E também o assassinato de outros deuses
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  • O Relativismo de Tudo

    Postado em 24 de Burocracia de 3176 YOLD , às 7:30:44 Peterson Espaçoporto View Comments

    Até mesmo aqueles que não consideram as coisas muito relativas — que consideram a realidade das coisas algo sólido e tangível; que há uma verdade universal, e de certo modo há um pouco (no mínimo) disso em todos nós — todas as coisas são, de certa forma, relativas.

    Comecei pensando nisso quando me lembrei de uma frase que li num livro de um psicólogo (acho que foi aquele O Carrasco do Amor). Ele dizia que a tarefa do psicólogo é, aos poucos, fazer o paciente entender que ele é o responsável (culpado fica um pouco forte, mas cabe também) por aquilo que lhe acontece. Não é culpado se alguém que ele ama morre num acidente de carro, mas é responsável por ter se deixado abalar a um ponto extremo em que precisasse de ajuda psicológica. É claro que não é assim simples, só sair acusando e dizendo que a pessoa deveria ter feito isso ou aquilo. Mas é um processo em que a pessoa toma consciência da sua responsabilidade, vê que na verdade há coisas dentro do seu campo de açao que poderiam ter sido e podem ser feitas pra tirá-la da situação em que está. É deixar pra trás, por uma questão de um novo mindset, a posição de vítima e virar um ser atuante.

    O psicólogo faz isso, mas não significa que essa seja a realidade. No caso do bullying, por exemplo: se o valentão bate em alguém mais fraco e submisso, é óbvio que a culpa do ato é do valentão. Mas se esse for o pensamento do garoto violentado, ele nunca vai mudar a situação que o incomoda. Então ele tem que passar a pensar que o valentão o bate porque ele não responde, não revida, não o incomoda de algum modo ou porque acaba parecendo frágil, quando não deveria, e então vai tomar alguma atitude que vá mudar aquela situação. Então a questão não é bem o que é real, mas no que é melhor acreditar para atingir algum objetivo.

    E, de forma semelhante, nossa ciência das coisas que são de tal maneira porque são nos sussurram: é assim porque se fosse de outra maneira as coisas não fariam sentido. Mas quem disse que têm que fazer?

    Essa é a minha despedida do Orkutcídio em sua forma atual, forma essa que durou mais de 3 anos (ou talvez mais, já perdi as contas), teve mais de 500 posts, bem mais de 1500 comentários, me rendeu amizades, recebeu a colaboração de pessoas (reais e imaginárias), fomentou projetos e ideias e traduções e propostas e discussões e outras coisas. Foi algo muito foda pra mim e valeu muito à pena, Mas estou incomodado com esse conforto (quase um paradoxo, hum?) e, por mais que me seja muito honrosa a ideia de manter meu passado e minha história intactos, eu quero muito, muito uma condensação, uma renovação, uma solidificação, algo do gênero. Então vou apagar tudo (na verdade fazer um backup e ir relendo e refinando as ideias) e vou recomeçar em outro lugar.

    Até mais e obrigado pelos peixes ;)

  • Os Túneis da Realidade

    Postado em 14 de Burocracia de 3176 YOLD , às 9:89:55 Peterson Espaçoporto View Comments

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  • Valor

    Postado em 13 de Burocracia de 3176 YOLD , às 9:95:74 Peterson Espaçoporto View Comments

    Na vida a gente precisa valorizar, saber dar valor às coisas — e digo dar num sentido mais ativo da palavra. Não só sentir o (um, na verdade) valor, mas atribuir valores, julgando de acordo com coisas racionalmente consideradas, mais ou menos na linha de “é mais importante o que você faz do que você pensa”. Caso contrário, cai-se em grandes armadilhas sensoriais que nada mais são do que único resultado plausível…

    Em tempo: a Globo sabe que Malhação é ridículo. Mas não vai parar de exibir porque metade das pessoas que acham ridículo ainda assistem, sabe-se lá por quê. E é assim com quase toda a grade da programação dela.

    Ou seja, lá vem o Bigodón: todo o respeito pelos seus pensamentos, mas pequenas ações divergentes contam mais…

  • Questões Metodológicas: Professor

    Postado em 10 de Burocracia de 3176 YOLD , às 6:41:31 Peterson Espaçoporto View Comments

    Embora o título pareça meio caracinza, na verdade ele expressa uma dúvida muito pontual sobre a atividade do professor. Estava eu tendo minha primeira aula de verdade sobre Antropologia na UFSC (que foi interrompida, pra meu completo desgosto, pela palhaçada do trote) quando me veio à cabeça a ideia de que eu não gostei muito do jeito do meu professor. Não só por causa do portunhol dele (ele é venezuelano), mas pelo jeito de explicar dele.

    Cheguei a essa conclusão depois de relacionar esse jeito dele com o jeito de outros professores dos quais eu não gostava também. E a minha impressão geral foi a de que ele era muito “viajão” na explicação. De certo que a “viagem” em si não é ruim; em geral demonstra empolgação, no mínimo. Se você é capaz de viajar no seu conhecimento é porque você realmente o entende, você está íntimo dele a ponto de “brincar” com ele. Então fazer digressões malucas, comentar como é “curioso” a origem de certas coisas ou relações entre certas coisas… E então notei que na verdade gostava de viajar no conhecimento. Mas quando a viagem era minha, não do professor. Enquanto aluno (e também paciente, em relação a médicos) sempre gostei da objetividade. Gostei da informação clara e concisa, sem muitas voltas pra explicar algo simples, porque assim eu pegava as coisas mais rápidas e depois refletia sobre elas, sozinho. Talvez porque a “viagem” de quem está explicando algo faça sentido pra pessoa, mas explicar a viagem pessoal a outra pessoa dificilmente vai conseguir fazer o outro passar pelo mesmo caminho que você foi. O que talvez seja marca da oralidade, uma vez que textos e livros, talvez por apresentarem um caráter estrutural que obriga já a uma maior clareza no estilo, faça com que as viagens, as lógicas, as linhas de raciocínio (até as mais bizarras) consigam fazer bastante sentido pra mim…

    Mas então pensei novamente. Não, havia algo de errado com isso. Definir “viagem” mesmo é complicado; o fato de o professor ir além do que estava ali pra ser ensinado e ter trazido uma curiosidade, ter feito uma relação interessante, isso eu sempre apreciei. Mas talvez a diferença esteja no estilo; há algumas viagens em que algumas coisas são apresentadas e pronto: está ali, agora você, aluno, continue a viagem, veja se você embarca no mesmo raciocínio que eu… O fato é que conhecer as entranhas de qualquer campo de conhecimento é interessante, mas esse conhecimento tem que ser adquirido de forma autônoma. E o que alguns professores fazem é enrolar demais tentando levar o aluno pelo caminho desse desbravamento. Aí acaba em confusão e insegurança.

    E aí acabei chegando a um ponto mais crucial: insegurança. Talvez aí esteja o cerne da questão. Não bem o que é dito (se informação objetiva ou mais subjetiva, coisas mais profundas e abstratas) mas como é dito (se com clareza e segurança). Será que a assertividade não seria um fator psicológico que diferencie o professor do livro enquanto instrumento memético na aprendizagem? Explico: se você entender o processo de adquirir conhecimento como a aquisição e adaptação do seu túnel-realidade a um novo conjunto de memes, você se depara com os instrumentos meméticos que podem ser utilizados pra isso (instrumento memético sendo qualquer coisa que carregue as ideias, os memes).

    Um desses instrumentos é o livro: ali estão milhões de memes — um memeplexo que você pode absorver e aprender algo. O professor é outro; ele, falando pra você sobre determinada coisa pode fazer com que você aprenda (esteja você disposto a isso). Todos sabemos da interessante coisa que é a persuasão: algumas pessoas convencem outras facilmente, outras são facilmente convencidas. Algumas outras são inseguras e muito susceptíveis a encarar ideias transmitidas com assertividade como “wow, é verdade, é isso aí”, e outras são apenas desprovidas de ceticismo. Então, de certa forma, não seria isso um fator interessante na relação professor-aluno pra ajudar no processo de aprendizagem? A certeza, a clareza, a segurança com que algo é dito?

    De uma forma ou outra, enquanto outros professores podem se beneficiar dessa discussão pra refletir sobre seu próprio jeito de conduzir a aula, eu ainda tenho que me debater com a questão de ser um professor de língua estrangeira; sendo assim, será que o mesmo se aplica? Por exemplo, se você não quer usar a língua nativa e ficar traduzindo palavras, muitas vezes é difícil explicar alguma coisa sem viajar um pouco. Por exemplo, “noisy” não dá pra explicar fazendo gestos. Eles vão entender milhões de outras coisas, vão demorar demais pra pegar “barulhento”. Então sempre que precisei ou usei o contexto em que a palavra surgia no livro didático ou dava exemplos do tipo “você vai dormir e seu pai ronca” (em inglês) e aí apelava pra gestos e exageros sonoros. E por aí vai.

    Como tentar ser simples e objetivo nesses casos, ou, ainda pior, quando você tenta ser direto e o aluno não entende? Por exemplo, baggage é um substantivo incontável em inglês que representa tudo aquilo que você carrega consigo quando viaja. Mas pra explicar você pode usar imagens, ou exemplos — o que já seria bastante viagem; muitos alunos ficam confusos — ou pode tentar dizer “the idea of bags, suitcases, everything you carry when you travel” etc. Mas e se ele não entende? Pior: furniture. Você pode tentar ser bem simples e dizer “chairs, tables, desks, etc… Furniture!” mas e se a pessoa continua não entendendo? Aí você tem que viajar. E isso nem sempre ajuda.

    Isso é só um dos detalhes de ser professor, uma das coisas que você tem que se preocupar quanto ao método. Mas ainda continuo me perguntando sobre a própria natureza de ser professor, e preparo um post assim há séculos. Daqui a algum tempo ele sai. E aí, enfim, depois disso, um texto sobre o livro Sociedade Desescolarizada.

  • De como as línguas se tornam mais complexas — Inflação — Arte e expressão

    Postado em 4 de Burocracia de 3176 YOLD , às 0:15:57 Peterson Espaçoporto View Comments

    Uma vez assisti a uma apresentação de linguística sobre a simplificação da língua. Estava exposto o problema da conjugação de verbos em inglês na terceira pessoa. Inglês é uma língua SVO (Subject Verb Object) então sempre (exceto em expressões idiomáticas muuito arraigadas em que o sujeito e o objeto estejam subentendidos, e ainda assim é preciso tomar cuidado) vai estar especificado o sujeito. Não é necessário conjugar o verbo na terceira pessoa — sempre saberemos que é a terceira pessoa que faz a ação porque ela está na frase.

    A palestrante apontava muitos outros exemplos de coisas que estavam se simplificando na língua. E ela dizia: “a língua é econômica. Se há dois jeitos de dizer as coisas, vamos acabar preferindo o mais simples”.

    Então minha pergunta foi: ora, então por que elas se tornam complicadas em primeiro lugar? Por que não nascer simples e continuar simples? Que processo levou à criação de expressões, palavras e estruturas que hoje estão “deprecadas”?

    Ela se esquivou dizendo que se eu estudasse entenderia por quê. Ora, mas é óbvio que eu entenderia o porquê. Se eu estudasse e não entendesse o porquê eu acabaria por refutar a tese dela. Logo ela supõe que haja uma razão.

    Acontece que lembrei de algo que li uma vez: às vezes as línguas adquirem palavras e estruturas mais complexas porque os falantes que dominam essas estruturas vão parecer cultos. Pessoas gostam de esbanjar vocabulário e correção gramatical em frente a autoridades. Por isso é que essas estruturas não são abandonadas — e muitas vezes novas são criadas, ou novos sentidos são dados a coisas existentes, e por aí vai.

    Mas essa explicação parece um pouco insuficiente. O mundo aristocrático parece ser muito mais resistente a mudanças do que o da plebe — hoje em dia, pra fazer um paralelo, gente de classe média pra cima (ou quem tem mais estudo, ainda que menos dinheiro) é quem fala “direito” e, principalmente, quem preza pelo falar direito. Então eles não seriam bajulados pela criação de expressões — que lhes pareceria falso, pitoresco, tosco — mas sim apenas pelo uso correto das já existentes.

    Então como a língua se complica eu não sei. Mas há mais um exemplo que achei curioso: o caso de usar “menas”. Eu tenho “menas” folhas que ele, etc. Ora, menos é um advérbio (não é?) e advérbio não muda de forma! Só que em português a terminação “o” é muito carregada de significado masculino, e “a”, de feminino, o que faz com que um advérbio seja tratado como adjetivo. Então em breve, no português, teremos advérbios que funcionam como advérbios e advérbios que funcionam como adjetivos. E aí vai ser uma confusão dos diabos. Imaginem um estrangeiro aprendendo português: “mas professor, que advérbios concordam com o gênero e quais não concordam?”. Hell. E aí a língua se torna mais complicada. Por causa de algo que aparentemente é mais simples e intuitivo…

    Um adendo interessante: a bala 7 Belo, a melhor bala (nossa, como é boa) inflacionou! Depois de anos durante a minha juventude mais juvenil custando 5 centavos, agora ela custa… 10 centavos.

    Se encararmos a arte como toda forma de expressão humana, então podemos dizer que tudo de artístico que é feito sai como se fosse um discurso de alguém. O gosto artístico de alguém tem a ver com o gosto pelo conteúdo das pessoas; quando você conhece alguém mais a fundo você começa a julgar a pessoa no seguinte formato: “ok, vamos ver o que ela tem a dizer“. Uma obra de arte é uma das coisas que a pessoa tem a dizer. Toma essa música, esse poema, esse livro, esse quadro, essa escultura. Taí o que eu tenho a dizer. Os diferentes estilos de se fazer as coisas são paralelos ao estilo de se comunicar; tímidos, extrovertidos, gestuais, pomposos, complexos, atrapalhados, simples e diretos… E os propósitos também são variados. Desenvolver gosto artístico (próprio) é como desenvolver gosto por pessoas. Ah, o tal cara só fala de política e vive enchendo o saco com vegetarianismo –> mesma coisa com bandas que só têm letras de cunho social. Pra algumas pessoas é um atrativo. Tanto em pessoas (alguém ser engajado) como em arte (arte pra fazer pensar).

    Agora pensem em bandas desse tal rockzinho brasileirinho de Cine, Restart e outras bostas. É que nem adolescente fútil sem cérebro. Pede pra ele abrir a boca e ativa o seu pensamento: “o que ele tem a dizer?”. Vai sair o que tá lá na música. Sua arte acaba sendo de certa forma o que você tem a dizer. E o jeito que você vai dizer. E funk de duplo sentido? Pelamor, gente, fase mais chata da adolescência é aquele período de maliciar duas em cada três palavras que as pessoas falam. Até eu me irritava quando EU era assim. E gente que só fala em sexo, então. Aquele tio tarado & desinibido, hãn? Eita. Há quem goste, pois…

    Engraçado é que gosto por pessoas é tão fácil de desenvolver. Todo mundo acaba pegando muito fácil isso de “eu gosto de pessoas que ____” e “eu não gosto de pessoas que _____”. Mas transportar esse tipo de julgamento pra arte é algo que não se vê sempre.