E também o assassinato de outros deuses
RSS icon Home icon
  • Os Bons Só Se Ferram?*

    Postado em 35 de Confusão de 3176 YOLD , às 8:95:10 Peterson Espaçoporto View Comments

    Às vezes a vida é irônica. Você faz tudo certo; segue à risca a cartilha e, em geral, pode ser considerado aquilo que se conhece por “pessoa boa” (ou, dependendo da ênfase, melhor seria “boa pessoa” ou mesmo o popular “boa gente”) — mais do que boa praça, você é bonzinho.

    E então, plá: só acontece merda com você. Você olha em volta e vê que realmente não tem amigos, só um grupo resultante da combinação de oportunistas caloteiros, oportunistas sociais, falsos e mentirosos, entre outros. Às vezes até mesmo amigos que você considerava verdadeiros conseguem te decepcionar. Mas porra, eu sou tão bonzinho, por que só merda acontece comigo?

    A desgraça social dos bonzinhos é resumida numa frase que ouço minha mãe dizer o tempo todo: “bonzinho só se fode” (ênfase no fode). Ou então variações como “é, é assim. Tenta ajudar os outros e só se ferra”. Bem, quanto a isso (a gênese dessa realidade [será realidade?] social e suas implicações) tenho algumas considerações e/ou questionamentos:

    1) Isso é uma coisa da sociedade moderna ou da natureza humana? Será que há 1000 anos atrás havia o mesmo tipo de sabedoria popular? Mesmo sendo sim ou não, partamos para a próxima: o que causa isso?

    2) Uma das explicações mais simples vem do fato de que pessoas bonzinhas — as que são solícitas, querem ajudar, são preocupadas e conscientes — costumam também conter certa dose de ingenuidade — isso, aliado a outros fatores tais como a boa-vontade no que tange a “dar crédito às pessoas” acaba dando em merda. Acaba em bonzinhos dando segundas chances a pessoas que não as aproveitam. Acaba em bonzinhos caindo em armadilhas, servindo de trouxas.

    3) Contudo, há uma explicação alternativa que formulei que supre a minha inquietação com a explicação padrão exposta no ponto 2 acima. Digo inquietação porque creio que é possível ser “bonzinho”, mas não ingênuo, e embora as duas coisas andem juntas, com o tempo o discernimento vem e a solicitude e a boa-vontade acabam sendo melhor dirigidas, e o bonzinho acaba aprendendo a se proteger de aproveitadores.

    Ué, mas isso não faz com que o bonzinho justamente deixe de ser bonzinho? Talvez. O que ocorre é que a perda dessa ingenuidade geralmente leva à amargura; junto com ela vai também a prontidão de ser útil a quem precisa de um mão (ou nem precisa tanto, mas adoraria uma). Quando se vai a bobeira mas não fica a amargura, acho que chegamos a um perfil do bonzinho mediano (a pessoa que podemos chamar de boazinha sem ser no sentido pejorativo, digamos) — mas essa ainda se fode!

    Minha teoria é a seguinte: as pessoas erram. Muito; viver no cabo de guerra multidimensional que são as relações sociais acaba criando tensões com as quais nem todos sabem lidar. A bem da verdade o surgimento de muitas dessas tensões já demonstra nossa fraqueza pra equilibrar vontades, objetivos, empatia e tudo o mais de voluntário e involuntário que se tem a considerar…

    O que acontece é que, como todo mundo faz cagada, acaba sendo normal ser vítima das cagadas. A pessoa se acostuma. Muitas vezes a prepotência surge e faz alguém não pensar fazer besteira e causar mal aos outros, mas ainda assim ficar puto quando alguém lhe causa mal — mas em geral, existe um equilíbrio de forças. I screw up, you screw up, we’re fine. Tá tudo certo.

    O problema com pessoas que têm tato e habilidade social é que elas simplesmente conseguem acertar mais do que errar — o que não impede que vivam junto com pessoas que fazem muita merda, e quando ela vai pro ventilador, ih… O que ocorre é que o bonzinho acaba vendo na sua história uma equação desbalanceada. É muita coisa ruim que acontece pra ele — fruto do seu contato com quem não é assim tão habilidoso pra viver em paz — pra poucas coisas ruins que ele faz. Ele sente que há algo de errado nisso; a sua única conclusão é a de que não vale à pena tentar fazer tudo certo, já que isso não vai fazer com que coisas ruins parem de acontecer. E aí vem a amargura proveniente da sensação de não ser recompensado, nem valorizado. O que é uma coisa foda mesmo, convenhamos.

    Em suma, o bonzinho se fode não porque é o alvo predileto, mas é porque o que menos fode os outros (é tanta fudelança nesse post, mas juro que é tudo no bom sentido, pessoal) e aí vê um desequilíbrio se desenhando na sua timeline. Ta-dah! Que tal?

    4) Pra lidar com isso um jeito interessante de pensar é que [sugestão aqui, pessoal, isso é, como qualquer conteúdo do blog, uma coisa a se pensar. Não to bancando o psicólogo EHAEHAEHA], em primeiro lugar, o fato de tentarmos ser bons tem a ver com crescimento pessoal. Tem a ver com entender que a recompensa por fazermos as pessoas de que gostamos alegres é a própria alegria delas, e não uma retribuição em forma de ação positiva (ou estaríamos, quem sabe, esperando o outro ser responsável pela nossa felicidade!).

    Lidar com isso envolve a aquisição dessa sabedoria e desse agir voltado pra empatia, para o compartilhamento da felicidade com o outro. Além disso, tem todo um pensamento coletivo também se incentivarmos os outros pra essa direção: ao invés de eu desistir de ser bom e de ajudar e tudo o mais porque “não compensa”, eu deveria justamente seguir forte, levantar a bandeira do “don’t screw up” e tentar ajudar as pessoas a melhorarem nesse quesito. Além de ser bom pra elas aquela aquisição de sabedoria da qual acabamos de falar, isso significaria menos gente fazendo cagada — ou seja, o bonzinho acaba sofrendo menos também. Todo mundo cresce junto, se ajuda a crescer mais e erra menos. A balança já não está tão desequilibrada.

    E, por último, é engraçado uma coisa que falei antes sobre “dar uma segunda chance a quem não sabe aproveitar” etc. A gente se negando a ajudar e a fazer coisas boas e etc é uma coisa que vem de a gente considerar as coisas como prontas. É quase como entender o universo como imutável e considerar a existência de um destino — que não existe regeneração, evolução pessoal, melhoria, mudança. Às vezes o que falta pra uma pessoa atingir um turning point na vida é um empurrãozinho. Alguém bonzinho lá pra dar a mão.

    5) E, por último, quão socialmente habilidoso será que eu sou? Será que faço pouca ou muita merda? Será que causo mal aos outros e não vejo, ignoro? E você, caro leitor, o que pensa?**

    *Esses dias me deparei com uma “lei” muito interessante, a “Lei de David“: se a manchete termina em um ponto de interrogação, a resposta é não.

    **Uma das pouquíssimas vezes que usei essa expressão no blog. É porque ela pode ser tão #fail, né? Pouca gente já lê esse blog, se não resolvem comentar então — Fica uma pergunta pra ninguém…

     

    10 responses to “Os Bons Só Se Ferram?*” RSS icon

    • Seguinte… Muitos bonzinhos são assim por esperar algo em troca, aceitação ou mesmo coisas em troca. Não é o que acontece. Uma vez escutei que sou bonzinho e me pareceu que fui chamado de bobo uaeheuehuea e pior, tem gente que acha que eu sou meio bobo mesmo, não ligo porque sei quem é quem e só sei hoje (com 39 anos) porque me ferrei muito, nada traumático mas me fodi bastante LOL! O negócio é ser o que eu sou. Me considero “uma pessoa boa” só que não quero nada de ninguém!

      Pra resumir eu sempre penso comigo: como quero ser lembrado nessa curta vida? Pelo poucos que me conhecem, sabe? Um religioso diria: o que quero levar dessa vida?
      Outra coisa que pergunto: com tanta gente FODENDO com tanta gente pra obter o que quer que seja eu preciso mesmo modificar o que sou só pra não ser o bonzinho ou bobo? Será que se eu fizer minha parte de acordo com o considero ético e correto não vou colaborar para que menos dessa gentalha continue se proliferando?
      Porque cá entre nós, bem em segredo, gente que consegue o que for só ferrando os outros é gente canalha…
      (não conte pra ninguém isso :P )

    • Cara, não é beeem que esperam algo em troca. Eu sei, eu sei, o conceito de “se ferrar” é relativo e muita gente acha que se ferrar é não receber algo que esperava (ainda que não tivesse declarado nada sobre essas expectativas), mas por exemplo: eu peço pra vc fazer um favor pra mim. Vc não consegue fazer a tempo por causa de… Sei lá, alguns contratempos, ou mesmo não faz direito. E eu chego pra vc todo irritado, xingo vc, etc. Ou seja, vc teve que aguentar um monte de impropérios ditos por um idiota (no caso, eu), e tudo que vc fez foi tentar ajudar. Entende o que quero dizer? Ou então a pessoa que vai ajudar alguém encostado numa BR (problemas no carro) e acaba assaltada. Aí às vezes acontecem essas coisas e as pessoas não entendem, ficam ressentidas e resolvem nunca mais ajudar ninguém.

      E quanto ao resto, também penso bem parecido com vc (só pra não dizer assim iguaaal igual) =)

    • Cara, este post é muito bom. O ápice dele (para mim) foi quando você levantou a idéia de que o “bonzinho” pode ser a “luz em meio as trevas” que pode acender as outras luzes, de pouco em pouco, até que luz seja a maioria.

      Até pq mal sabemos o quanto um pequeno gesto de bondade pode mudar o curso de uma situação. Um exemplo que me vem muito à cabeça também quando você fala sobre “Dar uma nova chance” é o do Abraham Lincoln, que simplesmente escolheu o seu maior “inimigo” político (que só faltava o chamar de santo) para ser o seu estrategista de guerra (ou algo assim). Os conselheiros dele disseram: “Você sabe quem é que você está nomeando?” e ele disse “sei muito bem quem estou nomeando”. Lincoln sabia que era um grande rival seu, mas reconhecia o conhecimento dele sobre guerra.

      Ao cabo da Historia, o que fora “inimigo” dele deu vários depoimentos de adimiração sobre Lincoln, inclusive na sua morte.

      Há também os que acreditam (sou um destes) que ser bonzinho não trará a “boa colheita”, se é que posso dizer assim, apenas nesta vida, mas principalmente em existencias futuras. Bom mas essa discussão já é para outros momentos.

      Enfim cara, parabéns. Excelente post.

    • Obrigado, Daniel, obrigado mesmo =D

      Não conhecia essa história sobre Lincoln. E a bem da verdade devo dizer que sei bem pouco sobre ele — mas, muito interessante =) É preciso sabedoria pra ir além das rivalidades e das opiniões contrárias pra reconhecer o talento / habilidade de alguém…

    • Ta, “os bonzinhos só se fodem”. Sei la acabei chegando numa não conclusão nada exata… depende do referencial…. Porque as vezes o bonzinho quér ajudar fulnao mas fulano não entende como tal, ou fulano ja foi uhn… bonzinho e se fudeu mas ele não é forte suficiente pra perseverar no lado do bem fa força. Ai ele diz um foda-se e se aproveita dos bonzinhos.
      Sim, sim eu sei que TUDO depende do referencial, mas é que eu particularmente ja vivi essas experiencias, a do ser o bonzinho e se ferrar e a de ter vontade de mandar tudo aos ares e decha tudo como esta.

      No fim geralmente lembro apenas da bela frase “è dando que se recebe, é amando que se é amada” mais ou menos assim que eu lembro da oração de São Francisco.

      Abraço

    • “Porque as vezes o bonzinho quér ajudar fulnao mas fulano não entende como tal, ou fulano ja foi uhn… bonzinho (…)”

      De uma forma ou de outra, o bonzinho do momento se ferra AEHAEhAEheAhAEAE =)

      No fundo só quem tem muita malícia no coração nunca viveu isso de ser inocente demais, de acabar sendo bom demais com alguém que se aproveitou e, bem, não merecia as coisas boas feitas.

    • Não se pode obrigar alguém a fazer algo. Pode-se tentar convencer. Tendo em vista que tentar ajudar convencendo é bom, mas obrigar uma mudança (direta ou indiretamente) é despotismo, o melhor que se pode fazer é opinar (quando existe essa possibilidade) e ter consciência do que deve ser feito por você para não sofrer tanto com o resultado, seja ele qual for ( acato à opinião ou continuação da “merda”).
      Aceito que é necessário ter o maior controle possível das nossas vidas, criando escudos contra atitudes não-concordantes de terceiros, mas nunca criando ataques deliberados “oito ou oitenta” contra aquelas.
      “Se defender” não é egoísmo, pois não afeta outros. Claro que é difícil criar defesas efetivas quando se preocupamos muito com as pessoas, sentimento inerente dos bonzinhos. Mas pode-se abrandar a dor quando se tem convicção de que tudo foi feito, tudo foi tentado, e a escolha só depende do outro.
      E para tornar a equação positiva, é válido concatenar ações (consequentemente, resultados), com pessoas que têm um pensamento parecido. Cercar-se de pessoas aumenta o “escudo”, e é bo pra todo mundo. Grupos de bonzinhos convencem terceiros mais facilmente, além de criar um grande “efeito esperança”. Tem gente que só acredita vendo, não é?

      Devo dizer que 2010 tem sido o melhor ano da minha vida, fruto de uma jornada em busca do auto-conhecimento, conhecimento geral e tomada de atitudes e decisões, sempre com a tolerância como base, sempre com alianças com pessoas que tenham o mesmo objetivo.
      O que quero dizer é: não mudei meu comportamento, e não tenho me fudido tanto.

      Um grande abraço!

    • Concordo, meu caro =)

      E que bom que não tens se fudido tanto eHAEHAEHAEHAEHAHae

      Abraço!

    • Não se pode obrigar alguém a fazer algo. Pode-se tentar convencer. Tendo em vista que tentar ajudar convencendo é bom, mas obrigar uma mudança (direta ou indiretamente) é despotismo, o melhor que se pode fazer é opinar (quando existe essa possibilidade) e ter consciência do que deve ser feito por você para não sofrer tanto com o resultado, seja ele qual for ( acato à opinião ou continuação da “merda”).
      Aceito que é necessário ter o maior controle possível das nossas vidas, criando escudos contra atitudes não-concordantes de terceiros, mas nunca criando ataques deliberados “oito ou oitenta” contra aquelas.
      “Se defender” não é egoísmo, pois não afeta outros. Claro que é difícil criar defesas efetivas quando se preocupamos muito com as pessoas, sentimento inerente dos bonzinhos. Mas pode-se abrandar a dor quando se tem convicção de que tudo foi feito, tudo foi tentado, e a escolha só depende do outro.
      E para tornar a equação positiva, é válido concatenar ações (consequentemente, resultados), com pessoas que têm um pensamento parecido. Cercar-se de pessoas aumenta o “escudo”, e é bo pra todo mundo. Grupos de bonzinhos convencem terceiros mais facilmente, além de criar um grande “efeito esperança”. Tem gente que só acredita vendo, não é?

      Devo dizer que 2010 tem sido o melhor ano da minha vida, fruto de uma jornada em busca do auto-conhecimento, conhecimento geral e tomada de atitudes e decisões, sempre com a tolerância como base, sempre com alianças com pessoas que tenham o mesmo objetivo.
      O que quero dizer é: não mudei meu comportamento, e não tenho me fudido tanto.

      Um grande abraço!

    • Concordo, meu caro =)

      E que bom que não tens se fudido tanto eHAEHAEHAEHAEHAHae

      Abraço!


    2 Trackbacks / Pingbacks

    Leave a reply

    blog comments powered by Disqus