E também o assassinato de outros deuses
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  • Cenário do Conto Devil

    Postado em 14 de Burocracia de 3176 YOLD , às 8:03:17 Peterson Espaçoporto View Comments

    Pra quem leu o meu conto Devil, mas nunca visitou a UFSC (ou não sabia que o cenário era lá), tirei uma foto do lugar:

    devil-image

    Caminho perto da Biblioteca Central na UFSC

  • Devil

    Postado em 31 de Caos de 3176 YOLD , às 1:56:08 Peterson Espaçoporto View Comments

    Certo. Então eu estava ali, sentado, esperando. Pelo quê, eu não sei, mas como é que eu vou saber? No fundo, no fundo, estamos sempre esperando que alguma coisa aconteça. Seja pra nos tirar de uma confusão ou pra nos botar em uma.

    Aquele bosque do campus, próximo à reitoria, era realmente agradável; uma rótula principal, onde sempre ficavam as odiosas e falsamente úteis barracas de pré-vestibulares (durante a época de vestibular) dava origem a alguns metros quadrados de pura grama em frente a um prédio bonito. Pelo que me lembro tem algo a ver com arquitetura, mas sou preguiçoso demais. Pra ir lá olhar e pra tentar me lembrar. Certo, é um defeito, admito. Mas hoje ele está particularmente forte. Todos nós temos esses momentos. Fancy that, reader.

    Então, depois dos metros quadrados de grama, há essas mesinhas que dão medo de sentar porque você não sabe quais manchas são chicletes que ainda têm “poder de grude”. A maioria já está bem lascada, mas ainda dá pra jogar xadrez ali em cima.

    Então ali nos surroundings havia muitas árvores, banquinhos legais e um caminho de cimento separando grama de… grama. Não me culpe pelo inglês, minha mente funciona melhor assim, misturando as duas coisas. Uma vez ouvi dizer que o diabo falava inglês. Na verdade, seja lá qual foi a lógica por detrás disso, parecia ser meio idiota; um diabo que se preze deveria ser poliglota ao extremo.

    De qualquer forma; se era verdade ou não, eu estava prestes a saber.

    — Boa tarde! — disse-me um homem já grisalho (e obviamente começando a ficar careca), com uma face um pouco alongada e um sorriso comercial. Vestia uma roupa social marrom bem aprumada, uma gravata vermelha, sapatos pretos.

    Não entendi a dos sapatos pretos. Na minha cabeça havia algumas poucas regras de vestimenta que via quando pescava alguma coisa aqui e ali e, na minha talvez ignorância, pressupunha que se eu usasse roupa social marrom deveria usar um sapato marrom. Ah, foda-se. Eu não costumo usar essas roupas em lugares em que as pessoas dariam importância pra isso.

    — ‘Tarde — falei, distante.

    — Eu acredito que eu possa ser útil — disse ele, com o rosto um pouco inclinado pra baixo, fazendo os olhos parecerem maliciosos. O sorriso nunca esteve tão solícito. Parecia um gato mostrando os dentes pra um rato, só que era um pouquinho mais humano. Ah, esquece. Que descrição foi essa? Eu acho que nunca vi pessoalmente (e com atenção) um gato mostrando os dentes pra um rato. Mas foi isso que me lembrou.

    — Olha, não vou comprar nada…

    — Mas você nem sabe o que eu tenho pra oferecer!

    — Tô sem dinheiro.

    — Ah! Isso não é problema… — eu olhava, viajão, para a atmosfera à minha frente. Ao dizer essa última frase o pobre diabo (que, afinal de contas, aparentava não ser tão pobre assim) deslizava mais para o lado de um modo esquisito, pra que ele ficasse dentro do meu campo de visão, ocupando quase toda a atmosfera para a qual eu estava olhando.

    Eu não gostei do jeito invasivo dele. Era a minha atmosfera. Fiquei irritado. Mas, como um bom preguiçoso, continuei a observar ali, tranquilo, ouvindo uma música relativamente calma no meu iPod de tela rachada. Fiquei com vontade de aumentar bastante o volume pra mais eficientemente ignorá-lo. Quem sabe eu não ficasse surdo e então não precisava nem fingir. Hmm não, consequências demais… Talvez ele fosse embora facilmente.

    — Olha, sai daqui, cara… — disse eu, parecendo, na verdade, meio deprimido. Acho que não daria certo. E não deu.

    — Ah, você não quer que eu saia daqui… — Ok, agora ele estava irritando com aquela feição que dizia “seu safado”, só que sem as conotações sexuais implícitas na palavra safado — Eu posso te dar tu-do que você quiser.

    Ahm, olha… Eu não sou gay — depois da última frase deixei de considerar que não haviam conotações na palavra “safado”.

    — Sim, eu sei que não… Na verdade, eu sei tudo sobre você. HA! Como eu não saberia, sendo quem sou! — ele abria os braços, fazendo cena, ainda que não houvesse plateia alguma ali.

    Aliás, eu olhei em volta, discretamente. Não havia ninguém mesmo.

    Mamãe? — eu realmente me esforcei no sarcasmo.

    Call me daddy — ZEUS, de onde aquilo tinha saído? Iate Casablanca?

    — Ahm… Não, desculpa.

    — Não me reconhece? — ele inclinou o rosto pro lado, agora. Suas expressões eram como cartas de um baralho; eram mecânicas, prontas, praticamente ensaiadas. Ele achava que eu era quem, uma criança?

    — Não.

    — Talvez porque não nos conhecemos. Ainda. Prazer, Diabo.

    — Eu não me chamo Diabo.

    — Mas eu me chamo…

    Bem, foi nesse momento em que eu resolvi que ou ele estava falando a verdade ou não. Como ele falava inglês, e o fato de ele estar mentindo me colocava num leque de possibilidades muito maior, decidi assumir que ele estava falando a verdade, só um pouquinho. Se ele demonstrasse (mais) ser um louco, o leque subsequente ao “ele está mentindo” diminuiria bastante e então eu me sentiria confortável nele.

    — Prazer senhor Diabo, o que eu posso fazer pelo senhor?

    — Oh, nada, meu jovem, mas obrigado! Eu é que posso fazer por você.

    — Espera, só um pouquinho, preciso fazer uma pergunta antes, é… Por que ser tão clichê?

    — Como?

    — É, clichê.

    — Ora, eu… Achei que isso fosse apropriado. Clichê não seria eu ser metade bode, ou ter chifres e coisas assim?

    — Não, isso não é clichê, isso é clássico. Você tá usando uma gravata vermelha e parece um empresário rico que não tem tempo pra família. E você é a cara do House, aquele da televisão. Isso é muito clichê pra um diabo. Não, pior! Você tem a cara do House, mas parece mesmo aquele diabo daquela série, como é mesmo o nome…

    — Reaper?

    — ISSO! Reaper.

    — Ah, você me pegou… Eu gosto dessa ideia de que o Diabo gosta de vermelho e é um empresário experiente que não tem tempo pra família.

    — Você não gosta de vermelho?

    — Na verdade, não.

    — E de que cor você gosta?

    — De… É… — ele desviou um pouco o olhar, fez mais algumas caras prontas de confusão mental e desviou também o assunto — Não vem ao caso. Bom, o que eu tenho pra lhe oferecer é…

    — O mundo?

    — Cala a boca, PORRA! — eu fiquei com medo. Ele tinha de repente arregalado os olhos e falou comigo como se fosse… Sei lá o que ele parecia, mas parecia irritado — Eu tava falando, que MERDA!

    Eu estava assustado, e começava a achar que o cara era louco, mas louco mesmo, daqueles estágios irreversivelmente psicóticos e que a qualquer hora ele tiraria um canivete de dentro do bolso interior do terno e me atacaria ali mesmo, na frente de…

    Bem, não havia ninguém ali mesmo. Merda, merda, merda.

    Ou seria pior. Uma vez não me deixaram entrar no cinema com latinhas de refrigerante porque são “objetos cortantes”. Perigo em potencial. Mas, caralho, quem vai matar alguém com uma latinha de alumínio? De repente me vi morto, sangrando ali no chão, e o tal Diabo fugindo da cena com uma latinha de Pepsi na mão. Pensei em perguntar se ele preferia Pepsi ou Coca, mas o pensamento passou pela minha mente realmente muito rápido, muito rápido mesmo. Não dava pra se preocupar com aquilo naquele momento.

    — Bem… Como eu ia dizendo — ele agora estava bem mais calmo, sereno, praticamente um professor. Professor bom, é claro. Mudanças súbitas de humor. Ou grande capacidade de dissimulação… Que o diabo era bom ator era fato conhecido, mas bipolar? — eu sei qual é o desejo mais profundo do seu coração.

    — É? E-e qual é? — Eu ainda estava tenso, mas isso deu lugar à curiosidade. Sou preguiçoso e curioso. Uma merda, se quer saber, porque as duas coisas vivem entrando em conflito. Bem, de qualquer forma: essa eu queria ouvir.

    — É… Conhecer alguém.

    Agora ele tinha apertado meus testículos conceituais. Era verdade.

    — Conhecer alguém! Você desesperadamente deseja conhecer alguém que seja tão.. Tão ligado à natureza quanto você, mas ao mesmo tempo tão leve, distraído e cheio de significado! Não em si, mas, bem, a pessoa deve significar algo pra você!

    — Sim, sim! — Poxa, eu estava tocado. Ele havia recuado e agora bailava numa quase valsa à minha frente, com os braços abertos e os olhos para o céu, explicando tudo.

    — Alguém que não se importasse demais com os seus defeitos, mas os considerasse parte de seu caráter, porque só você sabe o quanto você é desejoso de fazer o mesmo! Ela teria que ser do sexo feminino, obviamente, e ser gostosa, mas jamais magrela, além de gostar do The Subways, que é a banda que está tocando no seu iPod agora!

    — Olha, eu tenho cartão de débito aqui, e… Bem, quanto isso vai me custar?

    — Então você realmente quer? Veja, eu só comecei a descrição, mas ela fica melhor. Eu posso vê-la na minha mente prontinha.

    — Porra, é claro, manda aí! — eu sorria, bobo — Yay… Acho que só pode ficar melhor, né?

    — Bom, calma, não é assim tão simples, haha! Manda aí… — aquele jeitinho dele parecia até simpático, rapaz — Olha, preste muita atenção no que eu vou te dizer…

    E então ele se sentou ao meu lado, e sua mão esquerda voltou de uma curta passada pelas próprias costas — coisa de um ou dois segundos enquanto ele se sentava — carregando uma cartola preta. Opa, bom truque. Legal, gostava de impressionar, ele. Eu tava cagando e andando pra cartola, é claro. Come on, let’s make a deal at once.

    — Bem, o que você procura chama-se… Amor de Verdade. Também é conhecido como “Amor Verdadeiro”, e o nome científico eu não sei, mas, veja, você não quer apenas Amor de Verdade, quer que ele venha personalizado com sorte. E silicone se não tiver sorte o suficiente.

    — Não, não, sem silicone — Fui firme.

    — Ah, ótimo, isso facilita um pouco… Eu tinha me esquecido das suas preferências por um instante! … Bem, a questão é que eu posso cuidar da sorte, mas não posso fazer muito pelo Amor Verdadeiro. Veja, vou te dar uma lista dos lugares que você deve visitar… — ele escrevia com uma rapidez sobrenatural em um bloquinho bege que ele tirou de dentro do terno —  … Dos perfumes que pode usar… Marcas.. E tipos.. de desodorantes a evitar… E também certas frases feitas que você definitivamente não vai querer usar … É claro que isso é só o começo e não quer dizer muita coisa a não ser que você esteja disposto a passar por algumas coisas que precisa admitir…

    — Espera, espera, espera… Espera aí… Eu achei que você fosse trazer a mulher aqui ou.. Criar ela do nada, e aí fazer ela se apaixonar perdidamente por mim e…

    — Criar ela do nada? Fazer ela se apaixonar por você? São mulheres, não universos ou cachorros, ficou maluco?  — De repente eu pensei que eu devia estar mesmo. Onde foi parar minha sanidade? Eu estava segurando meu cartão de débito na mão, for Christ’s sake — Meu amigo, você está confundindo sorte com milagres! Sabe o que são milagres?

    — É-é o improvável acontecer!

    — Não, caralho, isso é SORTE! Sorte, sorte, sorte! Pessoas não morrem em tragédias por causa de sorte, pessoas deixam de entrar em aviões que caem por causa de sorte, pessoas não perdem parentes por causa de sorte, pessoas ganham na loteria por causa de sorte, e sempre a subestimam! Que raio de humildade! Milagres são o impossível acontecer!

    Eu entendia, mas não queria entender. Que péssimo vendedor; ele estava me deixando irritado.

    — Escuta, eu posso te dar sorte… Posso mesmo. Quer dizer, é o máximo que você pode pedir. Se você gosta desse negócio de ficar sentado esperando as coisas acontecerem… Humpf… Tá falando com o cara errado. Não sou bem eu que faço milagres, kid.

    — Então… Então existe um Deus?

    — Um, dois, três. Ou mais. Mas garanto que eu não fico brincando de War com eles o dia todo. Eu tenho mais o que fazer.

    — Hum. Isso explica muita coisa.

    Oh hell it does. Isso tudo é intriga da oposição; você é um garoto inteligente, deve saber… Não há nada de errado com quem precisa de uma ajuda e prefere fazer as coisas acontecerem. Mas tem gente que se ofende. Vai entender…

    — Escuta, é… Você não vai me cobrar os olhos da cara ou outras coisas.. “Extracorpóreas” por tudo isso que você me falou, né? Porque não deve ser à toa que te chamam de advogado, então já vou dizendo…

    — Não, não, imagina, quê isso… Vai querer a sorte e os conselhos ou não?

    Naquele momento fiquei realmente pensando se precisava dessas coisas. Depois de uma experiência louca como essa — e que merda, ninguém pra testemunhar ainda! Que diabo de dia mais esquisito! Havia alguma mega festa universitário-dionisíaca ou algo assim? Cadê os estudantes? — fiquei pensando é que talvez precisava reavaliar minhas crenças pessoais, meu guarda-roupa e principalmente minhas prioridades na vida.

    — Acho que não.

    Humm… Você tem certeza? Um pouco de sorte não faz mal a ninguém.

    — Mas… Sorte é como algo que você tem ou não tem ou é algo que você pode ter mais ou menos?

    — Ah, sorte há muita no mundo, não se preocupe com a falta dela. O que estou oferecendo é um pacote extra de sorte e serviços de manutenção, só pra evitar eventuais vazamentos, sabe como é.

    — Entendo… Bem, nesse caso, acho que não vou querer não.

    — E o que vai fazer? Sentar e esperar?

    — É… Mas talvez por outra pessoa. Acho que posso tentar ser mais realista… Pode me fazer bem.

    — Certo… Bem… — ele estava se levantando pra ir embora — Creio que pode começar deixando de acreditar em Diabo, não? Hehehe… — e com aquela risadinha seca, assumindo agora uma identidade psicológica mais idosa, foi andando devagar rumo à rótula do campus logo à frente.

    — Ei, Diabo — disse, chamando sua atenção depois que ele havia andado um pouco — por que você fala inglês?

    Ele se virou e, permitindo-se um último sorriso — dessa vez mais sincero, natural, mas nem por isso menos enigmático, disse:

    — Ah, por favor… Todo mundo que tem boas intenções fala inglês.

    E virou-se, mais uma vez, desaparecendo logo depois como um fantasma. Fiquei impressionado, embora achasse que um efeito de neblina seria muito mais interessante.

    Olha lá o filho da puta… Lá vem um estudante. Engenharia, é? Bota o adesivo na pasta, vai. Eu sei que o vestibular é um parto mesmo. Ainda assim: só aparece agora, um desgraçado. E chega de The Subways, maldito repeat. Querer uma mulher que ouça U2 é aceitável. E definitivamente mais simples.

  • Quase Natal

    Postado em 29 de Caos de 3176 YOLD , às 1:14:93 Peterson Espaçoporto View Comments

    (Dedicado à @julifuhrmann)

    Era uma madrugada quente de janeiro. Sentado na varanda da casa rústica no sul do estado, ouvindo o barulho típico dos grilos e outros bichos esquisitos, estava o casal. Nenhuma situação muito romântica; era apenas… Neutra.

    Ela observava o milharal à frente da casa, no terreno do pai do namorado. Ele ora lançava olhares furtivos ao corpo dela, ora lançava olhares poéticos para o céu. No primeiro caso, não sentia nada de específico ao fazê-lo; era pura contemplação, momento tão raro. Gostava de olhar por olhar, e fazer os olhos irem e virem na perna destapada pelo short jeans, como que lendo uma palavra grande e confusa várias vezes, ou mesmo olhando pra um aquário muito extenso, num espaço de tempo lento e sem som algum. No segundo caso, sentia a esperança boba de achar uma estrela cadente. É claro que isso não aconteceria. Nunca tinha visto uma, sempre achou péssimos os efeitos especiais de filmes que simulavam uma e tachava (apenas pra si mesmo, numa nota mental) de mentiroso qualquer um que dissesse que havia visto uma.

    — Milho não te dá medo?

    — Quê? — disse ele, rindo, acordando de suas ilusões bobo-contemplativas.

    — O milho é quase um personagem principal das histórias de terror de fazendas. Se tem um monstro ou bicho ou espírito, e a história é numa fazenda, a fazenda vai ser de milho!

    — Mas é porque milho é só o que eles plantam nos Estados Unidos.

    — Quê? Claro que não! — disse ela, cética e risonha.

    — Claro que é! Por isso que em qualquer filme o milho é o personagem principal. Milho é tipo o Capitão América pros americanos.

    — Então não é nada, né? Porque o Capitão América é muito chato.

    — Chato? — ria ele, fazendo ela rir em resposta — Por quê chato?

    — Ah, pára. Você já perguntou pra alguém Ei, e aí, qual é o teu super-herói preferido? E aí te responderam Capitão América!?

    — Não, mas aqui ninguém dá a mínima pra ele mesmo… Mas eu nunca perguntei isso pra um americano!

    — Que americano seria idiota pra gostar de Capitão América?

    — Por que essa implicância com o Capitão América?

    — Porque ele é ridículo, ele é tosco! É como a gente gostando do Zé Carioca porque ele é o brasileiro que foi morar na Disney! Foda-se o Zé Carioca, ele é muito chato!

    — Olha, na verdade… Nem tem nem diferença! Todos os heróis são muito parecidos, e os personagens de desenho animado também são…

    — Ah, não são não

    — Claro que são! Quer ver? Pega uma história do Zé Carioca.

    — Hum.

    — Agora tira o papagaio e bota o Pato Donald ali. Duvido se você não vai se matar de rir.

    Nada a ver! Se for o Pato Donald eu vou ficar imaginando ele falando com aquela voz dele, e eu vou rir.

    — Você imagina a voz deles no gibi?

    Ela olhou pra ele com uma cara que misturava decepção e sarcasmo.

    — Que foi? — perguntou ele.

    — Tá falando sério?

    — Sim, ué. Ah, é que você sabe, eu leio gibis passando muito rápido, todos os personagens têm meio que… Vozes parecidas, de acordo com o estereótipo.

    — Bem coisa de quem não lê HQ mesmo — e ela voltou a ficar de frente pra plantação, olhando o vento fraco mexer uma ou outra planta.

    Depois de uma pausa que não foi desconfortável porque ele já estava gastando seu tempo rindo, por dentro, da conversa com um fim potencialmente desconfortável, ele resolveu retomar a conversa:

    — Filmes japoneses ou outras coisas assim de terror não têm milho.

    — Filmes orientais de terror são urbanos, se passam na cidade. É óbvio que não têm milho.

    — Mas se passassem na fazenda, não teriam milho também. Isso é coisa de americano.

    — Amor… Têm fazendas no Japão? — perguntou ela. Os dois começaram a rir com sorrisos abertos, sinceros, ainda que não gargalhassem; olhavam um para o outro e alguma coisa forçava a boca deles a continuar aberta. Ela tinha bebido um pouco e era um pouco visível que ela não estava muito no controle dos músculos faciais.

    — Uma vez — começou ele, ficando de lado na cadeira pra olhar reto pra ela — eu ouvi uma história, uma lenda aqui da região, sobre um assassinato.

    — Como é — ela, um pouco mais desajeitada, foi rolando até ficar de bruços.

    — Assim você me desconcentra — comentou ele, fazendo ela rir. Desconcentrava mesmo.

    — Desculpa, mas agora eu tô a fim de ouvir a história — ela virou de lado, interessada — concentra.

    Tá, pra resumir…

    Não! — os dois riam da safadeza — Se não for a versão sem cortes, eu vou cortar outra coisa na nossa programação, querido…

    — Tá, tá… Bem, era uma vez um homem..

    — Não, pera… Era uma vez?

    — Tá, mas… Como é que você quer que eu comece?

    — De um jeito criativo. Surpreenda-me — ela estreitou os olhos pra ele, que pôs a cabeça pra funcionar. Não querendo se estender muito, falou a primeira coisa que surgiu à sua mente:

    — Era uma noite quente de verão…

    — Pronto, agora vai — ela estava séria. Não gostava dos risinhos típicos que quebravam o clima das histórias de terror.

    — Ok. Era uma noite quente de verão, e a cidade estava apinhada de turistas. Todos vieram atrás das odiosas casas baratas que você consegue encontrar ali na praia da Teresete.

    — A gente conhece o tipinho.

    — É. Então… Isso foi em Dezembro ainda, segundo o que me disseram. Era quase natal, e as lojas faziam aquelas promoções típicas. Mas não havia nada de típico quanto ao vendedor de uma das lojas, que naquela noite resolveu cometer um assassinato.

    — E foi matar quem?

    — O próprio irmão…

    — Uau… Por quê?

    — Ninguém sabe; na época todos disseram que eles tinham uma ótima relação, nunca foram vistos brigando feio, etc etc etc. Ninguém conseguiu entender o motivo.

    — Então pegaram ele mesmo?

    — Não, não! O legal da lenda é que não pegaram, se pegassem teriam descoberto o motivo.

    — Ou não… Vai, continua.

    — Bem… O caso é que a lenda é justamente uma lenda porque é a explicação que há por aí pro desaparecimento desse irmão do vendedor. O vendedor se chamava Renato, e o irmão, Odílio.

    — Odílio foi o que desapareceu?

    — Sim. Do dia pra noite, ou melhor; da noite pro dia. Sem deixar rastros. A última vez que foi visto foi entrando na loja em que o irmão, o Renato, nosso assassino hipotético, estava trabalhando até tarde da noite, arrumando o estoque, essas coisas.

    — E aí ele matou o irmão lá dentro da loja?

    — Sim. Dizem que foi com uma faca; ninguém ouviu gritos, ninguém ouviu tiros, ninguém ouviu nada. Mas fato é que Odílio nunca mais saiu de lá com vida.

    — Mas então ele saiu de lá?

    — Ah, saiu. Saiu, ficou na frente da loja por uma ou duas semanas e então foi embora de novo…

    — C-como assim?

    — Aí começa a lenda. Quer dizer, já começou antes, mas aí vem a parte boa dela. O que dizem é que Renato viu o que tinha feito com o irmão e agora não sabia o que fazer com o corpo. Foi aí que ele viu o Papai Noel gigante que a loja tinha comprado pra colocar na frente da loja, sabe, essas coisas que os lojistas acham que vai atrair mais compradores e coisa e tal…

    — Sei, sei.

    — Então: o Papai Noel era tipo actual size, sabe? Cabe uma pessoa ali dentro.

    — Ah, tá brincando!

    Não… Renato fez um corte nas costas dele, que iam ficar viradas pra uma poltrona de qualquer jeito, tirou o enchimento do boneco, jogou o corpo do Odílio ali dentro e costurou tudo de novo.

    — Caramba…

    — Sim. Aí limpou todo o sangue, se livrou das provas maiores e lá ficou o Papai Noel, na frente da loja, dia após dia… Depois que acabou o Natal, ele mesmo se encarregou de tirar a decoração. E enterrar o Papai Noel.

    — Nossa… — A história teve um efeito que nenhum deles, tão acostumados a ouvir e a contar essas histórias, esperavam. O ambiente ficou mais pesado; o quente e opressor ar parecia não mais fazer daquela noite uma noite agradável, e tudo ali fora meio que sugeria perigo. O quase silêncio (malditos grilos) também não ajudavam.

    — Eu acho que eu vou dormir… — comentou a garota, no mesmo instante em que uma pick-up estacionava em frente à propriedade. Era Márcio, um amigo que tinha vindo junto passar o feriadão por ali.

    — E aí Márcio… Cadê o Joel? — Joel era o irmão dele.

    — Foi, ah… Dormiu. Na casa de uma amiga.

    — Que amiga?

    — Acho que ele conheceu hoje — disse ele, dando uma risadinha que se estendeu ao longo da frase.

    — O que é aquilo ali dentro do carro?

    — Isso aqui? — perguntou ele, apontando com o polegar pro lado; no espaço atrás dos bancos da frente havia algo parecido com uma pessoa ali, vestindo uma roupa vermelha; os vidros estavam um pouco sujos, então não dava pra ver direito — É só, é… Uma fantasia que eu aluguei pra festa a fantasia da terça.

    — Ah, legal. Do que você vai?

    — P-Papai Noel — respondeu ele — Mas não sei, talvez eu.. Vou alugar outra ainda. Uma melhor.

  • Diferente

    Postado em 11 de Confusão de 3175 YOLD , às 0:32:08 Peterson Espaçoporto View Comments

    (crônica escrita para um concurso literário há um mês, mais ou menos)

    Eu queria ter a doença do igual – ou talvez seja melhor dizer doença do diferente. Do um só. O diferencismo, a diferentite.

    Jornalistas, médicos, biólogos, astrólogos, ficariam todos embasbacados comigo. Mas de um jeito diferente, é claro; eu não reconheceria igualdades. Cada um com sua “embasbaquez”. Me entrevistariam, me perguntariam: como é ter diferentite? Eu diria que não há nada igual.

    Professores de Matemática tentariam, inutilmente, me ensinar equações, mas eu jamais conseguiria entendê-las.

    - É 2, querido, é 2! 2 igual a 2, tá vendo?

    - Mas eles não parecem iguais! Eu não entendo!

    Minha mente apelaria para os mais variados artifícios pra não reconhecer a igualdade. Caligrafia diferente, tamanhos minimamente distintos. Cores, posições, temperatura do pedaço de papel – diferentes, diferentes, diferentes!

    Eu teria sérios problemas sociais. Igualdade de direitos? Não, são diferentes, não são os mesmos. Não entenderia. Elevados graus de semelhança me deixariam confuso; eu seria o míope da realidade, teria a aneuploidia da analogia.

    Eu nunca teria uma sensação igual à outra, pensem bem; ou pelo menos assim eu sentiria. Jamais trataria um como só mais um. Cores teriam tanto contraste que se predadores tivessem isso, os dias de camuflagem como arma de defesa estariam contados.

    Mas não. Infelizmente, continuo aqui na minha normalidade; cromossômica, congênita, social. Eu vejo tudo igual. É igual; o passado é igual ao futuro, e aquelas pessoas que detesto, todas iguais umas às outras, farinha do mesmo saco, são elas igualmente detestáveis. Não vejo diferença entre uma pessoa e outra, até mesmo eu; presos, todos, ao resumo, à síntese, ao prático.

    Queria eu ser diferente.

  • Profissionalismo

    Postado em 54 de Burocracia de 3174 YOLD , às 3:29:86 Peterson Espaçoporto View Comments

    Maurício era uma pessoa comum. Tomava café, comia carne, visitava o orkut. É claro que isso não o tornava medíocre; não há nada de errado em ser uma pessoa comum.

    Maurício tem até mesmo um trabalho. Um trabalho que, hoje ele vê, não tem nada de muito especial. Hoje ele vê seus horários de trabalho como obrigações cinzentas, meros processos, meras rotinas pelas quais ele têm que passar. Nunca a etimologia da palavra lhe foi tão verdadeira; o tripalium podia não maltratá-lo violentamente, mas afinal, as coisas que irritam são piores que as que fazem sofrer.

    Nunca foi uma vida extremamente aprazível, vá lá, sua infância foi ok, mas oh lord, nunca foi tampouco assim, shitty. Ele olha para a sala mal iluminada – coisa chique, coisa chique – com um pouco de desprezo. O quadro de flores da tia, que não lhe desperta emoção alguma; as suficientemente suntuosas cadeiras, a coziha com lava-louças. O carro bom na garagem. Ele teve vontade de jogar a taça de vinho no chão e fazer cara de nojo profundo, como nos filmes. Mas não fez nada. É só uma inquietação, não dê uma de babaca – pensava.

    Tudo começou quando ele era uma criança. Curioso, parece que tudo sempre começa quando se é criança, mas neste caso nada começou na infância. Maurício nunca teve nenhum problema com a morte. Bom, as crianças não têm muita dimensão dessas coisas mesmo, mas enfim. Medo, talvez; ele temia tudo além de seu entendimento, mas não o suficiente pra não chegar perto. Pra não rondar. Rondar. Essa é a palavra, talvez. Ele está sempre por perto desses mistérios que o assombram. Não é capaz de deixar pra lá, esquecer essas coisas, fingir que não estão ali.

    Nunca teve nojo nem horror de saber que somos de carne e osso. Seus olhos brilhavam ao admirar a anatomia humana; não tinha receio de fazer exames de sangue e observava prazeirosamente ossos, músculos, sangue. Empolgou-se ao dissecar sapos, ratos, pombas. Sentia frio na espinha quando ficava no escuro; continuava assitia filmes de terror, however.

    Quis fazer medicina, mas o seu futuro mostrava-se bem distante de suas aspirações mais secretas. Suas aspirações eram brutas e irracionais; um misto de sensações complexas que não se “acendiam” com a possibilidade da medicina. Que nobre, que nobre; salvar vidas, curar doentes. Que chato, que desgastante também. Horas, horas, dias de estudo, trabalho mortificante. A medicina mata, dizia um amigo. No mínimo quem quer entendê-la. Ele queria sangue, queria. Trabalhar com anestesias, desfibriladores, bisturis – mais particularmente esse último. Vivia dizendo que adoraria trabalhar numa casa mortuária, só pra assustar os amigos. Tolinhos.

    Nunca foi muito violento. Embora sua expressão carrancuda e seu físico ligeiramente avantajado inspirasse algum medo em quem não o conhecia, ele era amigável e nunca se envolveu com pessoas de fato violentas. “Porradas”, “chutes”, “voadeiras” – que coisa mais vulgar. Até armas de fogo lhe pareciam chatas, idiotas, coisa de gente pequena.

    Sua grande chance, aparentemente, surgiu enquanto cursava o terceiro ano. Um estágio numa agência de serial killers. Uma das maiores do estado. Compareceu à entrevista; trêmulo, tenso, confuso. É uma grande carreira, é claro; uma vida promissora à frente e um calorzinho em algum lugar ao longo do esôfago o levaram a tentar. Por que não, afinal?

    Jamais imaginara que poderia realmente fazer aquilo. É mais ou menos como ser astronauta, ou escritor famoso, ou mesmo músico famoso. É literalmente um universo famoso. São profissões relativamente comuns – com a exceção dos astronautas – e que são exercidas por pessoas, pessoas como todo mundo, não por semideuses. É claro que é necessário talento, mas mesmo pessoas talentosas caem na desgraça de não se acharem capazes. É mais ou menos o que acontece com a quase ‘astronáutica’ profissão de serial killer.

    Poderia ele ser um serial killer? Adolescência é mesmo a época em que se fará tudo que a pessoa já sabia que faria um dia, mas nunca pensou a sério sobre.

    A entrevista correu bem, e na outra semana ele foi chamado.

    - Meu nome é Maurício.

    - Oi Maurício, meu nome é Paulo. Bem, hm, bem-vindo! Aquela ali é a Samara, (”fazer piadinha com meu nome é um dedo a menos”) um doce de pessoa. Aquele ali é o Marcos…

    E assim Maurício foi com seu chefe conhecer todo o staff. Logo no primeiro dia organizou um bagunçado arquivo de vítimas de 2003. Nada muito interessante, mas tudo bem. Ele teve o prazer de ver Samara chegando quase no fim do expediente, contando como foi legal o trabalho do dia. Ele ficou com um pouco de medo dela, mas no fim acabou rindo, no ônibus de volta pra casa, imaginando as cenas com as informações que pescou nos relatos.

    E o tempo foi passando; ele se decidiu pela biologia e passou a ser um empregado permanente da empresa. Fazia sua burocracia com excelência, o que agradava Paulo, mas não Maurício.

    Então um dia Samara pediu as contas. Com menos pessoal, todos passaram a trabalhar mais. Algumas semanas depois, à base de muitas conversas sutis e falsas gentilezas, Maurício foi promovido – mas não tão rápido; era, agora, aprendiz. Acompanharia os serviços de Fernando.

    No campo, com a mão na massa, Maurício foi aprendendo que o trabalho era um pouco diferente daquilo que ele imaginava. Era um pouco tedioso, fosse porque Fernando era curto demais, objetivo demais, fosse porque envolvia, às vezes, uma briga forçada pra provocar o assassinato na forma de legítima defesa. Coisas da lei.

    Maurício, carregando e ligando com os corpos e recebendo treinamento técnico de Fernando, chegava em casa exausto depois da faculdade. Dores de cabeça, dores no corpo; não tinha tempo pra mais nada.

    Depois de um tempo o dinheiro começou a apertar. Sua faculdade era paga; vivia sozinho mas se mantia com a ajuda dos pais, que se tornava cada vez mais algo incômodo pra ele. O filho já tinha sonhos, aspirações; queria uma casa própria, eventualmente um carro próprio, o último iPod, uma jaqueta de couro tão cara quanto a de Marcos, que a usava em assassinatos especiais. Queria, queria, queria. Como e quando conseguiria, se dependia do dinheiro dos pais até mesmo pra comer?

    Maurício passou a trabalhar independentemente. Comemorou numa reunião simples com a família, que acabou em briga. O pai pressionava; quando é que ele teria uma mulher, uma companheira, namorada que fosse? A vida tem que ser aproveitada, dizia ele. O recém serial killer conhecia algumas garotas interessantes. Teve três ou quatro namoradas, mas nada muito durável. Saiu de lá com gosto de champagne na boca, ainda que amargo. Mesmo sozinho, não chorou. Achava teatral demais chorar no ônibus, àquela hora da noite.

    O dinheiro a mais que veio com a ascendência profissional o levou a não mais precisar dos pais. Devolveu o depósito feito no mês seguinte e, mesmo não podendo nem chegar perto de um supermercado mais “convincente”, se sustentou bem.

    Matava pessoas com bastante perícia e até mesmo gosto. Era bem detalhista; embora o regulamente não permitisse, ele gostava de um pouco de tortura. Arrancar as unhas, água escaldante aqui e ali. Costumava fazer o serviço com eficiência.

    Logo ele ficou consciente de que seus colegas de trabalho dariam a ele o mesmo tratamento que sempre deram uns aos outros. A competição acirrada, a eventual intriga, a sutil puxada de tapete. É claro que no escritório o tratamento era cordial; eram todos “lordes”. Mas bastava um trabalho aparecer que as “conexões” certas eram feitas.

    Cada um ali tinha um estagiário protegido. Ele preferira, em seus tempos de estágio, manter distância dos matadores e ficar bajulando o chefe. Seja como for, de uma coisa ele estava certo: precisava de um protegido.

    Tirando as hostilidades verdadeiras e as cordialidades falsas, Maurício tinha um amigo na empresa. Seu nome era Fábio; era mais velho e já casado. Os dois passaram a sair uma vez ou outra pra beber uma cerveja, ou assistir a jogos de futebol.

    Fábio era um cara legal. Mandava e-mails engraçados pra Maurício, com piadas, fotos legais, etc. Maurício se irritava um pouco com isso, mas relevava. E assim ele tinha um amigo, que supria relativamente bem a falta que os antigos fazia. Os antigos ele via uma vez por semestre ou menos; alguns saíram da cidade, alguns foram pro outro lado da cidade – o que dava no mesmo – mas todos lhe davam os parabéns pelo aniversário na internet. Ele de vez em quando pensava como seria mudar a data de seu aniversário, só pra ver o que acontecia – mas sempre deixava pra lá, nunca fazia mesmo.

    Então veio Setembro, um mês tumultado. Houve uma grande troca de empregados entre filiais da agência; Fábio foi chamado pra ficar um mês numa agência fora do estado. Vieram alguns serial killers de fora, e a situação ficou ainda mais bagunçada porque o computador da empresa foi atacado e se tornou inutilizável por uma semana.

    Naquela semana Paulo perdeu o controle da situação. Um dia Maurício ficou encarregado de matar um homem de meia-idade. Chegando na casa dele, viu Fernando lá, fazendo o serviço. Os dois discutiram, brigaram feio e ameaças foram trocadas. Fernando tinha o péssimo hábito de fazer os serviços que apareciam se ele estivesse por perto, mesmo que não fossem dele. Era uma questão de praticidade, dizia, não importa o quanto Paulo já o tivesse advertido por isso. Segurança o caralho, pensava Maurício. Ele queria era a comissão, e a sua cara de pau era grande o suficiente pra negar isso. Fernando facilmente fazia-se passar por vítima; fazia parecer que a empresa estava errada no modo como gerenciava seus ‘recursos humanos’. Psicopata maldito, pensava Maurício. Obviamente que algum estagiário o avisava feliz como um roedor dos infernos sobre o que aparecia lá na empresa. Maldito, filho da puta.

    Na outra semana, circulava o boato de que Maurício havia estuprado uma vítima.

    Não era verdade; a quase castidade circunstancial de Maurício foi veladamente dita a Fernando há tempos; é o tipo de coisa que se fala usando uma segunda personalidade masculina, assumida quando se está perto somente de outros homens. Nunca se espera que essas “cantadas de galo” ou mesmo “revelações” dêem em alguma coisa. Dessa vez, deu.

    Nada foi provado, o tempo passava, o clima permaneceu tenso – Maurício foi graduado. Fábio voltou e não se pronunciou sobre o caso. O futebol aos domingos foi ficando cada vez mais raro; é verdade, o campeonato agora era outro, não tinha mais graça. Mas será que era só isso o objetivo das reuniões dos dois?

    Mais gente foi contratada, já que a agência crescia vertiginosamente, acompanhando o mercado. Maurício passou a trabalhar nos sábados, sábado sim, sábado não. Mais uma namorada veio e foi. Mais um ano se passou. Ele via no orkut que algum de seus amigos já se casaram – um tinha até um filho.

    Era engraçado ficar olhando as fotos dos amigos. Parecia um tio mais velho; nossa, como cresceram. Como eles parecem felizes nessas fotos na frente de cachoeiras. Será que são felizes mesmo? E eu, o que é que eu sou? Eu também tenho fotos na frente de cachoeiras. Estão todas no meu orkut. Já viajei bastante nas minhas férias. É, acho que a minha vida não é ruim não.

    Ele começou a trabalhar por fora; juntou-se com um amigo num esquema pra matar clandestinamente e não passar pelo filtro dos impostos. Dinheiro bruto, dinheiro alto; pena que havia pouca procura. Mas uma ou duas noites por mês ele estava lá, matando alguém aparentemente importante. O amigo trabalhava na polícia, e fazia questão de não dar muita atenção a esses casos civis de sonegação, suposta formação de quadrilha, enfim…

    Depois de um tempo pôde comprar um carro melhor; já planejava um apartamento próprio. Apartamento, apesar de seu sonho ser uma casa, porque não podia pagar o preço que cobravam por uma residência decente. Tinha que ser um pequeno apartamento, pelo menos por enquanto.

    Um dia ele viu na internet um movimento brasileiro contra os serial killers. Leu um manifesto, viu que muitas pessoas demonstravam seu repúdio contra eles. Propunham o fim das agências; alguns mais moderados propunham uma regulação mais severa. Quando viu aquilo no computador, numa noite fria de quinta-feita chuvosa, ele até tirou o casaco que usava; uma onda de calor passou pelo seu corpo. Ele ficou desnorteado, irritado, tateando na sua mente tudo aquilo que já sabia que justificava tudo o que fazia. Arranjou um par ou mais de silogismos. Procurou no google e achou algumas opiniões que comparavam essa idéia à de proibir propagandas de cerveja na televisão ou coisa do gênero. Naquela noite não dormiu bem, mas nos dias seguinte estava mais tranquilo.

    Dado o teor de alguns comentários que viu na internet, comprou um revólver para segurança pessoal. A paranóia sempre o rondava, e fazia um esforço pra esquecer um pouco o medo que passou a sentir. Logo sentiu medo de ir trabalhar. Comprou um silenciador para o revólver e passou a usá-lo para matar. Em nome da segurança, afinal.

    Um ano se passou. Havia comprado uma Sniper – nem precisava mais ter contato com a vítima. Isso se mostrou problemático mais tarde, mas ele deu um jeito de se livrar das chatas diretrizes e dos estagiários que as repetiam feito papagaios. Paulo inclusive o apoiava. A Sniper era uma boa idéia, definitivamente.

    A Sniper era linda, pensava. Como ele não via antes a beleza das armas. Ele a limpava todas as noites. Com real dedicação. Estava ela lá, rainha absoluta no seu apartamento. Cero que ele guardava o amor à rainha no seu coração, cantando seu hino na imaginação; rainhas não podem se dar ao luxo de ficarem expostas, são parte importante do seu Estado e precisam ser protegidas. Lá estava ela, de baixo da cama. Ele não teve tempo nem idéia para lhe dar um trono digno, mas lá era um bom lugar. Ela era linda, como era. Para ele não havia nada naquele apartamento próprio mais importante do que ela.

    Deu mais um gole de vinho. Voltara havia meia hora de mais uma de suas aventuras indie. Agradeceu que levou a Sniper consigo, como cada vez mais freqüentemente fazia. Ô, decisão acertada. Bom, nada de muito mérito na escolha; ele estava com uma dorzinha nas costas que o fazia ficar até um pouco arcado. Precisou mesmo da Sniper, mas não pensava que ela – bem, será que “ela”? – lhe concederia um bônus naquela noite. E riu…

    Era o preço de tanto trabalho, meu deus. Garantir essa vida, que nada é de graça. A equipe matava cada vez mais. “Como ainda tem gente pra morrer?”, pensava ele.

    E ria. Ele ria.

    Lá estava ele. Com seu apartamento mais ou menos. Seu carro mais ou menos. Seu vinho mais ou menos. Seu trabalho mais ou menos. Sua vidinha mais ou menos. Um corpo feminino nu na cama – morto – que, pensou ele quando o viu pela mira da sniper – não era nada mais ou menos. E ria. Entre um sorrisão e um sorrisinho, pensava que havia sido depois, e não antes. Não há nada de errado com isso, afinal.

    Era sua filosofia de vida, ele pensava. Temos que rir das coisas “mais ou menos” e pensar nas “pelo menos”. Pelo menos estava vivo. Vivo, mais ou menos. E ria.