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Mais uma sobre amizade
Postado em 73 de Discórdia de 3174 YOLD , às 5:40:73 View CommentsEnfim eu tenho quatro teorias acerca da amizade. Não são contraditórias, excludentes. Elas se encaixam, mas eu gostaria de saber como.
O meu último pensamento foi o seguinte: o amor é o mesmo sentimento que a amizade. Agora vamos do começo…
Para mim, o amor é um sentimento muito nobre e interessante, mas nós o experimentamos de uma maneira fragmentada, racionalizada, filtrada pela nossa cultura. O amor é uma pedra preciosa incrustrada em rochas. As rochas tornaram-se rochas que escondem a beleza da jóia através da disseminação memética de várias idéias acerca do que deveria ser o amor.
O amor deveria juntar dois em um. O amor deveria ser sobre casamento. “Eu tenho alguns direitos sobre o meu namorado, pelo menos!” – frase real – “eu acho que no mínimo ele deveria ter feito isso, etc”. Um amigo meu me contou de um psicólogo que disse que alguns casais não precisam exatamente de sexo na relação (eles satisfazem seus sentimentos de outras maneiras. É, aham, eu sei*. Ou** não.)
Ao perdermos a noção de amor puro e simples (puro, não casto, ok?) nós envenenamos o sentimento ao invadí-lo com éticas e obrigações e racionalismos do tipo “vamos analisar nossa relação – já contratei uma terapia de casal…”.
Considerando que na Grécia antiga considerava-se o amigo como mais importante que o amante, o que aconteceu de lá pra cá? Tínhamos um sentimento só, um sentimento sublime, o pico das tendências humanas de empatia, e ele foi dividido: temos uma parte da amizade e outra do amor. Superestimamos a última em detrimento da primeira.
Uma, se você pensar bem, é igual à outra, com a diferença de que no amor o sexo e as demonstrações mais íntimas de carinho são mais, ham, valorizadas…
… Ou será que estes foram, na amizade, reprimidas? Lembre-se que essas coisas ão realtivas, hum. Os gregos chamavam o homossexualismo de “amor entre iguais”…
Além disso, do fator “externalização” desses impulsos carnais, existe a “virtualização” dos mesmos – afinal, se eu te disser que por detrás de toda amizade existe algum tipo de ligação inconsciente primitiva relacionada ao sexo, você vai acreditar? Talvez não, mas se eu disse que foi Freud quem disse isso, muda, hum? …
De qualquer forma, a dicotomia entre amizade e amor nos faz criar desculpas culturais pra dar vazão ao que há de pior em nossas relações: justificamos nosso ciúme, nossa invasão na privacidade – e nas decisões – do outro, nossa baixa auto-estima com roupagem de [voz tosca on] “amor incondicional” [voz tosca off], e aí, com o prazer de uma ovelha que vai pro matadouro pelo seu dono, nos sacrificamos a alguém.
Amor e amizade são duas mínimas variações de um sentimento comum, que é simplesmente se sentir bem ao estar com alguém. É um círculo vicioso – ou melhor, é uma relação que ocorre quase ao mesmo tempo entre dois fatos: se você se sente bem com alguém, começa a “sentir” esse bem-estar, tomar consciência dessa sensação boa e – por isso o pura e simples – simples. E isso te faz gostar ainda mais dos momentos em que você está com essa pessoa. Ou você pode acabar sentindo algo pela pessoa e passar a aproveitar o tempo perto dela, etc.
Agora, não me pergunte por que é assim. Como diz Mal-2, “eu não fiz isso, cara”.
Se você procurar por (ou pior, se já tiver achado..) um motivo pra gostar de outra pessoa, aí entra minha idéia das pontes [esse post e esse também] (na verdade, aqui entram todas as outras, acho).
Porque essa relação de sentimento entre pessoas ou é intuitiva ou é uma construção – ou, melhor, uma desconstrução. Uma desconstrução do que se tem como motivo. Uma relação que existe por causa de alguma coisa não é uma amizade verdadeira (if coisa is gone, relação is gone too…) A pessoa acaba sendo um contato, não um amigo.
Por exemplo, eu adicionei no MSN muitas pessoas porque estavam envolvidas com o discordianismo. E olha que, pelo menos pra mim, esse meio é certeiro: nunca conheci um discordiano que não fosse muito interessante em algum sentido (olha que falácia boba, todas as pessoas são interessantes em algum sentido. Mas tem umas que você demora até achar o sentido…). Só que eu não sou amigo de todos eles. Isso porque eu me relaciono com eles “por um motivo” (por serem discordianos). Mas em alguns casos eu vou além – quando eu deixo de ser amigo, de conversar, de compartilhar experiências por causa de alguma coisa e passo a fazer o mesmo porque simplesmente gosto da pessoa.
Quanto à frase da Shanitz, é justamente adotar essa consciência ao conhecer alguém. É uma frase excelente porque é um grande desafio. Oh Hell. Se você quer um desafio na sua vida, teste esse. Não julgue ou classifique as pessoas ao conhecê-las…
Na verdade o desafio é tão grande, tão incomensuravelmente grande, tão estonteantemente grande (D.N.A., H2G2, alguém?) que dá pra encarar a coisa toda por outro jeito: o desafio não é deixar de julgar as pessoas, mas conseguir derrubar o julgamento inicial quando se “descobre” o elo emocional. E esse sim é um bom desafio, pois é o primeiro obstáculo, a primeira batalha que a amizade enfrenta, o que já começa a definir se teremos uma ponte forte para agüentar os trancos que aqui já se inauguram ou é uma ponte fraca e desnecessária, que em pouco tempo apodrece.
Falando em pontes fracas, em um daqueles dois posts eu falei sobre amizades e em como estas tornam-se melhores por resistirem a intempéries (nada mais normal, veja a principal idéia da biologia). Pois é, essa idéia continua de pé. Isso porque um dos parágrafos acima deu a entender que a amizade/amor se constituiriam num estado emocional calmo, tranquilo, idílico e pacífico – o que não acontece.
E quanto a suportar as feridas da mudança… Como pensou Sartre, somos definidos também pela imagem que os outros têm de nós. Em cima dessa imagem miscigenada, que mistura quem somos, quem pensamos que somos, quem queríamos ser e o que os outros dizem que somos, construímos toda a nossa realidade pessoal, nossa história. Mudar simplesmente quebra as fundações de realidade que os outros constróem no que diz respeito a nós. Aí os outros acabam pensando “ele/ela nao é mais o mesmo/mesma”. O importante, entretanto, é que nessa hora entra justamente a questão da adversidade na amizade – cada coisa desse tipo é uma prova e tanto. Se você é capaz de manter sua ligação com a pessoa mesmo depois de ela ficar diferente, a amizade resiste, torna-se mais forte. E veja, não é o caso da sua capacidade de manter a amizade, mas sim da própria estrutura da “ponte” de se manter (caso fosse a primeira alternativa, dependeria de você remediar a amizade, o que só se faria com remendos racionais. Amizade é sobre sentimento; uma vez que ele se quebrou gravemente, dificilmente uma conversa ou uma mudança de postura pode reverter o processo).
Bem, essa é a minha mais recente mistura das idéias que eu já tive sobre a amizade. Talvez eu mude de idéia. Talvez não…

photo credit: Skype Nomad* Supondo que o que você pensou foi “nooossa, que bizarro!”
** Supondo que você pensou “aahh, tá tirando sarro da minha cara!”
blog comments powered by Disqus2 responses to “Mais uma sobre amizade”

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“Se você é capaz de manter sua ligação com a pessoa mesmo depois de ela ficar diferente, a amizade resiste, torna-se mais forte.”
Incrível e fundamental !Obrigada,eu precisava ler isso hoje. =)
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Sahâmia, obrigado pelo comentário =}
Depois de uns e outros nos últimos meses, não sabe o quão feliz fico com ele ^^
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[...] que eu falei sobre amor e amizade, tenho pra mim que não há excessão quando se fala em amor-próprio. Amor que se tem pra si [...]
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[...] e isso parece tão eterno… Isso funciona com o amor, mas não sei por que falei isso, já que amor e amizade são o mesmo… Mas ocorre que no futuro tudo isso pode acabar – afinal, as coisas [...]
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[...] A questão é que isso vem de uma certa miserabilidade das pessoas – ou mesmo da idéia sobre o que é o amor – mas algumas coisas não. Alguns objetivos são mais falsos e artificiais que outros; ter um [...]
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Orkutcídio em Massa para Adoradores de Lasagna - Uma nova palavra? Milhões de novas palavras? julho 23rd, 2008 às 12:42
[...] concluir essa idéia: Amor e Amizade são duas palavras que já aglutinaram todos os significados possíveis – e [...]
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Sahâmia novembro 28th, 2008 às 21:04