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	<title>Orkutcídio em Massa para Adoradores de Lasagna &#187; Ficção</title>
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	<description>E também o assassinato de outros deuses</description>
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		<title>M10: Beta</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Feb 2010 22:50:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Peterson Espaçoporto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção]]></category>
		<category><![CDATA[Pra ler]]></category>
		<category><![CDATA[Trivialidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ajuda]]></category>
		<category><![CDATA[beta]]></category>
		<category><![CDATA[Livro]]></category>
		<category><![CDATA[m10]]></category>
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		<description><![CDATA[O que é M10?
M10 é o meu primeiro livro &#8212; isso pra simplificar, pois na verdade é o primeiro livro ficcional que eu termino. Era das Consequências, um projeto com o qual alguns aqui podem estar famialiarizados, ainda está um pouco longe de se concretizar. Mas, enquanto isso não acontece, eu terminei outra história que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h2 style="text-align: justify">O que é M10?</h2>
<p style="text-align: justify">M10 é o meu primeiro livro &#8212; isso pra simplificar, pois na verdade é o primeiro livro ficcional que eu termino. <strong>Era das Consequências</strong>, um projeto com o qual alguns aqui podem estar famialiarizados, ainda está um pouco longe de se concretizar. Mas, enquanto isso não acontece, eu terminei outra história que ficou andando na minha mente durante um tempo. Eu apostei minhas fichas nela e ela está pronta &#8212; mas quem sabe ainda precise de um pouco de polimento?</p>
<h2 style="text-align: justify">Que diabos é alfa, beta, etc?</h2>
<p style="text-align: justify">Alfa, Beta, Release Canidate, Pre-release &#8212; isso é linguagem de programas de computador, que significa <em>versão de teste</em>. Eu, como gosto muito desse mundo e de open-source e de coisas afins, acho, sinceramente, essa questão de colocar uma versão pras coisas e fazer versões de teste muito importantes pro progresso de um trabalho, de um projeto, sendo ele relacionado a computadores ou não.</p>
<p style="text-align: justify">Não que seja primordial, mas é uma maneira até divertida de definir prioridades e trabalhar com metas. Pra quem não sabe, <em>em geral</em>, a versão 1.0 de um programa é aquela em que ele é considerado &#8220;pronto&#8221; &#8212; ou seja, o desenvolvedor pensa &#8220;hey, eu quero que ele faça isso, isso e isso&#8221; e quando ele finalmente faz tudo que se planejou que ele fizesse, diz-se que ele &#8220;atingiu a versão 1.0&#8243;. Contudo, nenhum programa é livre de bugs, e já se diz há muito tempo que nada é perfeito. Portanto, para ajudar a corrigir problemas no programa (às vezes ele pode travar ou não funcionar como o esperado) versões de teste são lançadas, pra que interessados possam ver o que há de errado, contar ao desenvolvedor e então ele vai poder corrigir o que há de errado antes de dizer que seu trabalho está &#8220;pronto&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify">E é exatamente o que estou fazendo com o meu livro.</p>
<h2 style="text-align: justify">Alfa</h2>
<p style="text-align: justify">A versão &#8220;alfa&#8221; foi quando terminei o livro. A história ficou pronta, tudo estava escrito. O ponto final foi colocado na última página. Só que, obviamente, poderia haver erros de digitação e, principalmente, erros de contexto.</p>
<p style="text-align: justify">A versão alfa, como potencialmente continha muitos erros, foi enviada apenas a dois amigos (em cujo senso crítico confio) para que eles pudessem me mostrar o que havia de errado com <em>a história</em> ou com <em>a estrutura do texto</em>. As opiniões deles me fizeram reescrever desde pequenas frases e trechos, reorganizar parágrafos e até mesmo reescrever um capítulo inteiro.</p>
<p style="text-align: justify">Depois de ter tomado algumas decisões quanto ao rumo da história e ao modo como ela é narrada, é hora de passar ao polimento final. E dar uma chance a alguns de meus amigos, é claro, de ver o que é o M10 antes que ele chegue a ver a luz do dia.</p>
<h2 style="text-align: justify">Beta</h2>
<p style="text-align: justify">E é aí que você entra. Estou procurando por pessoas interessadas em ler o livro e dar opiniões, dizer o que pensa. Eu não vou mudar o final ou qualquer outra parte, a não ser, é claro, que alguém encontre um sério erro na lógica das coisas &#8212; coisa que eu duvido, porque fui bem cuidadoso e autocrítico e o livro já passou por outros dois crivos =)</p>
<p style="text-align: justify">Se você quer participar disso, envie uma mensagem direta pra mim no twitter (@rev_peterson). Eu sei, já falei com <em>muita</em> gente sobre isso, mas quem quiser <em>vai </em>ter que fazer isso. Por quê? Bem, porque eu vou pedir algumas coisas de quem for um beta-tester:</p>
<p style="text-align: justify">1) Eu estou impaciente e ansioso com ele. Minha vontade é mandá-lo pra revisão final de uma vez e ver ele pronto pra poder gritar &#8220;IT&#8217;S ALIVE!!!!!&#8221; &#8212; mas quero ter precaução =/ Portanto, se quiser ler o livro, <strong>tenha tempo</strong> pra isso. Se você está atolado com trabalhos, provas, estudos, ou mesmo férias, não faça isso, pra não me deixar esperando por um feedback que provavelmente demorará um ano pra chegar.</p>
<p style="text-align: justify">2) Seja crítico &#8212; como disse, o livro está <em>bem</em> pronto, praticamente <em>set in stone</em>. Contudo, seria legal ouvir sugestões do tipo &#8220;talvez essa frase dita nessa hora não combine bem com esse personagem. Você poderia ter dito tal e tal e tal ao invés disso&#8221;. Seria divertido, é por esses detalhes que estou procurando agora =) Além de, ainda, erros de digitação, ortografia e até mesmo gramática.</p>
<p style="text-align: justify">Bom, é isso. Então se você quiser (e puder, como eu falei ali sobre o tempo) me ajudar (e for muito curioso) vou ficar feliz =D Mande a DM. (P.S.: Eu não estou dizendo que vou aceitar todo e qualquer pedido. Não quero <em>muita</em> gente com essa versão por aí, então a prioridade, obviamente, será dos meus amigos. Será um <em>pedido</em>, afer all ;])</p>
<h2 style="text-align: justify">O que eu ganho com isso?</h2>
<p>Gratidão eterna? Éris lhe pague? =P</p>
<p>Brincadeira&#8230; Vocês vão ter o nome no prefácio =) Bom, essa é a parte certeira. A parte incerta é sobre toda a &#8220;dinâmica&#8221; do livro. Não sei como vai funcionar, não sei como vai ser, então não posso ir falando sobre &#8220;uma versão impressa do livro&#8221;&#8230;</p>
<p>&#8230; Mas se rolar algum dia, vocês receberão com autógrafo e tudo, juro =)</p>
<h2>Direct-Message Me</h2>
<p>@rev_peterson <img src='http://orkutcidio.deliriocoletivo.org/wp-includes/images/smilies/icon_wink.gif' alt=';)' class='wp-smiley' /> </p>
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		<title>Devil</title>
		<link>http://orkutcidio.deliriocoletivo.org/2010/01/31/devil/</link>
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		<pubDate>Sun, 31 Jan 2010 06:44:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Peterson Espaçoporto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Deus]]></category>
		<category><![CDATA[diabo]]></category>
		<category><![CDATA[Inglês]]></category>

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		<description><![CDATA[Certo. Então eu estava ali, sentado, esperando. Pelo quê, eu não sei, mas como é que eu vou saber? No fundo, no fundo, estamos sempre esperando que alguma coisa aconteça. Seja pra nos tirar de uma confusão ou pra nos botar em uma.
Aquele bosque do campus, próximo à reitoria, era realmente agradável; uma rótula principal, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Certo. Então eu estava ali, sentado, esperando. Pelo quê, eu não sei, mas como é que eu vou saber? No fundo, no fundo, estamos sempre esperando que alguma coisa aconteça. Seja pra nos tirar de uma confusão ou pra nos botar em uma.</p>
<p>Aquele bosque do <em>campus</em>, próximo à reitoria, era realmente agradável; uma rótula principal, onde sempre ficavam as odiosas e falsamente úteis barracas de pré-vestibulares (durante a época de vestibular) dava origem a alguns metros quadrados de pura grama em frente a um prédio bonito. Pelo que me lembro tem algo a ver com arquitetura, mas sou preguiçoso demais. Pra ir lá olhar e pra tentar me lembrar. Certo, é um defeito, admito. Mas hoje ele está particularmente forte. Todos nós temos esses momentos. <em>Fancy that, reader</em>.</p>
<p>Então, depois dos metros quadrados de grama, há essas mesinhas que dão medo de sentar porque você não sabe quais manchas são chicletes que ainda têm &#8220;poder de grude&#8221;. A maioria já está bem lascada, mas ainda dá pra jogar xadrez ali em cima.</p>
<p>Então ali nos <em>surroundings</em> havia muitas árvores, banquinhos legais e um caminho de cimento separando grama de&#8230; grama. Não me culpe pelo inglês, minha mente funciona melhor assim, misturando as duas coisas. Uma vez ouvi dizer que o diabo falava inglês. Na verdade, seja lá qual foi a lógica por detrás disso, parecia ser meio idiota; um diabo que se preze deveria ser poliglota <em>ao extremo</em>.</p>
<p>De qualquer forma; se era verdade ou não, eu estava prestes a saber.</p>
<p>&#8212; Boa tarde! &#8212; disse-me um homem já grisalho (e obviamente começando a ficar careca), com uma face um pouco alongada e um sorriso comercial. Vestia uma roupa social marrom bem aprumada, uma gravata vermelha, sapatos pretos.</p>
<p>Não entendi a dos sapatos pretos. Na minha cabeça havia algumas poucas regras de vestimenta que via quando pescava alguma coisa aqui e ali e, na minha talvez ignorância, pressupunha que se eu usasse roupa social marrom deveria usar um sapato marrom. Ah, foda-se. Eu não costumo usar essas roupas em lugares em que as pessoas dariam importância pra isso.</p>
<p>&#8212; &#8216;Tarde &#8212; falei, distante.</p>
<p>&#8212; Eu acredito que eu possa ser útil &#8212; disse ele, com o rosto um pouco inclinado pra baixo, fazendo os olhos parecerem maliciosos. O sorriso nunca esteve tão solícito. Parecia um gato mostrando os dentes pra um rato, só que era um pouquinho mais humano. Ah, esquece. Que descrição foi essa? Eu acho que nunca vi pessoalmente (e com atenção) um gato mostrando os dentes pra um rato. Mas foi isso que me lembrou.</p>
<p>&#8212; Olha, não vou comprar nada&#8230;</p>
<p>&#8212; Mas você nem sabe o que eu tenho pra oferecer!</p>
<p>&#8212; Tô sem dinheiro.</p>
<p>&#8212; Ah! Isso não é problema&#8230; &#8212; eu olhava, viajão, para a atmosfera à minha frente. Ao dizer essa última frase o pobre diabo (que, afinal de contas, aparentava não ser tão pobre assim) deslizava mais para o lado de um modo esquisito, pra que ele ficasse dentro do meu campo de visão, ocupando quase toda a atmosfera para a qual <em>eu</em> estava olhando.</p>
<p>Eu não gostei do jeito invasivo dele. Era a <em>minha</em> atmosfera. Fiquei irritado. Mas, como um bom preguiçoso, continuei a observar ali, tranquilo, ouvindo uma música relativamente calma no meu iPod de tela rachada. Fiquei com vontade de aumentar bastante o volume pra mais eficientemente ignorá-lo. Quem sabe eu não ficasse surdo e então não precisava nem fingir. Hmm não, consequências demais&#8230; Talvez ele fosse embora facilmente.</p>
<p>&#8212; Olha, sai daqui, cara&#8230; &#8212; disse eu, parecendo, na verdade, meio deprimido. Acho que não daria certo. E não deu.</p>
<p>&#8212; Ah, você não quer que eu saia daqui&#8230; &#8212; Ok, agora ele estava irritando com aquela feição que dizia &#8220;seu safado&#8221;, só que sem as conotações sexuais implícitas na palavra safado &#8212; Eu posso te dar tu-do que você quiser.</p>
<p>&#8212; <em>Ahm</em>, olha&#8230; Eu não sou gay &#8212; depois da última frase deixei de considerar que não haviam conotações na palavra &#8220;safado&#8221;.</p>
<p>&#8212; Sim, eu sei que não&#8230; Na verdade, eu sei <em>tudo</em> sobre você. <em>HA</em>! Como eu não saberia, sendo quem sou! &#8212; ele abria os braços, fazendo cena, ainda que não houvesse plateia alguma ali.</p>
<p>Aliás, eu olhei em volta, discretamente. Não havia <em>ninguém</em> mesmo.</p>
<p>&#8212; <em>Mamãe</em>? &#8212; eu realmente me esforcei no sarcasmo.</p>
<p>&#8212; <em>Call me</em> <em>daddy</em> &#8212; ZEUS, de onde <em>aquilo</em> tinha saído? Iate Casablanca?</p>
<p>&#8212; Ahm&#8230; Não, desculpa.</p>
<p>&#8212; Não me reconhece? &#8212; ele inclinou o rosto pro lado, agora. Suas expressões eram como cartas de um baralho; eram mecânicas, prontas, praticamente ensaiadas. Ele achava que eu era quem, uma criança?</p>
<p>&#8212; Não.</p>
<p>&#8212; Talvez porque não nos conhecemos. Ainda. Prazer, Diabo.</p>
<p>&#8212; Eu não me chamo Diabo.</p>
<p>&#8212; Mas <em>eu </em>me chamo&#8230;</p>
<p>Bem, foi nesse momento em que eu resolvi que ou ele estava falando a verdade ou não. Como ele falava inglês, e o fato de ele estar mentindo me colocava num leque de possibilidades muito maior, decidi assumir que ele estava falando a verdade, só um pouquinho. Se ele demonstrasse (mais) ser um louco, o leque subsequente ao &#8220;ele está mentindo&#8221; diminuiria bastante e então eu me sentiria confortável nele.</p>
<p>&#8212; Prazer senhor Diabo, o que eu posso fazer pelo senhor?</p>
<p>&#8212; Oh, nada, meu jovem, mas obrigado! Eu é que posso fazer por você.</p>
<p>&#8212; Espera, só um pouquinho, preciso fazer uma pergunta antes, é&#8230; Por que ser tão clichê?</p>
<p>&#8212; Como?</p>
<p>&#8212; É, clichê.</p>
<p>&#8212; Ora, eu&#8230; Achei que isso fosse apropriado. Clichê não seria eu ser metade bode, ou ter chifres e coisas assim?</p>
<p>&#8212; Não, isso não é clichê, isso é clássico. Você tá usando uma gravata vermelha e parece um empresário rico que não tem tempo pra família. E você é a cara do House, aquele da televisão. Isso é muito clichê pra um diabo. Não, pior! Você tem a <em>cara</em> do House, mas parece mesmo aquele diabo daquela série, como é mesmo o nome&#8230;</p>
<p>&#8212; Reaper?</p>
<p>&#8212; ISSO! Reaper.</p>
<p>&#8212; Ah, você me pegou&#8230; Eu gosto dessa ideia de que o Diabo gosta de vermelho e é um empresário experiente que não tem tempo pra família.</p>
<p>&#8212; Você não gosta de vermelho?</p>
<p>&#8212; Na verdade, não.</p>
<p>&#8212; E de que cor você gosta?</p>
<p>&#8212; De&#8230; É&#8230; &#8212; ele desviou um pouco o olhar, fez mais algumas caras prontas de confusão mental e desviou também o assunto &#8212; Não vem ao caso. Bom, o que eu tenho pra lhe oferecer é&#8230;</p>
<p>&#8212; O mundo?</p>
<p>&#8212; Cala a boca, PORRA! &#8212; eu fiquei com medo. Ele tinha de repente arregalado os olhos e falou comigo como se fosse&#8230; Sei lá o que ele parecia, mas parecia irritado &#8212; Eu tava falando, que MERDA!</p>
<p>Eu estava assustado, e começava a achar que o cara era louco, mas louco <em>mesmo</em>, daqueles estágios irreversivelmente psicóticos e que a qualquer hora ele tiraria um canivete de dentro do bolso interior do terno e me atacaria ali mesmo, na frente de&#8230;</p>
<p>Bem, não havia ninguém ali mesmo. <em>Merda, merda, merda</em>.</p>
<p>Ou seria pior. Uma vez não me deixaram entrar no cinema com latinhas de refrigerante porque são &#8220;objetos cortantes&#8221;. Perigo em potencial. Mas, caralho, quem vai matar alguém com uma latinha de alumínio? De repente me vi morto, sangrando ali no chão, e o tal Diabo fugindo da cena com uma latinha de Pepsi na mão. Pensei em perguntar se ele preferia Pepsi ou Coca, mas o pensamento passou pela minha mente realmente <em>muito </em>rápido, muito rápido mesmo. Não dava pra se preocupar com aquilo naquele momento.</p>
<p>&#8212; Bem&#8230; Como eu ia dizendo &#8212; ele agora estava bem mais calmo, sereno, praticamente um professor. Professor bom, é claro. Mudanças súbitas de humor. Ou grande capacidade de dissimulação&#8230; Que o diabo era bom ator era fato conhecido, mas <em>bipolar</em>? &#8212; eu sei qual é o desejo mais <em>profundo</em> do seu coração.</p>
<p>&#8212; É? E-e qual é? &#8212; Eu ainda estava tenso, mas isso deu lugar à curiosidade. Sou preguiçoso e curioso. Uma merda, se quer saber, porque as duas coisas vivem entrando em conflito. Bem, de qualquer forma: essa eu queria ouvir.</p>
<p>&#8212; É&#8230; <em>Conhecer alguém</em>.</p>
<p>Agora ele tinha apertado meus testículos conceituais. Era <em>verdade</em>.</p>
<p>&#8212; Conhecer alguém! Você desesperadamente deseja conhecer alguém que seja tão.. Tão ligado à natureza quanto você, mas ao mesmo tempo tão leve, distraído e cheio de significado! Não em si, mas, bem, a <em>pessoa</em> deve significar algo pra você!</p>
<p>&#8212; Sim, sim! &#8212; Poxa, eu estava tocado. Ele havia recuado e agora bailava numa quase valsa à minha frente, com os braços abertos e os olhos para o céu, explicando tudo.</p>
<p>&#8212; Alguém que não se importasse demais com os seus defeitos, mas os considerasse parte de seu caráter, porque <em>só você sabe </em>o quanto você é desejoso de fazer o <em>mesmo</em>! Ela teria que ser do sexo feminino, obviamente, e ser gostosa, mas jamais magrela, além de gostar do <em>The Subways</em>, que é a banda que está tocando no seu iPod agora!</p>
<p>&#8212; Olha, eu tenho cartão de débito aqui, e&#8230; Bem, quanto isso vai me custar?</p>
<p>&#8212; Então você <em>realmente </em>quer? Veja, eu <em>só comecei a </em>descrição, mas ela fica melhor. Eu posso vê-la na minha mente <em>prontinha</em>.</p>
<p>&#8212; Porra, é claro, manda aí! &#8212; eu sorria, bobo &#8212; <em>Yay</em>&#8230; Acho que só pode ficar melhor, né?</p>
<p>&#8212; Bom, calma, não é assim <em>tão simples</em>, <em>haha</em>! Manda aí&#8230; &#8212; aquele jeitinho dele parecia até simpático, rapaz &#8212; Olha, preste <em>muita atenção </em>no que eu vou te dizer&#8230;</p>
<p>E então ele se sentou ao meu lado, e sua mão esquerda voltou de uma curta passada pelas próprias costas &#8212; coisa de um ou dois segundos enquanto ele se sentava &#8212; carregando uma cartola preta. Opa, bom truque. Legal, gostava de impressionar, ele. Eu tava cagando e andando pra cartola, é claro. <em>Come on, let&#8217;s make a deal</em> <em>at once</em>.</p>
<p>&#8212; Bem, o que você procura chama-se&#8230; <em>Amor de Verdade</em>. Também é conhecido como &#8220;Amor Verdadeiro&#8221;, e o nome científico eu não sei, mas, veja, você não quer apenas <em>Amor de Verdade</em>, quer que ele venha personalizado com sorte. E silicone se não tiver sorte o suficiente.</p>
<p>&#8212; Não, não, sem silicone &#8212; Fui firme.</p>
<p>&#8212; Ah, ótimo, isso facilita um pouco&#8230; Eu tinha me esquecido das suas preferências por um instante! &#8230; Bem, a questão é que eu posso cuidar da sorte, mas não posso fazer muito pelo Amor Verdadeiro. Veja, vou te dar uma lista dos lugares que você deve visitar&#8230; &#8212; ele escrevia com uma rapidez sobrenatural em um bloquinho bege que ele tirou de dentro do terno &#8212;  &#8230; Dos perfumes que pode usar&#8230; Marcas.. E tipos.. de desodorantes a evitar&#8230; E também certas frases feitas que você <em>definitivamente não vai querer usar</em> &#8230; É claro que isso é só o começo e não quer dizer muita coisa a não ser que você esteja disposto a passar por algumas coisas que precisa admitir&#8230;</p>
<p>&#8212; Espera, espera, espera&#8230; Espera aí&#8230; Eu achei que você fosse trazer a mulher aqui ou.. Criar ela do nada, e aí fazer ela se apaixonar perdidamente por mim e&#8230;</p>
<p>&#8212; Criar ela<em> do nada</em>? <em>Fazer </em>ela se apaixonar por você? São <em>mulheres</em>, não universos ou cachorros, ficou <em>maluco</em>?  &#8212; De repente eu pensei que eu devia estar mesmo. Onde foi parar minha sanidade? Eu estava segurando meu cartão de débito na mão, <em>for Christ&#8217;s sake</em> &#8212; Meu amigo, você está confundindo sorte com milagres! Sabe o que são milagres?</p>
<p>&#8212; É-é o improvável acontecer!</p>
<p>&#8212; Não, caralho, isso é SORTE! Sorte, sorte, <em>sorte</em>! Pessoas não morrem em tragédias por causa de sorte, pessoas deixam de entrar em aviões que caem por causa de sorte, pessoas não perdem parentes por causa de sorte, pessoas ganham na loteria por causa de sorte, e <em>sempre</em> a subestimam! Que <em>raio</em> de humildade! Milagres são o <em>impossível</em> acontecer!</p>
<p>Eu entendia, mas não queria entender. Que péssimo vendedor; ele estava me deixando irritado.</p>
<p>&#8212; Escuta, eu posso te dar sorte&#8230; Posso mesmo. Quer dizer, é o máximo que você pode pedir. Se você gosta desse negócio de ficar sentado esperando as coisas acontecerem&#8230; Humpf&#8230; Tá falando com o cara errado. Não sou bem eu que faço milagres, <em>kid</em>.</p>
<p>&#8212; Então&#8230; Então <em>existe</em> um Deus?</p>
<p>&#8212; Um, dois, três. Ou mais. Mas garanto que eu não fico brincando de <em>War</em> com eles o dia todo. Eu tenho mais o que fazer.</p>
<p>&#8212; Hum. Isso explica muita coisa.</p>
<p>&#8212; <em>Oh hell it does</em>. Isso tudo é intriga da oposição; você é um garoto inteligente, deve saber&#8230; Não há nada de errado com quem precisa de uma ajuda e prefere <em>fazer as coisas acontecerem</em>. Mas tem gente que se ofende. Vai entender&#8230;</p>
<p>&#8212; Escuta, é&#8230; Você não vai me cobrar os olhos da cara ou outras coisas.. &#8220;Extracorpóreas&#8221; por tudo isso que você me falou, né? Porque não deve ser à toa que te chamam de advogado, então já vou dizendo&#8230;</p>
<p>&#8212; Não, não, imagina, quê isso&#8230; Vai querer a sorte e os conselhos ou não?</p>
<p>Naquele momento fiquei realmente pensando se precisava dessas coisas. Depois de uma experiência louca como essa &#8212; e que merda, ninguém pra testemunhar ainda! Que diabo de dia mais esquisito! Havia alguma mega festa universitário-dionisíaca ou algo assim? <em>Cadê os estudantes</em>? &#8212; fiquei pensando é que talvez precisava reavaliar minhas crenças pessoais, meu guarda-roupa e principalmente minhas prioridades na vida.</p>
<p>&#8212; Acho que não.</p>
<p>&#8212; <em>Humm&#8230;</em> Você tem certeza? Um pouco de sorte não faz mal a ninguém.</p>
<p>&#8212; Mas&#8230; Sorte é como algo que você tem ou não tem ou é algo que você pode ter mais ou menos?</p>
<p>&#8212; Ah, sorte há muita no mundo, não se preocupe com a falta dela. O que estou oferecendo é um pacote extra de sorte e serviços de manutenção, só pra evitar eventuais vazamentos, sabe como é.</p>
<p>&#8212; Entendo&#8230; Bem, nesse caso, acho que não vou querer não.</p>
<p>&#8212; E o que vai fazer? Sentar e esperar?</p>
<p>&#8212; É&#8230; Mas talvez por outra pessoa. Acho que posso tentar ser mais realista&#8230; Pode me fazer bem.</p>
<p>&#8212; Certo&#8230; Bem&#8230; &#8212; ele estava se levantando pra ir embora &#8212; Creio que pode começar deixando de acreditar em Diabo, não? Hehehe&#8230; &#8212; e com aquela risadinha seca, assumindo agora uma identidade psicológica mais idosa, foi andando devagar rumo à rótula do campus logo à frente.</p>
<p>&#8212; Ei, Diabo &#8212; disse, chamando sua atenção depois que ele havia andado um pouco &#8212; por que você fala inglês?</p>
<p>Ele se virou e, permitindo-se um último sorriso &#8212; dessa vez mais sincero, natural, mas nem por isso menos enigmático, disse:</p>
<p>&#8212; Ah, por favor&#8230; Todo mundo que tem boas intenções fala inglês.</p>
<p>E virou-se, mais uma vez, desaparecendo logo depois como um fantasma. Fiquei impressionado, embora achasse que um efeito de neblina seria muito mais interessante.</p>
<p>Olha lá o filho da puta&#8230; Lá vem um estudante. Engenharia, é? Bota o adesivo na pasta, vai. Eu sei que o vestibular é um parto mesmo. Ainda assim: só aparece agora, um desgraçado. E chega de The Subways, maldito <em>repeat</em>. Querer uma mulher que ouça U2 é aceitável. E definitivamente mais simples.</p>
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		<title>Quase Natal</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Jan 2010 05:45:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Peterson Espaçoporto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção]]></category>
		<category><![CDATA[Pra ler]]></category>

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		<description><![CDATA[(Dedicado à @julifuhrmann)
Era uma madrugada quente de janeiro. Sentado na varanda da casa rústica no sul do estado, ouvindo o barulho típico dos grilos e outros bichos esquisitos, estava o casal. Nenhuma situação muito romântica; era apenas&#8230; Neutra.
Ela observava o milharal à frente da casa, no terreno do pai do namorado. Ele ora lançava olhares [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify">(Dedicado à <em>@julifuhrmann</em>)</p>
<p style="text-align: justify">Era uma madrugada quente de janeiro. Sentado na varanda da casa rústica no sul do estado, ouvindo o barulho típico dos grilos e outros bichos esquisitos, estava o casal. Nenhuma situação muito romântica; era apenas&#8230; Neutra.</p>
<p style="text-align: justify">Ela observava o milharal à frente da casa, no terreno do pai do namorado. Ele ora lançava olhares furtivos ao corpo dela, ora lançava olhares poéticos para o céu. No primeiro caso, não sentia nada de específico ao fazê-lo; era pura contemplação, momento tão raro. Gostava de olhar por olhar, e fazer os olhos irem e virem na perna destapada pelo short jeans, como que lendo uma palavra grande e confusa várias vezes, ou mesmo olhando pra um aquário muito extenso, num espaço de tempo lento e sem som algum. No segundo caso, sentia a esperança boba de achar uma estrela cadente. É claro que isso não aconteceria. Nunca tinha visto uma, sempre achou péssimos os efeitos especiais de filmes que simulavam uma e tachava (apenas pra si mesmo, numa nota mental) de mentiroso qualquer um que dissesse que havia visto uma.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Milho não te dá medo?</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Quê? &#8212; disse ele, rindo, acordando de suas ilusões bobo-contemplativas.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; O milho é quase um personagem principal das histórias de terror de fazendas. Se tem um monstro ou bicho ou espírito, e a história é numa fazenda, a fazenda vai ser de milho!</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Mas é porque milho é só o que eles plantam nos Estados Unidos.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Quê? Claro que não! &#8212; disse ela, cética e risonha.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Claro que é! Por isso que em qualquer filme o milho é o personagem principal. Milho é tipo o Capitão América pros americanos.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Então não é nada, né? Porque o Capitão América é <em>muito</em> chato.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Chato? &#8212; ria ele, fazendo ela rir em resposta &#8212; Por quê chato?</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Ah, pára. Você já perguntou pra alguém <em>Ei, e aí, qual é o teu super-herói preferido? </em>E aí te responderam <em>Capitão América!</em>?</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Não, mas aqui ninguém dá a mínima pra ele mesmo&#8230; Mas eu nunca perguntei isso pra um americano!</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Que americano seria idiota pra gostar de Capitão América?</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Por que essa implicância com o Capitão América?</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Porque ele é ridículo, ele é tosco! É como a gente gostando do Zé Carioca porque ele é o brasileiro que foi morar na Disney! Foda-se o Zé Carioca, ele é muito chato!</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Olha, na verdade&#8230; Nem tem nem diferença! Todos os heróis são muito parecidos, e os personagens de desenho animado também são&#8230;</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Ah, <em>não são não</em>&#8230;</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Claro que são! Quer ver? Pega uma história do Zé Carioca.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Hum.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Agora tira o papagaio e bota o Pato Donald ali. Duvido se você não vai se matar de rir.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; <em>Nada</em> a ver! Se for o Pato Donald eu vou ficar imaginando ele falando com aquela voz dele, e <em>aí</em> eu vou rir.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Você <em>imagina</em> a voz deles no gibi?</p>
<p style="text-align: justify">Ela olhou pra ele com uma cara que misturava decepção e sarcasmo.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Que foi? &#8212; perguntou ele.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Tá falando sério?</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Sim, ué. Ah, é que você sabe, eu leio gibis passando muito rápido, todos os personagens têm meio que&#8230; Vozes parecidas, de acordo com o estereótipo.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Bem coisa de quem não lê HQ mesmo &#8212; e ela voltou a ficar de frente pra plantação, olhando o vento fraco mexer uma ou outra planta.</p>
<p style="text-align: justify">Depois de uma pausa que não foi desconfortável porque ele já estava gastando seu tempo rindo, por dentro, da conversa com um fim potencialmente desconfortável, ele resolveu retomar a conversa:</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Filmes japoneses ou outras coisas assim de terror não têm milho.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Filmes orientais de terror são <em>urbanos</em>, se passam na <em>cidade</em>. É óbvio que não têm milho.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Mas se passassem na fazenda, não teriam milho também. Isso é coisa de americano.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Amor&#8230; Têm fazendas no Japão? &#8212; perguntou ela. Os dois começaram a rir com sorrisos abertos, sinceros, ainda que não gargalhassem; olhavam um para o outro e alguma coisa forçava a boca deles a continuar aberta. Ela tinha bebido um pouco e era um pouco visível que ela não estava muito no controle dos músculos faciais.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Uma vez &#8212; começou ele, ficando de lado na cadeira pra olhar reto pra ela &#8212; eu ouvi uma história, uma lenda aqui da região, sobre um assassinato.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Como é &#8212; ela, um pouco mais desajeitada, foi rolando até ficar de bruços.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Assim você me desconcentra &#8212; comentou ele, fazendo ela rir. Desconcentrava mesmo.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Desculpa, mas agora eu tô a fim de ouvir a história &#8212; ela virou de lado, interessada &#8212; <em>concentra.</em></p>
<p style="text-align: justify"><em>&#8212; </em>Tá, pra resumir&#8230;</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; <em>Não</em>! &#8212; os dois riam da safadeza &#8212; Se não for a versão sem cortes, eu vou cortar outra coisa na nossa programação, querido&#8230;</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Tá, tá&#8230; Bem, era uma vez um homem..</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Não, pera&#8230; Era uma vez?</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Tá, mas&#8230; Como é que você quer que eu comece?</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; De um jeito criativo. <em>Surpreenda-me</em> &#8212; ela estreitou os olhos pra ele, que pôs a cabeça pra funcionar. Não querendo se estender muito, falou a primeira coisa que surgiu à sua mente:</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Era uma noite quente de verão&#8230;</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Pronto, agora vai &#8212; ela estava séria. Não gostava dos risinhos típicos que quebravam o clima das histórias de terror.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Ok. Era uma noite quente de verão, e a cidade estava apinhada de turistas. Todos vieram atrás das odiosas casas baratas que você consegue encontrar ali na praia da Teresete.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; A gente conhece o tipinho.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; É. Então&#8230; Isso foi em Dezembro ainda, segundo o que me disseram. Era quase natal, e as lojas faziam aquelas promoções típicas. Mas não havia nada de típico quanto ao vendedor de uma das lojas, que naquela noite resolveu cometer um <em>assassinato</em>.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; E foi matar quem?</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; O próprio irmão&#8230;</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Uau&#8230; Por quê?</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Ninguém sabe; na época todos disseram que eles tinham uma <em>ótima</em> relação, nunca foram vistos brigando feio, etc etc etc. Ninguém conseguiu entender o motivo.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Então pegaram ele mesmo?</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Não, não! O legal da lenda é que não pegaram, se pegassem teriam descoberto o motivo.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Ou não&#8230; Vai, continua.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Bem&#8230; O caso é que a lenda é justamente uma lenda porque é a explicação que há por aí pro desaparecimento desse irmão do vendedor. O vendedor se chamava Renato, e o irmão, Odílio.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Odílio foi o que desapareceu?</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Sim. Do dia pra noite, ou melhor; da noite pro dia. Sem deixar rastros. A última vez que foi visto foi entrando na loja em que o irmão, o Renato, nosso assassino hipotético, estava trabalhando até tarde da noite, arrumando o estoque, essas coisas.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; E aí ele matou o irmão lá dentro da loja?</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Sim. Dizem que foi com uma faca; ninguém ouviu gritos, ninguém ouviu tiros, ninguém ouviu nada. Mas fato é que Odílio nunca mais saiu de lá com vida.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Mas então ele <em>saiu</em> de lá?</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Ah, saiu. Saiu, ficou na frente da loja por uma ou duas semanas e então foi embora de novo&#8230;</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; C-como assim?</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Aí começa a lenda. Quer dizer, já começou antes, mas aí vem a parte boa dela. O que dizem é que Renato viu o que tinha feito com o irmão e agora não sabia o que fazer com o corpo. Foi aí que ele viu o Papai Noel gigante que a loja tinha comprado pra colocar na frente da loja, sabe, essas coisas que os lojistas acham que vai atrair mais compradores e coisa e tal&#8230;</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Sei, sei.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Então: o Papai Noel era tipo <em>actual size</em>, sabe? Cabe uma <em>pessoa</em> ali dentro.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Ah, <em>tá brincando!</em></p>
<p style="text-align: justify"><em>&#8212; </em>Não&#8230; Renato fez um corte nas costas dele, que iam ficar viradas pra uma poltrona de qualquer jeito, tirou o enchimento do boneco, <em>jogou</em> o corpo do Odílio ali dentro e costurou tudo de novo.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Caramba&#8230;</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Sim. Aí limpou todo o sangue, se livrou das provas maiores e lá ficou o Papai Noel, na frente da loja, dia após dia&#8230; Depois que acabou o Natal, ele mesmo se encarregou de tirar a decoração. E <em>enterrar</em> o Papai Noel.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Nossa&#8230; &#8212; A história teve um efeito que nenhum deles, tão acostumados a ouvir e a contar essas histórias, esperavam. O ambiente ficou mais pesado; o quente e opressor ar parecia não mais fazer daquela noite uma noite agradável, e tudo ali fora meio que sugeria <em>perigo</em>. O quase silêncio (malditos grilos) também não ajudavam.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Eu acho que eu vou dormir&#8230; &#8212; comentou a garota, no mesmo instante em que uma pick-up estacionava em frente à propriedade. Era Márcio, um amigo que tinha vindo junto passar o feriadão por ali.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; E aí Márcio&#8230; Cadê o Joel? &#8212; Joel era o irmão dele.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Foi, ah&#8230; Dormiu. Na casa de uma amiga.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Que amiga?</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Acho que ele conheceu hoje &#8212; disse ele, dando uma risadinha que se estendeu ao longo da frase.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; O que é aquilo ali dentro do carro?</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Isso aqui? &#8212; perguntou ele, apontando com o polegar pro lado; no espaço atrás dos bancos da frente havia algo parecido com uma pessoa ali, vestindo uma roupa vermelha; os vidros estavam um pouco sujos, então não dava pra ver direito &#8212; É só, é&#8230; Uma fantasia que eu aluguei pra festa a fantasia da terça.</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; Ah, legal. Do que você vai?</p>
<p style="text-align: justify">&#8212; P-Papai Noel &#8212; respondeu ele &#8212; Mas não sei, talvez eu.. Vou alugar outra ainda. Uma melhor.</p>
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		<title>Diferente</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Jun 2009 03:46:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Peterson Espaçoporto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>

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		<description><![CDATA[(crônica escrita para um concurso literário há um mês, mais ou menos)
Eu queria ter a doença do igual – ou talvez seja melhor dizer doença do diferente. Do um só. O diferencismo, a diferentite.
Jornalistas, médicos, biólogos, astrólogos, ficariam todos embasbacados comigo. Mas de um jeito diferente, é claro; eu não reconheceria igualdades. Cada um com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;font-weight: normal" align="justify"><em>(crônica escrita para um concurso literário há um mês, mais ou menos)</em></p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;font-weight: normal" align="justify">Eu queria ter a doença do igual – ou talvez seja melhor dizer doença do diferente. Do um só. O diferencismo, a diferentite.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;font-weight: normal" align="justify">Jornalistas, médicos, biólogos, astrólogos, ficariam todos embasbacados comigo. Mas de um jeito diferente, é claro; eu não reconheceria igualdades. Cada um com sua “embasbaquez”. Me entrevistariam, me perguntariam: como é ter diferentite? Eu diria que não há nada igual.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;font-weight: normal" align="justify">Professores de Matemática tentariam, inutilmente, me ensinar equações, mas eu jamais conseguiria entendê-las.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;font-weight: normal" align="justify">- É 2, querido, é 2! 2 igual a 2, tá 	vendo?</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;font-weight: normal" align="justify">- Mas eles não parecem iguais! Eu não 	entendo!</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;font-weight: normal" align="justify">Minha mente apelaria para os mais variados artifícios pra não reconhecer a igualdade. Caligrafia diferente, tamanhos minimamente distintos. Cores, posições, temperatura do pedaço de papel – diferentes, diferentes, diferentes!</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;font-weight: normal" align="justify">Eu teria sérios problemas sociais. Igualdade de direitos? Não, são diferentes, não são os mesmos. Não entenderia. Elevados graus de semelhança me deixariam confuso; eu seria o míope da realidade, teria a aneuploidia da analogia.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;font-weight: normal" align="justify">Eu nunca teria uma sensação igual à outra, pensem bem; ou pelo menos assim eu sentiria. Jamais trataria um como só mais um. Cores teriam tanto contraste que se predadores tivessem isso, os dias de camuflagem como arma de defesa estariam contados.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;font-weight: normal" align="justify">Mas não. Infelizmente, continuo aqui na minha normalidade; cromossômica, congênita, social. Eu vejo tudo igual. É igual; o passado é igual ao futuro, e aquelas pessoas que detesto, todas iguais umas às outras, farinha do mesmo saco, são elas igualmente detestáveis. Não vejo diferença entre uma pessoa e outra, até mesmo eu; presos, todos, ao resumo, à síntese, ao prático.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;font-weight: normal" align="justify">Queria eu ser diferente.</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Profissionalismo</title>
		<link>http://orkutcidio.deliriocoletivo.org/2008/09/30/profissionalismo/</link>
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		<pubDate>Tue, 30 Sep 2008 10:55:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Peterson Espaçoporto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho]]></category>
		<category><![CDATA[vida]]></category>

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		<description><![CDATA[Maurício era uma pessoa comum. Tomava café, comia carne, visitava o orkut. É claro que isso não o tornava medíocre; não há nada de errado em ser uma pessoa comum.
Maurício tem até mesmo um trabalho. Um trabalho que, hoje ele vê, não tem nada de muito especial. Hoje ele vê seus horários de trabalho como [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify">Maurício era uma pessoa comum. Tomava café, comia carne, visitava o orkut. É claro que isso não o tornava medíocre; não há nada de errado em ser uma pessoa comum.</p>
<p style="text-align: justify">Maurício tem até mesmo um trabalho. Um trabalho que, hoje ele vê, não tem nada de muito especial. Hoje ele vê seus horários de trabalho como obrigações cinzentas, meros processos, meras rotinas pelas quais ele têm que passar. Nunca a etimologia da palavra lhe foi tão verdadeira; o tripalium podia não maltratá-lo violentamente, mas afinal, as coisas que irritam são piores que as que fazem sofrer.</p>
<p style="text-align: justify">Nunca foi uma vida extremamente aprazível, vá lá, sua infância foi ok, mas oh lord, nunca foi tampouco assim, <em>shitty</em>. Ele olha para a sala mal iluminada &#8211; coisa chique, coisa chique &#8211; com um pouco de desprezo. O quadro de flores da tia, que não lhe desperta emoção alguma; as suficientemente suntuosas cadeiras, a coziha com lava-louças. O carro bom na garagem. Ele teve vontade de jogar a taça de vinho no chão e fazer cara de nojo profundo, como nos filmes. Mas não fez nada. É só uma inquietação, não dê uma de babaca &#8211; pensava.</p>
<p style="text-align: justify">Tudo começou quando ele era uma criança. Curioso, parece que tudo sempre começa quando se é criança, mas neste caso nada começou na infância. Maurício nunca teve nenhum problema com a morte. Bom, as crianças não têm muita dimensão dessas coisas mesmo, mas enfim. Medo, talvez; ele temia tudo além de seu entendimento, mas não o suficiente pra não chegar perto. Pra não rondar. Rondar. Essa é a palavra, talvez. Ele está sempre por perto desses mistérios que o assombram. Não é capaz de deixar pra lá, esquecer essas coisas, fingir que não estão ali.</p>
<p style="text-align: justify">Nunca teve nojo nem horror de saber que somos de carne e osso. Seus olhos brilhavam ao admirar a anatomia humana; não tinha receio de fazer exames de sangue e observava prazeirosamente ossos, músculos, sangue. Empolgou-se ao dissecar sapos, ratos, pombas. Sentia frio na espinha quando ficava no escuro; continuava assitia filmes de terror, however.</p>
<p style="text-align: justify">Quis fazer medicina, mas o seu futuro mostrava-se bem distante de suas aspirações mais secretas. Suas aspirações eram brutas e irracionais; um misto de sensações complexas que não se &#8220;acendiam&#8221; com a possibilidade da medicina. Que nobre, que nobre; salvar vidas, curar doentes. Que chato, que desgastante também. Horas, horas, dias de estudo, trabalho mortificante. A medicina mata, dizia um amigo. No mínimo quem quer entendê-la. Ele queria sangue, queria. Trabalhar com anestesias, desfibriladores, bisturis &#8211; mais particularmente esse último. Vivia dizendo que adoraria trabalhar numa casa mortuária, só pra assustar os amigos. Tolinhos.</p>
<p style="text-align: justify">Nunca foi muito violento. Embora sua expressão carrancuda e seu físico ligeiramente avantajado inspirasse algum medo em quem não o conhecia, ele era amigável e nunca se envolveu com pessoas <em>de fato</em> violentas. &#8220;Porradas&#8221;, &#8220;chutes&#8221;, &#8220;voadeiras&#8221; &#8211; que coisa mais vulgar. Até armas de fogo lhe pareciam chatas, idiotas, coisa de gente pequena.</p>
<p style="text-align: justify">Sua grande chance, aparentemente, surgiu enquanto cursava o terceiro ano. Um estágio numa agência de serial killers. Uma das maiores do estado. Compareceu à entrevista; trêmulo, tenso, confuso. É uma grande carreira, é claro; uma vida promissora à frente e um calorzinho em algum lugar ao longo do esôfago o levaram a tentar. Por que não, afinal?</p>
<p style="text-align: justify">Jamais imaginara que poderia realmente fazer aquilo. É mais ou menos como ser astronauta, ou escritor famoso, ou mesmo músico famoso. É literalmente um universo famoso. São profissões relativamente comuns &#8211; com a exceção dos astronautas &#8211; e que são exercidas por pessoas, pessoas como todo mundo, não por semideuses. É claro que é necessário talento, mas mesmo pessoas talentosas caem na desgraça de não se acharem capazes. É mais ou menos o que acontece com a quase &#8216;astronáutica&#8217; profissão de serial killer.</p>
<p style="text-align: justify">Poderia ele ser um serial killer? Adolescência é mesmo a época em que se fará tudo que a pessoa já sabia que faria um dia, mas nunca pensou a sério sobre.</p>
<p style="text-align: justify">A entrevista correu bem, e na outra semana ele foi chamado.</p>
<p style="text-align: justify">- Meu nome é Maurício.</p>
<p style="text-align: justify">- Oi Maurício, meu nome é Paulo. Bem, hm, bem-vindo! Aquela ali é a Samara, (&#8221;fazer piadinha com meu nome é um dedo a menos&#8221;) um doce de pessoa. Aquele ali é o Marcos&#8230;</p>
<p style="text-align: justify">E assim Maurício foi com seu chefe conhecer todo o staff. Logo no primeiro dia organizou um bagunçado arquivo de vítimas de 2003. Nada muito interessante, mas tudo bem. Ele teve o prazer de ver Samara chegando quase no fim do expediente, contando como foi legal o trabalho do dia. Ele ficou com um pouco de medo dela, mas no fim acabou rindo, no ônibus de volta pra casa, imaginando as cenas com as informações que pescou nos relatos.</p>
<p style="text-align: justify">E o tempo foi passando; ele se decidiu pela biologia e passou a ser um empregado permanente da empresa. Fazia sua burocracia com excelência, o que agradava Paulo, mas não Maurício.</p>
<p style="text-align: justify">Então um dia Samara pediu as contas. Com menos pessoal, todos passaram a trabalhar mais. Algumas semanas depois, à base de muitas conversas sutis e falsas gentilezas, Maurício foi promovido &#8211; mas não tão rápido; era, agora, aprendiz. Acompanharia os serviços de Fernando.</p>
<p style="text-align: justify">No campo, com a mão na massa, Maurício foi aprendendo que o trabalho era um pouco diferente daquilo que ele imaginava. Era um pouco tedioso, fosse porque Fernando era curto demais, objetivo demais, fosse porque envolvia, às vezes, uma briga forçada pra provocar o assassinato na forma de legítima defesa. Coisas da lei.</p>
<p style="text-align: justify">Maurício, carregando e ligando com os corpos e recebendo treinamento técnico de Fernando, chegava em casa exausto depois da faculdade. Dores de cabeça, dores no corpo; não tinha tempo pra mais nada.</p>
<p style="text-align: justify">Depois de um tempo o dinheiro começou a apertar. Sua faculdade era paga; vivia sozinho mas se mantia com a ajuda dos pais, que se tornava cada vez mais algo incômodo pra ele. O filho já tinha sonhos, aspirações; queria uma casa própria, eventualmente um carro próprio, o último iPod, uma jaqueta de couro tão cara quanto a de Marcos, que a usava em assassinatos especiais. Queria, queria, queria. Como e quando conseguiria, se dependia do dinheiro dos pais até mesmo pra comer?</p>
<p style="text-align: justify">Maurício passou a trabalhar independentemente. Comemorou numa reunião simples com a família, que acabou em briga. O pai pressionava; quando é que ele teria uma mulher, uma companheira, namorada que fosse? A vida tem que ser aproveitada, dizia ele. O recém serial killer conhecia algumas garotas interessantes. Teve três ou quatro namoradas, mas nada muito durável. Saiu de lá com gosto de champagne na boca, ainda que amargo. Mesmo sozinho, não chorou. Achava teatral demais chorar no ônibus, àquela hora da noite.</p>
<p style="text-align: justify">O dinheiro a mais que veio com a ascendência profissional o levou a não mais precisar dos pais. Devolveu o depósito feito no mês seguinte e, mesmo não podendo nem chegar perto de um supermercado mais &#8220;convincente&#8221;, se sustentou bem.</p>
<p style="text-align: justify">Matava pessoas com bastante perícia e até mesmo gosto. Era bem detalhista; embora o regulamente não permitisse, ele gostava de um pouco de tortura. Arrancar as unhas, água escaldante aqui e ali. Costumava fazer o serviço com eficiência.</p>
<p style="text-align: justify">Logo ele ficou consciente de que seus colegas de trabalho dariam a ele o mesmo tratamento que sempre deram uns aos outros. A competição acirrada, a eventual intriga, a sutil puxada de tapete. É claro que no escritório o tratamento era cordial; eram todos &#8220;lordes&#8221;. Mas bastava um trabalho aparecer que as &#8220;conexões&#8221; certas eram feitas.</p>
<p style="text-align: justify">Cada um ali tinha um estagiário protegido. Ele preferira, em seus tempos de estágio, manter distância dos matadores e ficar bajulando o chefe. Seja como for, de uma coisa ele estava certo: precisava de um protegido.</p>
<p style="text-align: justify">Tirando as hostilidades verdadeiras e as cordialidades falsas, Maurício tinha um amigo na empresa. Seu nome era Fábio; era mais velho e já casado. Os dois passaram a sair uma vez ou outra pra beber uma cerveja, ou assistir a jogos de futebol.</p>
<p style="text-align: justify">Fábio era um cara legal. Mandava e-mails engraçados pra Maurício, com piadas, fotos legais, etc. Maurício se irritava um pouco com isso, mas relevava. E assim ele tinha um amigo, que supria relativamente bem a falta que os antigos fazia. Os antigos ele via uma vez por semestre ou menos; alguns saíram da cidade, alguns foram pro outro lado da cidade &#8211; o que dava no mesmo &#8211; mas todos lhe davam os parabéns pelo aniversário na internet. Ele de vez em quando pensava como seria mudar a data de seu aniversário, só pra ver o que acontecia &#8211; mas sempre deixava pra lá, nunca fazia mesmo.</p>
<p style="text-align: justify">Então veio Setembro, um mês tumultado. Houve uma grande troca de empregados entre filiais da agência; Fábio foi chamado pra ficar um mês numa agência fora do estado. Vieram alguns serial killers de fora, e a situação ficou ainda mais bagunçada porque o computador da empresa foi atacado e se tornou inutilizável por uma semana.</p>
<p style="text-align: justify">Naquela semana Paulo perdeu o controle da situação. Um dia Maurício ficou encarregado de matar um homem de meia-idade. Chegando na casa dele, viu Fernando lá, fazendo o serviço. Os dois discutiram, brigaram feio e ameaças foram trocadas. Fernando tinha o péssimo hábito de fazer os serviços que apareciam se ele estivesse por perto, mesmo que não fossem dele. Era uma questão de praticidade, dizia, não importa o quanto Paulo já o tivesse advertido por isso. Segurança o caralho, pensava Maurício. Ele queria era a comissão, e a sua cara de pau era grande o suficiente pra negar isso. Fernando facilmente fazia-se passar por vítima; fazia parecer que a empresa estava errada no modo como gerenciava seus &#8216;recursos humanos&#8217;. Psicopata maldito, pensava Maurício. Obviamente que algum estagiário o avisava feliz como um roedor dos infernos sobre o que aparecia lá na empresa. Maldito, filho da puta.</p>
<p style="text-align: justify">Na outra semana, circulava o boato de que Maurício havia estuprado uma vítima.</p>
<p style="text-align: justify">Não era verdade; a quase castidade circunstancial de Maurício foi veladamente dita a Fernando há tempos; é o tipo de coisa que se fala usando uma segunda personalidade masculina, assumida quando se está perto somente de outros homens. Nunca se espera que essas &#8220;cantadas de galo&#8221; ou mesmo &#8220;revelações&#8221; dêem em alguma coisa. Dessa vez, deu.</p>
<p style="text-align: justify">Nada foi provado, o tempo passava, o clima permaneceu tenso &#8211; Maurício foi graduado. Fábio voltou e não se pronunciou sobre o caso. O futebol aos domingos foi ficando cada vez mais raro; é verdade, o campeonato agora era outro, não tinha mais graça. Mas será que era só isso o objetivo das reuniões dos dois?</p>
<p style="text-align: justify">Mais gente foi contratada, já que a agência crescia vertiginosamente, acompanhando o mercado. Maurício passou a trabalhar nos sábados, sábado sim, sábado não. Mais uma namorada veio e foi. Mais um ano se passou. Ele via no orkut que algum de seus amigos já se casaram &#8211; um tinha até um filho.</p>
<p style="text-align: justify">Era engraçado ficar olhando as fotos dos amigos. Parecia um tio mais velho; nossa, como cresceram. Como eles parecem felizes nessas fotos na frente de cachoeiras. Será que são felizes mesmo? E eu, o que é que eu sou? Eu também tenho fotos na frente de cachoeiras. Estão todas no meu orkut. Já viajei bastante nas minhas férias. É, acho que a minha vida não é ruim não.</p>
<p style="text-align: justify">Ele começou a trabalhar por fora; juntou-se com um amigo num esquema pra matar clandestinamente e não passar pelo filtro dos impostos. Dinheiro bruto, dinheiro alto; pena que havia pouca procura. Mas uma ou duas noites por mês ele estava lá, matando alguém aparentemente importante. O amigo trabalhava na polícia, e fazia questão de não dar muita atenção a esses casos civis de sonegação, suposta formação de quadrilha, enfim&#8230;</p>
<p style="text-align: justify">Depois de um tempo pôde comprar um carro melhor; já planejava um apartamento próprio. Apartamento, apesar de seu sonho ser uma casa, porque não podia pagar o preço que cobravam por uma residência decente. Tinha que ser um pequeno apartamento, pelo menos por enquanto.</p>
<p style="text-align: justify">Um dia ele viu na internet um movimento brasileiro contra os serial killers. Leu um manifesto, viu que muitas pessoas demonstravam seu repúdio contra eles. Propunham o fim das agências; alguns mais moderados propunham uma regulação mais severa. Quando viu aquilo no computador, numa noite fria de quinta-feita chuvosa, ele até tirou o casaco que usava; uma onda de calor passou pelo seu corpo. Ele ficou desnorteado, irritado, tateando na sua mente tudo aquilo que já sabia que justificava tudo o que fazia. Arranjou um par ou mais de silogismos. Procurou no google e achou algumas opiniões que comparavam essa idéia à de proibir propagandas de cerveja na televisão ou coisa do gênero. Naquela noite não dormiu bem, mas nos dias seguinte estava mais tranquilo.</p>
<p style="text-align: justify">Dado o teor de alguns comentários que viu na internet, comprou um revólver para segurança pessoal. A paranóia sempre o rondava, e fazia um esforço pra esquecer um pouco o medo que passou a sentir. Logo sentiu medo de ir trabalhar. Comprou um silenciador para o revólver e passou a usá-lo para matar. Em nome da segurança, afinal.</p>
<p style="text-align: justify">Um ano se passou. Havia comprado uma Sniper &#8211; nem precisava mais ter contato com a vítima. Isso se mostrou problemático mais tarde, mas ele deu um jeito de se livrar das chatas diretrizes e dos estagiários que as repetiam feito papagaios. Paulo inclusive o apoiava. A Sniper era uma boa idéia, definitivamente.</p>
<p style="text-align: justify">A Sniper era linda, pensava. Como ele não via antes a beleza das armas. Ele a limpava todas as noites. Com real dedicação. Estava ela lá, rainha absoluta no seu apartamento. Cero que ele guardava o amor à rainha no seu coração, cantando seu hino na imaginação; rainhas não podem se dar ao luxo de ficarem expostas, são parte importante do seu Estado e precisam ser protegidas. Lá estava ela, de baixo da cama. Ele não teve tempo nem idéia para lhe dar um trono digno, mas lá era um bom lugar. Ela era linda, como era. Para ele não havia nada naquele apartamento próprio mais importante do que ela.</p>
<p style="text-align: justify">Deu mais um gole de vinho. Voltara havia meia hora de mais uma de suas aventuras indie. Agradeceu que levou a Sniper consigo, como cada vez mais freqüentemente fazia. Ô, decisão acertada. Bom, nada de muito mérito na escolha; ele estava com uma dorzinha nas costas que o fazia ficar até um pouco arcado. Precisou mesmo da Sniper, mas não pensava que ela &#8211; bem, será que &#8220;ela&#8221;? &#8211; lhe concederia um bônus naquela noite. E riu&#8230;</p>
<p style="text-align: justify">Era o preço de tanto trabalho, meu deus. Garantir essa vida, que nada é de graça. A equipe matava cada vez mais. &#8220;Como ainda tem gente pra morrer?&#8221;, pensava ele.</p>
<p style="text-align: justify">E ria. Ele ria.</p>
<p style="text-align: justify">Lá estava ele. Com seu apartamento mais ou menos. Seu carro mais ou menos. Seu vinho mais ou menos. Seu trabalho mais ou menos. Sua vidinha mais ou menos. Um corpo feminino nu na cama &#8211; morto &#8211; que, pensou ele quando o viu pela mira da sniper &#8211; não era <em>nada</em> mais ou menos. E ria. Entre um sorrisão e um sorrisinho, pensava que havia sido depois, e não antes. Não há nada de errado com isso, afinal.</p>
<p style="text-align: justify">Era sua filosofia de vida, ele pensava. Temos que rir das coisas &#8220;mais ou menos&#8221; e pensar nas &#8220;pelo menos&#8221;. Pelo menos estava vivo. Vivo, mais ou menos. E ria.</p>
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		<title>Senhora by Canedo e Pardal</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Jul 2008 15:05:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Canedo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção]]></category>
		<category><![CDATA[Pra ver]]></category>
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		<category><![CDATA[humor]]></category>
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		<category><![CDATA[Teatro]]></category>
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		<description><![CDATA[Não sei se já comentei aqui sobre uma sátira do livro &#8220;Senhora&#8221; de José de Alencar.
Pois é, ano passado fizendos uma peça satirizada deste livro e ontem eu criei coragem de editá-lo, consertar um erro de sincronização som/vídeo e upá-lo no youtube, o resultado pode ser conferido AQUI. *Em breve com legendas.
Se alguém leu o livro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não sei se já comentei aqui sobre uma sátira do livro &#8220;Senhora&#8221; de José de Alencar.<br />
Pois é, ano passado fizendos uma peça satirizada deste livro e ontem eu criei coragem de editá-lo, consertar um erro de sincronização som/vídeo e upá-lo no youtube, o resultado pode ser conferido <a href="http://br.youtube.com/watch?v=EvnO2dlf9Y4" target="_blank">AQUI</a>. *Em breve com legendas.</p>
<p>Se alguém leu o livro citado, com certeza encontrará algumas semelhanças&#8230; E se alguém quiser comentar no youtube, fico grato.</p>
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		<title>Realidade..</title>
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		<pubDate>Tue, 22 Apr 2008 19:01:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Peterson Espaçoporto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[Ela estava sozinha em casa. Ela gostava de ficar sozinha em casa, era quando podia usar pijama o dia inteiro, almoçar às duas da tarde e ficar mais tempo no computador, fazendo suas coisas úteis e inúteis.
O que incomodava a criança crescida, que já não tinha medo do escuro, eram as coisas que ela sentia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ela estava sozinha em casa. Ela gostava de ficar sozinha em casa, era quando podia usar pijama o dia inteiro, almoçar às duas da tarde e ficar mais tempo no computador, fazendo suas coisas úteis e inúteis.<br />
O que incomodava a criança crescida, que já não tinha medo do escuro, eram as coisas que ela sentia de noite quando dormia sozinha. O quarto tinha uma luz um pouco fraca, e a luz da tela do computador era tão fantasmagórica. O corredor escuro e longo parecia um túnel do tempo, ambientado pelo tic-tac do relógio da cozinha.<br />
Ela ouvia &#8220;Time&#8221;, do Pink Floyd, o solo enorme e precioso, a música lisérgica. A qualidade lhe excitava, mas a categoria a fazia sentir sono. Fazia muito frio naquela noite, e o vento assobiava quando encostava nas entradas &#8220;ilegais&#8221; da janela. Como já era estranho o suficiente ficar com todas as luzes da casa apagadas, ela não quis ficar olhando para o mato grande no fundo da casa. Ali havia muitos bichos estranhos, insetos, etc; ela não tinha medo de bichos, amava os bichos. Mas não gostaria de acordar olhando para, sei lá, um tatu gigante na janela. É claro que o fato da existência ou não de um tatu gigante é totalmente discutível, mas a julgar pelas características já vistas em alguns animais estranhos dali, não seria de se espantar se ela visse um tatu gigante quando acordasse.<br />
A música agora é The Greag Gig In The Sky. Sonzinho triste; ninguém online no MSN. Foi escovar os dentes, tarefa tão adiada. Passou pelo corredor longo e escuro, com o barulho do tic-tac misteriosamente parecendo mais alto &#8211; ah, essas armadilhas da mente&#8230; A música já quase inaudível. À noite, o silêncio tem um som próprio. É quase um zumbido, só que não muito forte; uma coisa que só podemos ouvir no silêncio absoluto e que nega o próprio silêncio absoluto &#8211; o único que realmente convive com o silêncio absoluto é o surdo. Todos os outros podem ouvir essa pequena freqüência que vem sei lá de onde e chega sei lá como nas nossas orelhas.<br />
Pronto, a mulher parou de berrar. Não, ela continua. Essa música é meio chata nesse sentido. Ela queria guitarra, o piano e o vocal não eram suficientes. Viu um vulto no espelho, se assustou um pouco. Quê isso, era só uma camisa preta pendurada. Pensou ter visto um cabelo por um instante, daquels grossos, como os da Samara.<br />
Enquanto escovava os dentes, ficou olhando fundo nos seus olhos pretos. &#8220;Eu ficaria bonita morta?&#8221;, ela pensou. Que pergunta tola&#8230;<br />
Começou a lembrar-se dos filmes que viu. O Chamado, O Grito, Visões. E os outros, mais clichês. Ou pelo menos clichês mal-feitos.<br />
Ela se lembrou de como sentiu medo quando viu O Chamado pela primeira vez. Os olhos azuis intensos daquela menina tão má e terrível, o vídeo bizarro, que quando ficava em tela cheia parecia estar sendo realmente visto pelo espectador; aquela mosca, o olhar penetrante da mulher penteando o cabelo&#8230; O ato de pentear o cabelo é fúnebre, pensou a garota, e começou a imitar a mulher, a tal mãe da Samara. Sentiu um calafrio percorrer seu corpo. Guardou a escova com supersticiosa apreensão, engolindo em seco mas sabendo que, afinal, isso não era nada.<br />
Ela podia ouvir o refrão catártico de Us and Them, toda a grande glória musical da música e quiçá do álbum inteiro ali concentrados.<br />
Ela se lembrou de novo da Samara. Apagou a luz branca do banheiro e, quando voltou, voltou de costas, olhando para a escuridão da cozinha, que mais lhe sugeria uma grande passagem para outro mundo, uma grande ponte para a morte, isso sim. Ó, o refrão se aproxima. Agora. Isso&#8230; Lindo. E aterrorizante, sem dúvida.<br />
Fechou a porta do quarto. Por que? Pff&#8230; Nada poderia acontecer. Pausou a música. Agora um avião passava por cima da casa, muito, muito acima dela; um cachorro latiu uma ou duas vezes. Mas uma coisa permaneceu: o barulho da noite.<br />
O barulho do silêncio, a estática que persegue todos os que têm ouvidos, condenando-os a jamais deixar de prestar atenção a esse detalhe cinzento, nublado, estranho. O silêncio e seu barulho característico parecia um grande e sinistro prelúdio. Sutil, porém grandioso&#8230;<br />
Desistiu de ouvir o negro agouro; apertou o play de novo. Que era aquilo, ela não era mais criança pra ter mais desses pensamentos bobos. Fechou os olhos, cansada. Ficou olhando para a porta fechada. O saxofone a relaxava, mas o vento na janela estava ficando tão mais forte&#8230; A maçaneta tremeu um pouco. Ela ficou imaginando o que aconteceria se alguém abrisse a porta. O saxofone e o backing vocal do refrão, lindo, lindo&#8230; Ficou imaginando a mulher sem queixo de O grito abrindo a porta; a mão ofídica, branca, morta, unhas podres, abrindo lentamente a barreira marrom. Mas ela não conseguia imaginar o terror de se encontrar com esse tipo de sobrenatural por muito tempo; o filme de sua mente chegava até a parte em que os olhos dela passavam das mãos da praga até os olhos, sempre vermelhos, intensos, terríveis, avassaladores&#8230; Ela parou de pensar nisso. A música não colaborava. Any Colour You Like, acabou de começar. Quer saber? Chega de Pink Floyd.<br />
O Shuffle sacaneou. Radiohead.<br />
O violão de How To Disappear Completely já começou. Aquele barulho estranho e bizarro já começou também. Aquele som de fundo, que é basicamente o som do silêncio e da noite ampliados, faziam ela se perguntar por que ela continuava ouvindo aquilo. Fechou os olhos. Não conseguiu. Por que diabos estava tão frio? Ela se levantou, se ajeitou na cadeira, passou a mão no nariz. Olhou pra porta. Olhou mesmo. Olhou com olhos cautelosos.<br />
Por diversão ou por indução, voltou a imaginar situações às mais diversas possíveis, onde monstros de filmes de terror &#8211; em geral espírios maus &#8211; invadiam o quarto. O esterótipo é bem comum: a roupa nojenta e pútrida, rasgada; o cheiro não importava, não haviam cheiros no filme pra compor o estereótipo; os cabelos negros escorridos e tão nojentos e repulsivos quanto o corpo todo; os olhos, sempre os olhos, e um sorriso macabro no rosto. Um sorriso que dizia &#8220;eu vim. Estou aqui&#8221;. Uma risada fraca, mas que fazia alguém tremer de medo, dos pés à cabeça. Um rosto branco, veias à mostra, e finalmente o contato. A mão que se estende em direção ao rosto. A aproximação, o que é para os românticos do fim da vida, o grande símbolo da tragédia completa.<br />
Era tudo tão vívido, uma cena tão real, tudo tão real. &#8220;I&#8217;m not here. This isn&#8217;t happening&#8221;. Estava quase chegando na parte em que era possível sentir o vento passar pelo seu rosto quando você se imaginasse caindo de um prédio. Engraçado como ela podia ver cada nuance do rosto terrível e degradante do monstro humano feminino que se alojou em seu quarto. A porta estava aberta, e ela conseguia imaginar até mesmo ela gritando, se contorcendo tentando evitar o fim&#8230; Era agora&#8230;<br />
Enquanto fechou os olhos para sentir a música, soltou uma risadinha. &#8220;Sabe o que é a realidade? Aquilo em que, quando você deixa de acreditar, não deixa de existir&#8221;.<br />
E quando ela abriu os olhos, o defunto ria. Não deixou de existir.</p>
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		<title>Raul e sua miserável torta.</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Mar 2008 00:57:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Peterson Espaçoporto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[vida]]></category>

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		<description><![CDATA[Conto.
Not a copy, but a tribute.

Era uma vez alguém chamado Raul. Não importa quem Raul era; nem mesmo se ainda é. Não importa se é criança, adolescente, adulto, idoso, homem, mulher (o nome pode ser pra esconder a identidade&#8230;), branco, preto, alto, baixo, gordo, magro, etc. Importa é que certa vez ofereceram a Raul uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h5><em>Conto.</em></h5>
<p><em>Not a copy, but a tribute</em>.</p>
<p><span id="more-668"></span></p>
<p>Era uma vez alguém chamado Raul. Não importa quem Raul era; nem mesmo se ainda é. Não importa se é criança, adolescente, adulto, idoso, homem, mulher (o nome pode ser pra esconder a identidade&#8230;), branco, preto, alto, baixo, gordo, magro, etc. Importa é que certa vez ofereceram a Raul uma grande e deliciosa torta.</p>
<p>Na verdade, não ofereceram. Nosso personagem misterioso saiu de casa, num belo dia, e então viu a torta ali, no chão, à frente de sua porta. Ele examinou a torta por alguns instantes e pensou &#8220;Bem, vou comê-la!&#8221;.</p>
<p>Foi aí que ele percebeu que na embalagem de alumínio &#8211; estilo &#8216;marmita&#8217; &#8211; que envolvia por baixo a torta, havia uma rachadura. Ele olhou desconfiado e pensou &#8220;iiiiii&#8230;&#8221;. Apesar do &#8220;pé atrás&#8221;, ele continuou.</p>
<p>Ele enfim mordeu um pedaço. Estava fria. &#8220;Argh, que droga!&#8221;, pensou, &#8220;Pelo menos eu posso esquentar&#8230;&#8221;, mas ele, apesar de começar a frase com ar de &#8216;Eureka&#8217;, a terminou com desânimo. Ficou com preguiça de esquentar a torta. É, talvez ele só precisasse ligar o microondas, mas mesmo assim ele teve preguiça.</p>
<p>Logo depois, uma mulher, usando salto alto, aparentando ser de meia-idade, entrou com altivez no pequeno jardim de sua casa, onde Raulzito permanecia de pé, tentando comer a torta.</p>
<p>- Você não vai me dar um pedaço?? &#8211; perguntou ela, com inesperada intimidade e em tom de &#8220;é ÓBVIO que você DEVERIA fazer isso, não?&#8221;</p>
<p>Raul olhou para os lados, devagar, tentando compreender a situação. Perguntou, o mais educadamente que pôde:</p>
<p>- É comigo?</p>
<p>- Eu não gosto de ironias, seu <em>palhacinho</em> &#8211; disse ela, séria, ousada, abusivamente confiante &#8211; Você me deve um pedaço. E grande, de preferência&#8230;</p>
<p>- Ei, ei, EI! Espera aí, o quê isso? &#8211; Disse ele, dando um tapa na mão da mulher, que já se aproximava da torta.</p>
<p>- Como assim, <em>quê isso</em>? <em>EU</em> fiz essa torta pra você!</p>
<p>- <strong><em>Bom</em></strong>, Obrigado! &#8211; Respondeu ele, estupefato com a situação ridícula.</p>
<p>- <strong><em>Só</em></strong> Obrigado? HÁ!</p>
<p>- É, não tá bom não, por acaso?</p>
<p>- Mas eu TROUXE essa torta pra cá</p>
<p>- E daí? Problema é seu, ué! Não pedi torta nenhuma! &#8211; respondeu ele, conclusivamente.</p>
<p>- Mas você gostou, não é? Hein?</p>
<p>- Bom, é&#8230; Sim, bem, eu gostei, eu acho &#8211; disse ele, confuso.</p>
<p>- Então,  seu ingrato! Tudo bem, tudo bem, eu admito, posso não ter feito, ou não ter feito <em>toda</em> ela, mas eu trouxe até aqui. Não vai&#8230; Me dar um&#8230; Um pedacinho? &#8211; perguntou ela, com ar hesitante nas últimas palavras.</p>
<p>- Não, é claro que não. Obrigado pela torta, mas não, não vou te dar nenhum pedaço. &#8211; Disse ele, enfim, e a mulher saiu de sua propriedade, triste, porém orgulhosa.</p>
<p>Então, antes que ele pudesse assimilar tudo o que aconteceu, outra mulher entrou em sua casa, dizendo, de modo ainda mais &#8216;ignorante&#8217; (no sentido coloquial de &#8220;brutamontes&#8221;, aquele negócio &#8220;animaaaaaaal&#8221;, sabe?), que Raul <em>não tinha o <strong>direito</strong> </em>de comer aquela torta.</p>
<p>- Mas por que DIABOS eu não posso comer essa torta?</p>
<p>- Sabe quantas pessoas passam fome no mundo todos os dias? &#8211; perguntou ela, com um rosto da mais fina indignação.</p>
<p>- E daí? &#8211; Raul se perguntou, usando as mãos para ajudar a reforçar ideologicamente sua indiferença &#8211; Tudo bem, eu posso ajudá-las, mas não é <em>passando fome</em> que eu vou fazer isso!</p>
<p>- Você é um grande idiota mesmo. Não entende nada! De NADA! &#8211; Disse ela, dando pequenas voltas e fazendo um trajeto irregular pelo jardim. Raul desejou que ela não pisasse tanto na grama &#8211; Você não percebe, é injusto, é injusto que você ou qualquer outra pessoa <em>coma esta torta</em>!</p>
<p>Raul olhou para a torta. Sua torta, fria, em uma embalagem rachada, mas ali estava ela. Um presente esquisito, pelo qual ele não pediu. Estava relativamente satisfeito com o fato de que ele não tinha que sacrificar sua torta em prol das &#8220;tantas pessoas&#8221; que passavam fome no mundo. Definitivamente não. Mas mesmo assim, aquela mulher havia conseguido sabotar sua pequena felicidade de comer tortas. De alguma forma aquela torta não parecia mais a mesma. Tinha perdido um pouco o valor.</p>
<p>De repente, um homem veio correndo dos cantos mais longínquos possíveis desse cenário hipotético, parecendo muito cansado. Parou dentro do terreno de Raul e ficou olhando para o chão, ofegante. Exasperado, com as mãos nas coxas, falou:</p>
<p>- Se&#8230; Você&#8230; Comer&#8230; Essa&#8230; Essa torta&#8230; O recheio&#8230; da minha torta&#8230; &#8230; Vai mudar&#8230; &#8211; falou ele. Raul não tinha percebido, mas ele trazia uma pequena torta pendurada no pescoço, como num crachá &#8211; ou pelo menos aquilo parecia ser uma torta, bem, dava a entender. Estava dentro de um recipiente bem fechado, pra que não caísse.</p>
<p>A mulher lançou um olhar de desafio para Raul.</p>
<p>- Agora você vai ter que reconhecer, você não pode fazer isso!</p>
<p>- Hã?</p>
<p>- Você <em>não pode</em> comer essa torta!</p>
<p>- Por que não?</p>
<p>- Porque o recheio dele vai mudar, você não ouviu? Largue essa torta <em>agora mesmo, eu estou avisando</em>! &#8211; Disse ela, autoritária ao extremo.</p>
<p>- NÃO! &#8211; Berrou Raul, irritado &#8211; Quer parar com isso? Porra, foda-se, me deixe comer a minha torta em paz! &#8211; Raul entrou em casa. Parou no corredor, e resolveu voltar, ainda achando que talvez não tivesse dito tudo o que tinha pra dizer &#8211; Cacete&#8230; Será possível que eu não tenho o direito de comer a minha torta em paz?</p>
<p>Durante algum tempo, silêncio. A mulher parecia irredutível; o homem, cansado.</p>
<p>- Por favor&#8230; Senhor&#8230; Por favor&#8230; &#8211; Pediu uma última vez o homem.</p>
<p>Raul reconsiderou e segurou a torta com a mão, pra baixo, um pouco desanimado.</p>
<p>- Tudo bem. Mas eu quero deixar claro que foi porque eu quis! Merda! &#8211; reclamou ele, baixinho, irritado com toda a história maluca.</p>
<p>Depois de alguns minutos olhando em silêncio para os estranhos, ele ficou impaciente de ficar ali, em seu jardim, rodando pra lá e pra cá, sem saber o que fazer ou dizer.</p>
<p>- Bem, olha, um dia eu vou ter que comer essa torta ou, sei lá, fazer alguma coisa com ela, se não ela vai estragar, né? &#8211; Exclamou Raul.</p>
<p>Então outro homem, muito similar ao primeiro desconhecido que apareceu em sua casa, veio correndo de um outro lugar e disse, dessa vez, com uma voz segura e rápida:</p>
<p>- Por favor, senhor, não faça isso. Meu recheio mudará consideravelmente pra pior se você comer essa torta. Qualquer pedaço que seja.</p>
<p>Raul olhou estranhamente para a mulher, que parecia estar se divertindo muito com aquilo tudo &#8211; Consideravelmente? &#8211; perguntou o aturdido dono da torta problemática.</p>
<p>- Sim.</p>
<p>- Como? Em que sentido?</p>
<p>- Eu não gosto de ervilhas. Além do mais, não gosto de comer com garfos. &#8211; disse o homem de voz grossa.</p>
<p>Raul riu dos três estranhos ali, uma risada louca, inconseqüente, um pouco desiludida, e desistindo de considerar mais absurdo algum, deu uma mordida na torta &#8211; com empolgação.</p>
<p>- NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOOOO!!! &#8211; Exclamaram, berraram, gritaram, espernearam, se descabelaram os três estranhos ali no quintal de Raul.</p>
<p>Raul riu ainda mais de si mesmo, dos outros, de tudo. Riu de seu quintal, riu da rua, riu dos visitantes, riu até de sua própria casa, as janelas, a porta, tudo, riu de tudo. Achava aquela cena apocalíptica uma loucura maravilhosa, uma verdadeira libertação. Enquanto o frango desfiado fazia-se sentir nos dentes dele, os homens o chamavam de &#8220;mal&#8221;, &#8220;perverso&#8221;, &#8220;terrível&#8221;, &#8220;lobo&#8221;, &#8220;demônio&#8221;, entre outros que a imaginação e a memória moral permitiam. A mulher chorava histericamente numa posicão estranha no chão.</p>
<p>Quando terminou de engolir o pedaço que havia pego, Raul olhou ao seu redor pra ver a destruição que havia causado. Todos estavam ali ainda, de alguma forma.</p>
<p>Raul então, um pouco mais tranquilo quanto aos visitantes malucos, resolveu comer mais um pedaço da torta.</p>
<p>Mas havia algo de errado. A torta não era de carne com ovo antes&#8230; Era de frang&#8230;</p>
<p>Quando ele virou o rosto procurando por algo ou alguém que pudesse explicar o que estivesse acontecendo, viu um homem passando no meio da rua. O passante desconhecido estava de olhos fechados, mastigando tranquilamente um pedaço de torta.</p>
<p>&#8220;Droga&#8221; pensou Raul. Ele compreendeu o que aconteceu.</p>
<p>Mas antes que pudesse pensar a respeito, o homem de voz forte que tinha chegado depois já estava na sua frente. Enquanto Raul segurava a torta com a mão direita, ela voltada para cima, o homem tinha se aproveitado de sua distração, talvez, pra começar a colocar pimenta na torta.</p>
<p>- PUTA QUE O PARIU, O QUE É QUE VOCÊ TÁ FAZENDO, CARALHO? &#8211; Perguntou, surpreendido, Raul.</p>
<p>- VAI SE FUDEEEEER, AGORA VOCÊ VAI TER O QUE MERECE!</p>
<p>O homem continuava calmamente colocando várias e várias pimentas, de todos os tipos, mas preferencialmetne as variações mais fortes possíveis do tempero. O sujeito colocava com prazer as pimentas em cima e dentro da Torta. Ia furando-a com o dedo de forma calma e serena, com um brilho psicopata nos olhos, pra fazer com que o líquido da conserva de pimenta penetrasse em todo o alimento.</p>
<p>O dono da torta assistia a tudo, atônito, sem dizer nada.</p>
<p>Depois que ele terminou, saiu rindo, e então, depois de se distanciar um pouco, parou, apoiado no muro do jardim de Raul, com um rosto satisfeito e suado. Ele parou, olhou para o chão, riu mais uma vez e respirou profundamente, parecendo satisfeito.</p>
<p>- Desculpe, Raul, mas&#8230; <em>foi necessário</em>. &#8211; Comentou, satisfeita, a mulher, com uma face que poderia ser traduzida pra &#8220;É, não adianta reclamar, você mereceu&#8230;&#8221;.</p>
<p>- Droga. Eu queria ter feito isso &#8211; lamentou-se o primeiro homem.</p>
<p>E Raul? Raul continuava ali, com a torta sabotada na mão. Depois as pessoas saíram dali, aos poucos, alguns sem dizer nada, outros dando tchau. E ele voltou pra dentro de casa, pro seu lar verdadeiro. Mas antes, durante muito tempo (ou será pouco? Ele não viu o tempo passar pra medí-lo como sua percepção queria) passou o tempo todo ali, parado, em seu jardim, sentado no chão, olhando para a sua torta. Pobre torta. Fria. Com uma embalagem rachada, estragada pela pimenta, condimento que, em excesso, tornava um alimento intragável &#8211; mas, além disso, Raul não gostava muito de ovo (o novo recheio de sua torta era carne e ovo). Ele teve pena de sua torta, tão frágil, tão destruída, tão judiada. Uma vez depois de um tempo alguém passou lançando um panfleto, dizendo como as tortas eram boas, apesar dos erros de tempero. Alguns segundos depois outra pessoa veio panfletar também, dessa vez fazendo publicidade do dono da fábrica de tortas. O panfleto alardeava que o tempero era perfeito, ideal. Pensou que talvez aquilo fosse besteira. O tempero era pra estar ali, aquela torta é mesmo imperfeita. Talvez todas sejam. Sentiu pena de sua torta. Não quis mais encostar nela, em nenhum pedacinho sequer. Talvez ele pudesse ter recuperado umas partes, talvez. Talvez ele pudesse ter convivido com a pimenta. Ou não. Mas ele nem tentou.</p>
<p>Ele sequer tentou. Ele entrou em casa. Nunca mais foi visto.</p>
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