apenas interpretações (Principia Discordia?), e o universo, ao invés de ser um lugar bonito e harmonioso como diziam os estóicos, é na verdade uma grande trama de forças puramente caótica (Principia Discordia? Poderia ser tanto a teoria mainstream do Principia como a ilusão erística, mas isso veremos adiante). E, cherry on top, nós, seres viventes, jamais poderíamos formular teorias frias e conclusivas sobre o que é o viver, sobre o que é a existência, uma vez que nós fazemos parte dessa realidade.

    A teoria também passa por falar como Nietzsche procedia pra chegar a essas conclusões. À bem da verdade isso que falei no último parágrafo são mais coisas que se assume, e a partir daí constrói-se o resto — não é bem algo que se possa argumentar pra convencer. Mas, de modo geral, Nietzsche usava o método da genealogia, ou seja, não era bem uma questão de analisar, de contemplar, de experimentar… Ele, como filólogo (coisa que o livro não cita) vai na origem das coisas: quer saber porque são do jeito que são e então as desmascara, tirando seu valor.

    Não sei se quando ele fala disso ele ainda está na teoria ou na ética, mas o caso é que Nietzsche não era exatamente um amigo da moral. A moralidade, essa coisa de bem e mal, o que exatamente isso tudo significa? O que são ideais e qual é a importância deles?

    Bom, El Bigodón dizia o seguinte: a vida era algo muito legal e interessante, mas que era contaminada por ideias quando tentamos classificá-la, quando tentamos dividi-la em bem e mal, em certo e errado. Tudo isso o livro explica, mas ele não fala de onde veio isso e, pra mim, a insatisfação já começou aí: ele não faz menção ALGUMA a O Nascimento da Tragédia, a primeira obra de Nietzsche, e que é de importância vital pra compreender bastante coisa.

    Para o Nitch (cansa escrever tudo AHEAEHa – ficar sendo criativo vai mais hora menos hora irritar, então vou escrever só Ni), a realidade não poderia ser explicada se não pela existência de impulsos artísticos que seriam metafísicos — ou seja, sabe quando dizem que Deus criou o mundo? Ok, claro que sabem. Slabem quando dizem que, mesmo não havendo Deus, deve haver alguma “verdade universal” quanto à moralidade, quanto “ao que é certo e ao que é errado”? Sim, claro que sabem.

    Então, isso de “deve haver” são os chamados princípios metafísicos — coisas que estão além da nossa realidade. Ni olhava para o mundo e dizia: cara, vocês veem harmonia onde não existe. Vocês fazem as coisas de um jeito, aceitam as coisas de um jeito, ORGANIZAM as coisas de um jeito, mas caso esse negócio de ética fosse mesmo verdadeiro, o mundo seria muito diferente, nós viveríamos de uma maneira muito diferente — seríamos, essencialmente, muito diferentes.

    Portanto, a única coisa que ele podia aceitar como princípios metafísicos eram não coisas como a moral ou o bem ou o mal, mas a arte. A arte enquanto impulso universal que nos governa.

    Mas que tipo de arte?

    Pra ele existiam dois impulsos artísticos primordiais: o dionisíaco, que tem a ver com a profundidade das coisas, com a dor da existência, e o apolíneo, que tem a ver com as imagens, com a arte contemplativa que existe para escapar ao dionisíaco.

    É difícil explicar aqui tudo sobre o que o livro fala, mas ele mais pro final começa sua crítica a Sócrates, ao racionalismo, dizendo que havia um terceiro impulso, não metafísico, mas humano, que era o impulso racional. Pra ele, nada havia de significado naquilo que não podia ser provado, que não podia ser lógico, que não era de acordo com razões – com ideias. Ou seja, a beleza não está implícita, está só naquilo que possa ser compreendido, processado pela mente.

    Isso, de certa forma, lembra aqueles ataques aos ateus modernos por parte de certos esotéricos. De qualquer forma, o que Nietzsche queria propôr (pelo menos segundo minha interpretação, e olha que eu me demorei nesse livro) era que a vida, as sensações da vida são, a priori, artísticas, são desprovidas de sentido óbvio para nossa mente utilitarista, e que essa mania racionalista é na verdade uma megalomania do cérebro, que é excelente para manipular a matéria e tudo o mais, mas que quis estender seu domínio por sobre todo o resto…

    Sendo assim, desde Sócrates, diz Ni, a vida enquanto resultado desses impulsos artísticos tem sido negligenciada em função de ideias racionais…

    Ou seja, resumo da ópera:

    - A vida acaba sendo julgada pelo intelecto.

    - O intelecto realiza suas manobras retóricas para “provar”, com sua lógica, o que é certo e o que é errado.

    E é por isso que Ni precisava usar a genealogia, esse negócio de saber de onde as coisas vêm, pra desmascarar a suposta razão. Pra mostrar que esses julgamentos do intelecto não eram válidos.

    Ni acreditava que para viver uma vida melhor é preciso viver a vida de uma forma mais unitária, sem julgá-la, sem confiná-la, sem destruir seus instintos em favor de ideais, que são frágeis.

    O livro fala, então, da doutrina de salvação de Nietzsche: o eterno retorno e o amor fati, mas os entende de forma terrivelmente errada.

    O que é o Eterno Retorno? É o seguinte: pra você ver se você está vivendo uma vida que vale a pena ser vivida, você deve, por um momento, imaginar que, assim que você morresse, de alguma forma o tempo voltasse e você nascesse de novo.

    Só que da mesma forma. Do mesmo jeito. No mesmo ano, no mesmo dia, com os mesmos pais, na mesma circunstância. Você, então, viveria sua vida toda de novo. E, quando morresse, a viveria de novo.

    E de novo, e de novo, e de novo.

    Assim, o que ele pergunta é o seguinte: se esse é o seu destino, você gostaria dele? Mas veja bem, não é só o caso de repetir todas as experiências boas. Você viveria tudo de novo. Inclusive, é claro, as experiências ruins.

    O livro trata do Eterno Retorno como se fosse um selecionador de experiências:

    (…) Ela não é, no fundo, nada além de um critério de avaliação, um princípio de seleção dos momentos de nossa vida que valem ou não a pena serem vividos. Trata-se (…) de interrogar nossas existências, a fim de fugir das falsas aparências e das meias medidas, de todas essas covardias que (…) nos levariam a desejar esta ou aquela coisa “só uma vez”, como uma concessão, (…) sem a querer realmente.

    A segunda parte faz sentido — ao colocarmos nossa vida, nossas ações do futuro próximo sobre a perspectiva da eternidade, elas ganham muito mais peso e temos que ter muito mais responsabilidade para com nossas vontades. Isso que vou fazer, estou certo disso? Será que vou querer que isso se repita para todo o sempre?

    Só que como instrumento, como “exercício” da “doutrina de salvação” o eterno retorno faz muito mais sentido como um exercício retroativo, de avaliação da vida — principalmente quando você junta à coisa toda o Amor Fati. Já voltamos a esse ponto…

    O amor fati é o amor ao destino, o que o livro trata erroneamente como a resignação estóica / budista de se contentar com as coisas como estão, de amar a todas as coisas de qualquer forma que sejam, de amar a vida sem querer transformá-la, etc. Sim, é certo que transformar a vida é de certa forma um julgamento da vida, mas essa ideia de resignação não é a única interpretação do amor fati e está longe de ser a mais digna. Essa é minha segunda insatisfação com o livro:

    Voltemos ao Eterno Retorno: ao olharmos pra trás nas nossas vidas vamos ver coisas boas e, certamente, coisas ruins. Muitas pessoas se recusariam à proposta de viver tudo novamente porque não querem repetir também as coisas ruins; e é com isso que o amor fati tem a ver. Ni não foi particular e individual, foi universal nas suas observações: não se trata de aprovar e amar todo e qualquer momento de uma vida, mas amar a natureza dA Vida, que contém o prazeiroso e o doloroso…

    … E, de forma certamente não-análoga, o dionisíaco e o apolíneo.

    E também o socrático, de certa forma, embora na parte de Ética o livro conte sobre o tal “Grande Estilo”, que é como Nietzsche via a melhor forma de se proceder: submetendo o impulso socrático aos artísticos, e não o contrário.

    Será que Luc Ferry leu as considerações de Nietzsche sobre o budismo? A comparação que faz com o cristianismo em um aforismo do qual não me recordo agora é brilhante. Ni não era budista e seu amor fati não era, como afirma o livro, uma questão de “esquecer o passado e o futuro” e se concentrar no presente. Não, de forma alguma: os budistas pregavam o desapego, mas isso para Ni também era um ideal, era antinatural: aceitar a vida, o amor fati, é reconhecer que as coisas são assim, nós nos apegamos ao que amamos e, quando as coisas ou as pessoas se vão, nós sofremos. Amor fati é amar tudo, inclusive a essa dor, não deixando escapar nada e reconhecendo que, se fosse pra viver tudo de novo, então que se foda! A vida é maravilhosa e merece ser vivida mesmo que for pra viver de novo as partes ruins — e ainda que as partes ruins sejam predominantes!

    Essas foram basicamente minhas frustrações quanto ao que foi postulado acerca de Ni nesse livro. Ele também insiste em dizer que Ni foi base para o nazismo, de certa forma involuntária — porque os nazis de certo nunca leram Ecce Homo, livro em que mais de uma vez Ni despreza os alemães e eleva o espírito judeu.

    Outra coisa que achei muito curiosa foi o que ele dizia depois já, em outro capítulo. Deixa eu ver se acho aqui…

    É, não achei. Mas enfim, Ni falava bastante também sobre o seu tal “Super-homem”, que significa romper com todos os ideais e criar novos. As críticas que Ni encontra nesse livro do Ferry, mais pro final, é que de certa forma não há como escapar de certo idealismo, e que mesmo a busca pela vida como força maior e acima de qualquer ideal, isso mesmo tornaria-se um ideal — certamente, oras! Ni mesmo dizia que o rompimento com os velhos ideais culminaria na criação de novos, e que depois seriam derrubados e por aí vai. Aí se contempla mais uma vez a liberdade no contexto nietzscheano, e se vê que o amor fati nada tem a ver com resignação ou uma vontade de querer parar o tempo, de querer que nada mais mude.

    Talvez essa interpretação seja contraditória ou mesmo otimista demais em relação às ideias de Ni? Quem sabe — eu não conheci Nietzsche pessoalmente pra ir lá perguntar pra ele o que ele acha. Provavelmente isso tudo seja mais uma mistura de muita coisa que Ni disse com meu próprio background cultural, discordiano e anarquista. Quem sabe?

    Discordianismo

    Também gostei de pensar no discordianismo dentro do livro. Como Luc o trataria? Sua teoria e sua doutrina de salvação estão pra mim relativamente claras (tanto quanto é possível que sejam), mas como seria a ética discordiana?

    Hmmm…

  • Limpando a Agenda

    Postado em 35 de Discórdia de 3176 YOLD , às 6:41:18 Peterson Espaçoporto View Comments

    Meu pai tem o mesmo celular desde quase o século passado. Agora está finalmente quase se tornando inutilizável e ele comprou um novo. Ele deseja que eu passe a agenda de telefones do velho para o novo — o que vou fazer, ainda que aos poucos — e, para facilitar a tarefa, ele via “limpando” a agenda, tirando os números que não precisa passar pra lá.

    É engraçada essa tarefa. Ela é quase uma atividade espiritual de renovação, se bem aproveitada. É como arrumar o quarto — tirar um pôster da porta do armário é mais do que limpeza visual, é deixar pra lá o passado que não faz mais parte de você.

    Ao limpar a agenda você vai mantendo as pessoas que importam pra você, vai lembrando que algumas outras existem, e vai percebendo também quanta gente têm importância temporária na nossa vida.

    “Ô Peterson! Sabe quem é Vanessa?”

  • Orkutcídio Apresenta: Macarrão com Linguiça

    Postado em 34 de Discórdia de 3176 YOLD , às 8:97:34 Peterson Espaçoporto View Comments

    Olá, olá! Esta aqui provavelmente deve ser o primeiro post culinário do Orkutcídio — bom, na verdade, teve um antes declarando que o feijão da mãe da Aline era uma comida discordiana da mais alta classe, só que não era uma receita. Este post, contudo, vai ensinar vocês a fazer o macarrão com linguiça, receita tradicional aqui em casa. É muito simples e o resultado é… Bem, é uma delícia =)

    Vamos ao que você vai precisar, los ingredientes:

    - Uma linguiça pura (meu pai não sabe o nome desse tipo de linguiça, mas não é aquela de churrasco, é mais ou menos esse tipo). A marca que a gente recomenda é a Blumenau ou a Olho, mas não sei se dá pra achar isso por aí em São Paulo, @evandrocesar.

    - Um tomate grande

    - Azeite

    - Cebola grande

    - 3 Dentes de Alho

    - Massa de Tomate

    - Orégano, Sal, molho Shoyu, Azeitona, Açúcar, Salsinha (esses são opcionais)

    Comofas/

    Tire a pele da linguiça, pique a coitada e jogue numa panela com um pouquinho de azeite.

    Depois de um tempo, escorra a gordura (tire o líquido na panela, deixe só a linguiça mesmo) e adicione à panela uma cebola grande cortada em fatias, mais um pouco de azeite e três dentes de alho picados.

    Deixe fritar até a cebola ficar transparente — em fogo médio isso dá mais ou menos (principalmente menos) uns cinco minutos. É rápido mesmo, ela entra na panela branca e logo logo já perde a cor e fica transparente.

    Depois colocar o tomate grande picado na festa e, mais depois, duas colheres de sopa de massa de tomate. Vá misturando tudo até o molho ficar grossinho, não aquela coisa muito molhada e tal. Se ainda ficar seco demais dá pra botar meia-xícara de água pra consertar.

    E aí… Está praticamente pronto! Agora é hora de botar os opcionais: azeitona picada, orégano, e molho shoyu — tudo a gosto! Depois disso aí é hora de provar.

    Se não estiver bom quanto ao sal, adicione um tanto até ficar certo.

    Se o molho ficar ainda um pouquinho “azedo” (na verdade mesmo, ácido), bote uma colher de chá de açúcar pra compensar.

    Agora é botar em cima do macarrão e, pra deixar bonito, pôr um pouco de salsinha por cima (que é opcional também, é claro).

    E aí… Pronto! =)

  • A Nova Acrópole e o Iaido

    Postado em 28 de Discórdia de 3176 YOLD , às 9:08:54 Peterson Espaçoporto View Comments

    Uma amiga minha me convidou há umas duas ou três semanas para ir com ela a uma conferência sobre filosofia no centro. Falei well, tudo bem, vambora — ainda mais considerando que era uma terça e nesse dia não trabalho[ava]. Era ainda feriado em Florianópolis, mas a conferência ainda aconteceria.

    Quando chegamos no local percebemos que na verdade não era bem uma conferência, mas sim a aula inaugural de um curso de filosofia à moda clássica, e o lugar era uma associação cultural chamada Nova Acrópole — dedicada ao ensino e disseminação da filosofia.

    Como chegamos cedo demos uma passeada pela escola, que tem uns dois andares e várias salas e espaços interessantes. Um laboratório de informática, uma biblioteca, um espaço pra confraternização, e também um dojo para a prática de artes marciais.

    Ficamos intrigados. Ora, artes marciais? Luciana, a mulher que nos guiou pela associação, explicou que a associação, que é internacional, possui certas “extensões” — pessoas interessadas em outros assuntos que não diretamente a filosofia podem criar núcleos de estudo desde que tenha algo a ver com a filosofia. A associação, por exemplo, possui um centro de artes plásticas, e outras pelo mundo possuem um centro de medicina, e por aí vai.

    Um desses centros é um de artes marciais (não lembro o nome, acho que é algo como Budi Darma, imagino que escrito de forma diferente) e aqui em Floripa duas artes marciais são praticadas: o Neikun e o Iaido.

    Eu fiquei interessado no Iaido: é uma arte originada dos samurais japonesas, e é, na definição mais simples do site em inglês (em tradução livre), “a arte de reagir a um ataque surpresa ao contra-atacar com uma espada”, que no caso é uma katana.

    Cool, isn’t it?

    A explicação fica ainda mais legal: “O Iaidoka (praticante de Iaido) usa uma espada: não para controlar o oponente, mas para controlar a si mesmo. Iaido é geralmente praticado de forma solitária numa série de Wazas. O Iaidoka executa várias técnicas contra um ou vários inimigos imaginários. Cada Waza começa e termina com a espada na bainha. [...]  Para praticar de forma correta o Waza, o Iaidoka precisa aprender postura e movimento, força, controle do corpo. Iaido nunca é praticado de forma improvisada”

    Achei muito interessante. Nunca fui de artes marciais — nem de esportes ou coisas do gênero — mas sempre tive fascínio por lutas com instrumentos: espadas, escudos, lanças (embora menos nesse último caso) e em todas as épocas: desde as lutas medievais passando pelas gregas tipo as do filme Tróia até esgrima, espadas japonesas (ah, Kill Bill…) e os sabres de luz de Star Wars…

    Então quem sabe não valesse à pena?

    A descrição continua, saca só: “O Iadoka se prepara para um ataque surpresa, onde uma solução imediata e eficiente [...] é necessária. Assim, a técnica é altamente refinada. Nenhum movimento desnecessário é feito. A técnica é simples e direta. O método de treinamento é voltado para o desenvolvimento de todo recurso físico e mental do praticante.”

    Achei tudo muito interessante e voltei lá para dizer que não estava interessado no curso de filosofia (coisa que já tinha dito antes de sair de lá naquele dia, actually) porque filosofia é uma coisa que estudo e gosto desde pequeno. E, além disso, a filosofia grega de depois do Sócrates é a que eu menos gosto — sim, sim, é influência do bigode, mas o que posso fazer se concordo com ele? Sócrates era mais discordiano, mas ao mesmo tempo gerou toda a tradição racionalista; Platão era um babaca, Aristóteles era escravocrata e sexista. Disseram muita coisa interessante, certamente, mas se eu fizesse o curso estaria indo não pra discutir seus méritos, estaria indo pra ouvir sobre eles. É um curso. E é um curso voltado para a aplicação das filosofias deles na vida real. Tem lá uma matéria de política — cara, eu sou anarquista, não gosto desse negócio de representatividade. Eu não quero ir lá pra ficar discutindo e subvertendo o propósito da aula. É sacanagem para com os outros alunos, por exemplo. É como ir  como aluno pra aula de inglês começando a questionar o método usado e começar a querer mudar tudo… Como eu disse pra @nanoluh: prevejo irritações e frustrações.

    Contudo, o Iaido é legal. Fui assistir a uma aula na quinta-feira, e eu gostei bastante. No início da aula foi feito uma meditação: pretende-se atingir um estado de calma e concentração que, segundo a professora, deveria se tentar manter ao longo da aula (esse site que indiquei explica que uma vez no dojo, durante a aula, nenhum outro assunto pode ser discutido). Depois começou a série de Waza, em que os alunos praticavam a sequência de golpes contra o adversário imaginário. O Waza que eu assisti consistia num ataque de alguém pela direita que acontecia enquanto eles estavam sentados. A professora também perguntava, ao final de uma série, o que eles queriam fazer melhor na sequência deles, e explicava como deveria ser feito, pedindo que eles se concentrassem na melhoria daquele ponto.

    De uma forma ou de outra, fiquei com vontade de começar. Mas a professora me disse que, sendo uma extensão do curso de filosofia, não era uma opção fazer só o Iaido, e não fazer o curso. Fiquei “nhééééém que meeeerda” e agora já não sei ao certo o que fazer. Pagar pra ver se no fim das contas o curso vai se provar uma perda de tempo, ou desistir altogether?

    Não sei. Ainda não me decidi…

  • Iniciando uma Discussão

    Postado em 68 de Caos de 3176 YOLD , às 0:09:75 Peterson Espaçoporto View Comments

    Nas antigas eu fiz um post imaginando o que seria uma boa escola pra mim. Eu apaguei o post porque queria atualizá-lo, modificá-lo, mas mesmo hoje deixei aquela ideia um pouco de lado, mas não sei ainda o que favorecer.

    Esse ano quero fazer visitas a escolas. A Amanamanhã, o colégio Autonomia daqui de Floripa, enfim; buscar esses projetos de educação alternativa e ver como exatamente é a proposta de cada um deles.

    Eu quero, contudo, saber a opinião de vocês. Não pensem na escola como ela é hoje, pensem no que ela representa e como ela poderia ser para melhor representar esses ideais de conhecimento. Na verdade, podemos voltar um pouco mais e duvidar mesmo do princípio: deveria a escola ser responsável por, de alguma forma, sabedoria?

    Na minha opinião — e dessa vez não vai ser algo extenso e detalhado — a escola não deveria ser um lugar em que as pessoas vão pra adquirir conhecimento. Muita gente fazendo isso ao mesmo tempo leva irremediavelmente ao único jeito de organizar a coisa toda: educação em massa. E isso simplesmente não dá certo. Veja bem, não é que não possa ser feito — é o que é feito atualmente — é que simplesmente não dá certo, porque o conhecimento cabe em cada de um nós de forma diferente,  e ao despersonalizar o ensino tanto o conteúdo perde (muitas coisas que são ensinadas são na verdade apenas “adaptações” de como as coisas realmente são) quanto o aluno (que ou já sabe o que está sendo ensinado e perde tempo na aula, ou não consegue entender e perde tempo tendo que estudar algo que simplesmente ou não será útil ou não é de seu agrado), e por aí vai.

    Então o que a escola deveria ser? Um lugar não tido como o lugar para adquirir conhecimento, mas para encontrar ferramentas para tal, como um ponto de referência, e também um lugar para validar o conhecimento. De certa forma, a questão das ferramentas é um fato em muitas escolas. Bibliotecas, computadores, professores disponíveis. Escolas, entretanto, seriam tipo universidades: teriam a biblioteca, não qualquer uma. E, bem, o diploma do ensino médio diz que a pessoa sabe tudo que ela deveria saber, mas é na verdade uma grande mentira.

    Acho que a aquisição de conhecimento deveria acontecer fora da escola. Os professores deveriam orientar material pra ler, laboratórios ou locais de trabalho pra visitar, tirar dúvidas quando elas aparecessem, indicar outras pessoas com os mesmos interesses pra que o grupo possa construir um conhecimento específico juntos (escola funcionando como um hub) e então quando o pessoal que está estudando algo estivesse seguro do que aprendeu, preparariam algum tipo de apresentação ou trabalho para outros professores — que não estiveram envolvidos no processo anteriormente — para que estes possam dizer “ok, eles realmente sabem o que estão falando e eu dou esse diploma-exemplo que diz que eles aprenderam a somar 1 mais 1″.

    O título é “iniciando uma discussão” (hopefully) porque quero saber: o que vocês acham que deveria ser a escola?